Ler transcrições de peças teatrais é sempre uma experiência complicada, a redução de um texto pensado para ser encenado, visto de forma tridimensional com elementos que o mero texto na forma de roteiro é incapaz de traduzir, acaba sempre sendo empobrecedora. Corpo a Corpo de Oduvaldo Vianna Filho nessa edição da Temporal a despeito dos textos de apoio e capricho da edição não escapa a essa sina.
Essa edição inclusive claramente é uma edição de estudo, para leitores interessados em estudar a fundo a obra de Oduvaldo ou Vianinha para os íntimos, agora para o leitor curioso, não ligado ao teatro talvez a experiência não seja tão positiva.
Para o leitor comum talvez seja interessante pular o texto inicial de apoio e ler diretamente a partir do texto sobre a peça escrito pelo próprio Oduvaldo comentando sobre sua obra. Tendo lido a peça o leitor pode então voltar ao texto de introdução e posteriormente ler o posfácio e demais extras incluídos como fichas técnicas das apresentações e recomendações de leitura.
A despeito da atualidade de seu argumento, a peça propriamente dita Corpo a Corpo, lida como um texto pode ser uma experiência um tanto morna. Sendo apesar de alguns recursos essencialmente um monólogo, boa parte de seu apelo depende de uma identificação com o protagonista, o problema é que o texto do personagem não é exatamente convidativo. Conforme o texto avança e conhecendo-se o contexto histórico e político da peça entende-se melhor, porém certamente a peça devidamente encenada é mais palatável.
Nesse sentido os textos de apoio dessa edição podem ajudar bastante. Cabe dizer, entretanto, que a apresentação da profª Maria Sílvia Betti é escrita de forma bastante acadêmica podendo parecer bastante árida para não estudiosos. Nesse sentido o posfácio escrito por Rosangela Patriota é bem acessível e trás elementos úteis para contextualizar a peça ao momento atual.
Corpo a Corpo de Oduvaldo Vianna Filho ressalvado a perda de apelo em uma apresentação meramente textual faz uma contundente crítica a transformação da arte em mero meio de convencimento e condicionamento popular ao mesmo tempo que retrata o artista reduzido a mascate cooptado pelo Sistema. Se é certo que o texto limita-se a apresentar a revolta e posterior subjugação do protagonista sem juízos morais, a crítica subjacente é evidente.
Em tempos de redes sociais onde a artificialização da vida atinge níveis inimagináveis a crítica da peça a propaganda é a um só tempo atual e um tanto ingênua. Hoje não é preciso nem mesmo que atores profissionais sejam cooptados, o cidadão comum é facilmente enredado e transformado em consumidor, propagandista e produto, tudo ao mesmo tempo.