“Cidades da Planície” é o terceiro e último livro que encerra a “Trilogia da Fronteira” escrito pelo romancista americano Cormac McCarthy, e a curiosidade em seu título é sua referência à Sodoma e Gomorra (Genesis19:29). Aliás, esse é um livro em que McCarthy claramente traz na figura dos seus personagens algumas alegorias bíblicas.
Nesta história que se passa em 1952, os protagonistas dos dois primeiros livros, John Grade Cole (“Todos os Belos Cavalos”) e Billy Parham (“A Travessia”) tem suas vidas cruzadas em uma fazenda de gado ao sul de Alamagordo, Novo México, não muito longe das cidades fronteiriças de El Paso, Texas, e Ciudad Juárez, no estado de Chihuahua, México, onde trabalham juntos.
John Cole, embora seja o mais jovem da dupla, tem essa imagem do herói, do salvador, além de ser um verdadeiro mestre (e encantador) em treinar cavalos. Já por outro lado temos Billy Parham, um exímio rastreador, porém um homem bem mais cético a respeito da vida depois das experiências (e tragédias) que viveu no México.
A combinação de ambos é algo fascinante de se ver, porque McCarthy, entre as crueldades da vida simples no rancho, e das brutalidades que ocorrem por lá, constrói uma base sólida de lealdade e amor (fraternal) entre esses personagens masculinos tão brutos. Os diálogos, embora sejam bem simplórios, trazem uma profundidade de sentimentos que permeiam essas relações ao longo de toda a história que chega a ser paupável.
Aliás, as relações são a parte mais importante desse enredo, e o desejo de fazer diferente de tudo o que deu errado nas primeiras histórias é o que move esses protagonistas vindos dos outros livros da trilogia.
Ser o salvador está dentro tanto do John Cole quanto de Billy Parham, que buscam a todo custo consertar seus erros do passado, na esperança de que desta vez possam ser bem-sucedidos.
Enquanto para John Cole uma prostituta mexicana adolescente chamada Magdalena (temos ou não temos aqui uma alegoria bíblica?) é o amor que desta vez ele não deixará escapar, para Billy Parham, Cole é o substituto do seu irmão mais novo morto no México que ele irá proteger a todo custo.
Muito embora ele possa até ter um plot mais simples, e até mais previsível, a escrita de McCarthy sempre tem esse poder absurdo de nos fascinar pelas suas belas descrições das paisagens e da vida no rancho, que por mais simples que seja, pode nos surpreender ao revelar algumas de suas benécias.
Não muito diferente do que acontece nos dois primeiros livros, “Cidades da Planície” se encerra com várias páginas onde McCarthy nos prende com a sua filosofia em que não importam as virtudes, ou os dons, ou qualquer essência do bem presente no mundo porque, ao final, quem vence é sempre o caos.
Publicado em 1998 nos Estados Unidos, e em 2001 no Brasil pela Companhia das Letras, “Cidades da Planície” recebeu uma crítica favorável do “The New York Times”, apesar do crítico ter depreciado a prosa violenta e a linguagem enigmática de McCarthy, tendo ressaltado que neste livro “Começamos a perder a simples evocação da vida de cowboy que é tão emocionante nos romances anteriores”.
Em 2007, o diretor e cineasta australiano Andrew Dominik anunciou seu interesse em uma adaptação cinematográfica deste livro, que seria estrelada pelo ator James Franco. Porém, em 2018 esses planos parecem ter fracassado, e o projeto foi deixado de lado.
Entre aplausos e condenações, a verdade é que ao final, em “Cidades da Planície” temos um retrato emocionado sobre os limites da paixão, da lealdade fraternal e da inevitável passagem do tempo que irá moldar o caráter dos seus personagens, e definirá o lugar que ocuparão no mundo ao final de suas jornadas.
Certamente esse é um bom livro para se ler, reler e se emocionar.