Eu tenho uma sensação frustrante, quando leio livros de sagas em que autores mudam o tom de um livro para o outro ao ponto de parecerem esquecer o que escreveram no livro anterior. No caso de Outlander me pergunto: para onde foi aquele caminho interessante da investigação sobre a existência da magia, os viajantes do tempo, os diferentes 'dons mágicos' dessas pessoas? essa parte da estória nunca é abordada satisfatoriamente...são apenas elementos de distração que aparecem de vez em quando para logo cair no esquecimento da autora. Mas além dessa descontinuidade e da narrativa fraca em torno de personagens tão interessantes, há outros fatores que me fazem questionar se quero continuar lendo a saga dessas pessoas por quem tanto me interessei (alguns ainda me interesso, infelizmente)
Tive muita dificuldade em terminar esse livro e tenho que reconhecer que o motivo para isso seja, principalmente, a mudança que aconteceu em mim como leitora desde o lançamento do último livro da saga. Algumas abordagens que me provocavam um leve desconforto agora me incomodam MUITO. E essa saga nunca teve a pretensão de ser uma narrativa mais crítica sobre eventos históricos - ela sempre foi essa ficção amorosa/histórica/fantasiosa que usa a história apenas como um adereço, mas que entretém bastante quem gosta do gênero. O que me leva a ter certeza de que a mudança aconteceu em mim.
Comecei a ler Outlander mais atraída pelo plot "viagem no tempo/Escócia do século XVIII" do que pelo romance tórrido entre Claire e James, pois em se tratando de romance "açucarado" em ficção histórica, esse é um bem clichê: a mulher inglesa e educada (por tanto civilizada, o que a deixa com aura de superior) se apaixonando pelo escocês líder de clã e guerreiro: uma das referências mais próximas que os ingleses tinham para "seres" selvagens, incivilizados e ignorantes (antes de começarem a invadir outros continentes), portanto, inferiores aos ingleses. Esse é um dos motivos para esse tipo de romance ser tão popular, essa....improbabilidade do amor-romântico entre o que é percebido como civilização (evolução) e selvageria (atraso), entre outros fetiches...A diferença aqui é que a dita mulher vem do "futuro" em relação ao escocês bonitão; felizmente em Outlander há outras personagens, vivendo suas próprias estórias com drama, conflitos, aventuras, oferecendo opções para quem não sentiu tanta empatia assim pelo casal principal (foi uma surpresa agradável poder acompanhar Roger e Brianna, Lorde John, etc)
Mas desde que essa saga atravessou o Atlântico, em alguns momentos a narrativa é extremamente desconfortável de ler para quem tem o mínimo de senso crítico sobre esse determinado período escolhido como pano de fundo. De "como essa gente vai sobreviver numa época em que não existia nem antibiótico, com meio mundo lutando ainda com espada e derivados (!?!?)", Outlander passou a ser sobre *A maravilhosa e linda história da Fundação dos EUA*, *Luta pela liberdade dos colonos americanos contra a malvadona Inglaterra*....e eu me pego pensando "não foi pra isso que eu vim aqui", todo esse:
- "Conto do bom colonizador": o colonizador bonzinho que só que cuidar do seu povo basicamente formado por pessoas insuportáveis e extremamente religiosas (típicas da Idade Média europeia até os dias de hoje), que vivem em terras roubadas e que acham um absurdo quando os indígenas revidam pois "eles só querem viver a vidinha deles...em terras invadidas....de vez em quando massacrando aldeias inteiras, poxa que mal há nisso?"
- Eu odeio toda a menção ao cristianismo feita nesse livro, não importa qual vertente seja é sempre com aquele ar paternalista, condescendente, superior, "quero te converter"
- Cada vez que aparece indígenas ou pessoas negras na narrativa...é tão incômodo ler como o discurso da Claire é sempre "ai tadinhos, mas é assim mesmo, o importante é que os escoceses estão prosperando, se multiplicando, tendo terras e estou presenciado a história linda do meu país do coração acontecendo", corta pra ela e Jaime fazendo amor tórrido sobre o céu estrelado do "Novo Mundo" sendo conquistado. E é muito apropriado - para a autora - que o futuro do qual essa personagem veio, ainda seja um momento de pouca ou quase nenhum discussão sobre povos sendo massacrados nesse contexto. Assim ficamos com a narração em 1ª pessoa de quem ainda tem um olhar antiquado e ultrapassado sobre colonialismo.
Recentemente, um cemitério de crianças indígenas foi encontrado em um orfanato católico no Canadá, mostrando o caráter genocida e etnocida da colonização europeia por lá, mas a autora achou por bem colocar um personagem indígena criado em um desses orfanatos e mostrar isso como "olha que coisa maravilhosa que o nobre inglês fez ao deixar essa criança órfã nas mãos dos padres, olha como deu tudo certo: ele deixou de ser indígena e se transformou em um 'civilizado' que reza para um santo católico...o único inconveniente é que ele não sabe quem é o papai dele, nem o nome *católico* que a mãe dele *indígena* deu a ele. E daí que ele não sabe de que povo veio?"
- Eu não sei nem como comentar a presença daquela tropa de pessoas negras lutando pela Inglaterra - o que os torna automaticamente vilões - e todo aquele ar de "mas como essas pessoas negras estão lutando ao lado do Mal, contra nós que somo os mocinhos, os colonizadores bonzinhos?"
Sinceramente, se você vai escrever uma estória em que há personagens que pertencem a grupos étnicos-raciais com um percurso histórico que não é o mesmo que o seu, com formas específicas de compreensão e relação com o mundo que não seja igual ao seu, onde essas especificidades são IMPORTANTES e FUNDAMENTAIS para o desenvolvimento da narrativa - qual é a dificuldade em contratar revisores que sejam desses grupos para dizer "olha, isso aqui soa falso, irreal, no mínimo ingênuo. Esse costume não faz parte do meu povo, essa forma de pensar não condiz com a nossos hábitos naquela época". Eu tenho essa sensação de ler falsidade estereotipada cada vez que tem algum personagem de um grupo em que a Claire não se enquadra, até mesmo se for alguém da Europa, como os escoceses e os irlandeses...é de revirar os olhos.
Essa saga sempre foi problemática em vários níveis, mas esse livro em específico, talvez por ter sido o mais fraco entre os que foram lançados, me mostrou que a forma que algumas sagas de ficção histórica escolhem tratar assuntos que merecem mais trato e comprometimento com fatos históricos, já não me agradam mais. Essa em particular parece se arrastar em nome das vendas.