“Aqui a gente fala, e as palavras ficam quentes dentro da boca por causa do calor que faz lá fora, e vão se ressecando na língua da gente até a gente ficar sem fôlego.” Assim iniciada a jornada de Chão em chamas que guia o leitor através da árida paisagem do estado de Jalisco, oeste mexicano. Ambientados nesse lugar da primeira infância de Juan Rulfo, os escritos aqui reunidos transitam entre a crueza de um realismo e a fantasia própria da existência latino-americana. A construção deste livro foi por si só foi uma peregrinação. Os primeiros contos de Rulfo foram publicados nas revistas literárias Pan e América e, graças a sua qualidade, o autor logrou receber uma bolsa do Centro Mexicano de Escritores, quando escreveu mais sete histórias, e assim publicou a primeira versão de Chão em chamas em 1953. Ainda não satisfeito, Rulfo impôs ao livro mais revisões, adições e cortes, tanto de trechos e como de contos, até que, em 1970, assumiu uma forma final – sendo esta a versão a considerada para a presente edição brasileira. Nas palavras do amigo e tradutor Eric Nepomuceno: “Juan Rulfo era um obcecado pelo corte, pelo polimento final, pelo secar de um texto até reduzi-lo à mais rigorosa exatidão.” Tanto zelo e precisão são tão trabalhados que quase passam despercebidos ao leitor. Os contos de Chão em chamas são repletos de marcas de oralidade, de introspecção ao ambiente agreste e duro, mas mesmo assim, encantador de Jalisco. Considerado uma obra regionalista, a realidade mexicana pode fazer soar como a brasileira e reverbera a condição humana universal e ao mesmo tempo que os dramas particulares latino-americanos. A morte, o conflito de terras, o amor, a doença, a sexualidade, a miséria, a fé, a violência, a injustiça e a indignação, são alguns temas que os personagens de Rulfo, homens e mulheres brutos, inflamados ou melancólicos, conduzem o leitor e se misturam em meio de desertos e chuvas da imensa chapada. Chão em chamas é o primeiro e único de livro de contos de Juan Rulfo, este escritor mexicano maior, referenciado por nomes como Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges e Susan Sontag. Obra aparentemente simples, porém, sem dúvida, profundamente desconcertante. Em sua unidade formal repousa uma grande diversidade de linguagens, registros e tons com os quais Rulfo aborda o problema de uma violência multifacetada – ora desencadeada, ora insidiosa –, a tal ponto naturalizada que não é mais reconhecida como tal.
Chão em chamas -
Juan Rulfo
Queimaduras de terceiro grau
Uma terra ressequida onde o tempo não passa, onde os vínculos familiares se desfazem como em fogo lento e a vida se deteriora numa espera entorpecida pela morte: é nessa atmosfera de aridez literal e simbólica que se passam os contos de “Chão em chamas” (1953), de Juan Rulfo. No calor escaldante das planícies mexicanas, entre ruínas e paisagens desoladas, a natureza é ora hostil e impiedosa, ora uma força impassível, indiferente aos dilemas humanos. O autor não escreve sobre tragédias definitivas, mas sobre vidas cujos desfechos são indefiníveis. Inconclusivos no plano da trama, mas conclusivos no plano simbólico: os finais de seus personagens não se resolvem — se perpetuam. Muitos personagens alimentam esperanças, prometem voltar, conseguir algo, reencontrar alguém, mas as estruturas físicas, morais, sociais e políticas que os cercam os paralisam. Acabam, então, vagando sem um propósito alcançável, até que suas vidas se esfarelem, lentamente e sem estardalhaço, como carne apodrecendo ao sol. A prosa circular de Rulfo trabalha em espiral e não linearmente; opera sobre lacunas, silêncios e tempo suspenso. Raramente se expõem fatos de modo direto, e a cronologia, frequentemente, é truncada. São marcas modernistas do estilo do escritor, que exigem do leitor um papel intelectualmente ativo na reconstrução da trama. Quem aprecia fruição estética se deleitará com passagens de lirismo extremamente sofisticado nos contos mediados por narrador impessoal. Já nas histórias contadas em primeira pessoa, a linguagem oral economicamente articulada permite o reconhecimento imediato da realidade do personagem, sem necessidade de explicações. Ainda que em “Chão em chamas” o elemento sobrenatural não seja tão explícito quanto no romance “Pedro Páramo” (1955), há uma constante sensação de que os personagens vagueiam entre os mundos dos vivos e dos mortos; caminham, errantes, em dissolução, até que se dê seu completo desaparecimento. Sobre eles, pairam sombras escuras e diligentes como urubus, ávidos por devorarem os restos — e não é por acaso que urubus voam em círculos. “Chão em chamas” foi uma das estreias mais audaciosas da literatura do Século XX. Ombro a ombro com estreantes como James Joyce (“Dublinenses”) e João Guimarães Rosa (“Sagarana”), Rulfo demonstrou que os contos são tão valiosos para a grande literatura quanto os romances e novelas. E, com as duas obras que publicou em vida — apenas duas, monumentais —, não só entrou para o cânone como se consagrou um dos maiores ficcionistas de todos os tempos.
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