Durante as primeiras décadas do século XX, o mundo viu surgirem diversas correntes artísticas que, por mais variadas que fossem suas técnicas, tinham em comum o intuito consciente de revolucionar a maneira como o homem se relaciona com a arte. Foram as chamadas vanguardas, dentre as quais nos são mais conhecidas o cubismo, o dadaísmo, o surrealismo e o futurismo. Ortega y Gasset acompanhou o surgimento e o desenrolar dessas novas concepções e práticas artísticas, bem como a reação que elas causavam nas pessoas, em geral céticas a essas inovações por demais radicais. Em 1925, publicou A desumanização da arte, onde deu a conhecer suas conclusões a respeito da “nova arte”, que para ele era não só impopular, porque rechaçada pelo público, mas mesmo antipopular, porque feita para artistas, mais do que para o público comum. Além do texto original de A desumanização da arte, o leitor também encontrará nesta edição outros dois artigos de Ortega a respeito do mesmo tema — idéias sobre o romance e A arte no presente e no passado —, e seu ensaio mais longo A idéia do teatro, uma abordagem fenomenológica do acontecimento teatral.
A Desumanização da Arte & Outros Escritos - Ideias sobre Romance, A Arte no Presente e no Passado, A Ideia do Teatro
José Ortega y Gasset
Excelente livro! Recomendo a leitura, sobretudo aos artistas (em geral)
A Desumanização da Arte é um livro com ensaios reunidos, do filósofo, sociólogo, crítico de arte espanhol (autor de livros como Meditações sobre Quixote, Estudos sobre o amor, Rebelião das massas, etc.) José Ortega y Gasset. Este livro foi publicado no ano de 1925. O título parece ser algo taxativo ou condenatório, porém não é isso. Como bem diz o autor do prefácio Vicente Cechelero em seu texto inicial: Diante de tanta bobagem que se dizia na época sobre arte moderna, tanta reação, bajulação ou repúdio, Ortega foi e continua sendo genialmente sóbrio neste seu curto e extraordinário ensaio. Ortega y Gasset, como filósofo e crítico de arte, buscou compreender os fenômenos artísticos, filosóficos e sociológicos, sem bajular e nem condenar o artista moderno. Ele buscou compreender vários pontos de vista, como os dos artistas modernos, dos românticos e assim como as reações do povo. Esta busca de ver um fato diante vários pontos de vista para buscar a compreensão global da realidade, é algo que ele comenta na conclusão de seu livro, reconhecendo que nele haja probabilidade de haver erros, esperando, por fim, que seja sanado por outros estudiosos: É, pois, sobremaneira provável que este ensaio de filiar a nova arte não contenha senão erros. Ao terminá-lo, no volume que ele ocupava brotam agora em mim curiosidade e esperança de que depois dele se façam outros mais certeiros. Entre muitos poderemos repartir entre nós os dez mil nomes. [...]Moveu-me exclusivamente a delícia de tentar compreender - nem a ira , nem o entusiasmo. Procurei buscar o sentido dos novos propósitos artísticos, e isto, é claro, supõe um estado de espírito cheio de prévia benevolência. (P. 83-84). Esta busca por esta compressão destes diversos ângulos se torna nítido a cada capítulo deste livro. São capítulos curtos, mas recheados de tamanho conhecimento e com uma escrita maravilhosa e inteligível a quem for ler. Ele se indaga, por que a arte moderna não foi aclamada da mesma forma que a arte romântica? Este foi o começo da investigação. O autor afirma que toda a nova arte é uma espécie de choque e novidade, em que em seu começo, é uma arte não popular. Contudo, há uma diferença entre arte não popular e impopular. Ele explana aqui que quem não gostou da nova arte romântica, foram os artistas coletas (com perucas do século XVIII) em que não gostavam da nova estética proposta pelos românticos, porém foi uma minoria que não gostou, porque o povo, como bem destaca o filósofo, aclamou a nova arte, pois ela é inteligível para todos, sendo uma arte democrática como chama o próprio autor. Desde o analfabeto até o mais intelectual dos intelectuais, todos podiam compreender a arte romântica. Mas este fenômeno não ocorreu da mesma forma com a arte moderna, sendo chamada, de maneira sociológica pelo próprio autor, de arte para artista. Porém, podemos nos questionar, por que a arte romântica foi aclamada pela maioria e a arte moderna não? O fato se decorre de que o romantismo, assim como o naturalismo, tem raiz no realismo. Surge a seguinte questão, mas como escola literária e filosófica, o realismo não é um movimento de contraposição ao romantismo? O que o filósofo Ortega Y Gasset que dizer aqui, é que o romantismo, sim, busca a representação do real. Ora, os sentimento não são reais? Todos nós temos sentimentos de amor, raiva, felicidade, tristeza, pavor, tranquilidade, etc. O realismo do romantismo se trata na própria identificação do contemplador à obra de arte, é como um leitor se identificar com o personagem e seus sentimentos. Isto ocorre, porque o receptor sente que o que lê se trata de questões reais. O mesmo podemos encontrar em contos de fada e ficções, como é o caso de Senhor dos Anéis de Tolkien e Crônicas de Nárnia de C.S Lewis, que nos identificamos do que se trata, pois há algo verdadeiro neles. Até mesmo para a criação de personagens irreais é necessário à realidade. Pois pensemos, como imaginamos um elfo? Pensamos em um ser humano, porém com ouvidos pontudos. Podemos pensar em seres que não existem, como um homem com cabeça de touro, como o Minotauro; assim como um hipopótamo, com as barbatanas e dentes coloridos. Todos eles não existem, porém conseguimos imaginar, porque suas características são reais. Pois só conseguimos imaginar aquilo que conhecemos, portanto a imaginação precisa do real para existir. Porém, como destaca o próprio autor, uma coisa é arte pura, outra coisa é a representação do real. Pensemos numa janela, em que o vidro está fechado e no outro lado há uma flor com uma paisagem bonita. Pergunte ao leigo o que ele vê, provavelmente dirá que vê a flor e no fundo há uma paisagem. Porém o que ele diz ver é a representação do real. Agora peça para ver o vidro ao mudar sua percepção, ele deixa de ver a flor, e passa a ver as sujeiras e as regiões limpas do vidro. O vidro é como se fosse à obra de arte pura. Se observarmos o quadro Carlos V de Tiziano e alguém respondesse da seguinte forma acerca de seu parecer sobre a obra: Este quadro é heroico. Na verdade, esta pessoa não está falando do retrato e de sua estética, mas sim do retratado. E isto é muito comum nas obras de artes em geral, o contemplador leigo contemplar a realidade vivida observada na obra do que a arte pura em si. Como o movimento romântico perdurou um século inteiro, quando um estilo musical, assim como um pensamento, dura muito tempo, o qual é explorado cada vez mais, e unicamente nele, há uma espécie de fadiga, como aponta Gasset. Seria como comer pão com queijo numa viagem inteira ao transatlântico, como é o exemplo da história contada pelo Padre Léo em uma de suas prédicas (PEREIRA, Padre Léo. Padre Léo e A história do Pão com queijo. Youtube. Duração 16min 17s. Trecho da pregação: Somos filhos de Deus. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=hYeTUFDYQuw> Acesso em 11 mar. 21). Com esta fadiga da representação do real, que se culmina por todo o século XIX, há uma espécie de fuga desta, assim como fuga do homem, surge-se a arte de moderna, como forma de fugir dos traços do real e do homem. A arte moderna, de acordo com o filósofo, passa a rejeitar qualquer traço do real e do homem, para buscar a arte pura em si. Com este desejo, o artista deixa de olhar para a realizada e passa a olhar para si. A representação do objetivo é substituído pelo subjetivo do artista. No entanto, supomos o seguinte exemplo: o artista moderno cria uma obra de arte subjetiva, em que ele mesmo fala que o que ele pintou, é a representação da raiva. Mas os contempladores leigos não compreendem desta maneira e não entendem o quadro como sentimento de raiva. Por que isto acontece? Porque para o contemplador sentir o que o artista sente, é necessário haver algo em comum, ou seja, algo objetivo que faça com que o receptor sinta o mesmo que o interlocutor. Mas lembremo-nos de que o objetivo é fruto do real, algo que o artista moderno busca fugir. Em outras palavras, para contemplar a arte moderna, é necessária uma espécie de preparação da percepção artística, mas isso requer certo conhecimento para poder tê-la para compreender a nova arte. E qual é o leigo que vai ter tempo para isso? Portanto, o leigo acaba preferindo uma arte mais acessível em que contempla o real na arte do que uma arte em que ele não consegue entender nada. Lembrando que há exceção, o próprio autor fala isso, que não dá para generalizar isto em toda a nova arte: Seria cansativo repetir, sob cada uma destas páginas. que cada um dos traços sublinhados por mim como essenciais à nova arte devem ser entendidos no sentido de propensões predominantes e não de atribuições absolutas. (N . do A.) (p. 63). Assim como também disse Vicente Cechelero autor do prefácio, como exemplo de exceções: [...] Em um poema de Vicente Huidobro (por exemplo, "Altazor") ou de Apollinaire ("Zone"), que são poetas vanguardistas per excellentiam, nem sempre a incompreensão e a desumanização da sensação são possíveis; ambos os poemas têm muito de "humano, demasiado humano" e do mundo "real". (p. 11). Em relação ao povo, houve uma espécie de estranhamento. Se para o artista moderno, houve uma fadiga da representação real, muito presente no romantismo, pensem que a maioria das pessoas ainda se compraziam com a arte romântica. Pensemos na música, como também descreve Ortega y Gasset, para bem aproveitarmos a música romântica precisamos nos debruçar aos sentimentos que os compositores querem evocar, para poder aproveitar verdadeiramente a sua música. Se quisermos nos deleitar ao ouvir as músicas de Beethoven, temos que nos debruçar aos sentimentos que ele quer nos despertar. Observemos o que diz Gasset sobre isso: Desde Beethoven até Wagner o tema da música foi a expressão de sentimentos pessoais. O artista mélico compunha grandes edifícios sonoros para alojar neles a sua autobiografia. Era mais ou menos a arte-confissão. Não havia outro modo de prazer estético além da contaminação. " Na música - dizia ainda Nietzsche as paixões se aprazem consigo mesmas". Wagner injeta no Tristão o seu adultério com a Wesendonck e não nos resta outro remédio, caso queiramos comprazer-nos em sua obra, senão nos tornarmos, durante um par de horas, vagamente adúlteros. Aquela música nos compunge e, para gozá-la, temos que chorar, angustiar-nos ou derreter-nos numa voluptuosidade espasmódica. De Beethoven a Wagner toda a música é melodrama (p. 49-50). Com isso, passo a entender a famosa frase de Beethoven ou ao menos atribuída a ele: Tocar uma nota errada é insignificante, mas tocar sem paixão (sentimento) é imperdoável. O mesmo vale para a contemplação da música. Se queremos aproveitar a audição do segundo movimento do Concerto Imperador, precisamos nos permitir de sermos levados pelo etéreo da musa da música; assim como também ao ouvir o Romance para violino e orquestra em Fá maior, do mesmo compositor, de nos permitir sentir-se apaixonados ao ouvir a música; e por que não dizer que nos enchemos de alegria ao ouvir o canto jubiloso da sua Nona Sinfonia? Para os românticos isto é aproveitar bem do que a obra lhe oferece. Porém, os artistas modernos trazem a seguinte indagação: Ora, estás se aprazendo da própria arte ou dos próprios sentimentos que a arte lhe invoca?. É interessante pensar de que se para os românticos, a música e a paixão eram algo unidas (devidos à aproximação criada dos românticos entre os limites da arte e o real), para os modernos há uma dissociação entre arte pura e realidade. A arte, para eles, é algo que busca o irreal. Portanto, a busca que eles tem é de evitar o real. Porém ao evitá-lo, observa-se que nossa mente é moldada sobre o real, como disse antes. Então o que se faz? Nega-se a realidade, assim como nega-se o homem. Se antes o homem (humanidade) era o centro da arte, com os modernos houve a busca da arte pela arte eis a desumanização da arte. Em outras palavras, a forma como se vê a arte de ambos os lados são diferentes. A partir daí, o escritor Ortega Y Gasset explora vários pontos correspondentes a todos estes fatos, entrando nas minúcias. Ele fala de Debussy e de escritores como Pirandello, pintores como Picasso, etc. Aliás, esta obra me despertou a vontade de ler seu artigo sobre as músicas de Debussy, assim como o livro que o compositor escreveu, chamado Mounsier Croche e outros ensaios sobre música. Gosto muito deste compositor, sobretudo da sua Revêrie e da sua Sonata para violino e piano. Este livro me despertou o desejo de conhecer mais sobre a arte moderna, arte romântica, assim como vários assuntos abordados e obras ali comentadas. Recomendo a todos a leitura, foi de grande aprendizado para mim, assim como acredito que também o será para vocês.
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