Eu estava com uma curiosidade fora do comum sobre este livro. Primeiro que, mesmo que não seja de vital importância para a leitura, há esta capa maravilhosa. A imaginação já rola solta. Depois, a sinopse instigante. Por fim, terceiro lugar no Premio Herralde de Novela em 2005 lhe concede um certo prestígio.
O livro é narrado em primeira pessoa e dividido em três partes distintas.
A primeira retrata da infância à adolescência de Ana, a protagonista e nos apresenta à Coisa, esta presença que vive dentro da menina e a inquieta.
Sabía que dentro de mí también vivía una cosa sin forma imaginable que jugaba cuando yo jugaba, comía cuando yo comía, era niña mientras yo lo era. Estaba segura de que algún día La Cosa iba a manifestarse, a dar signos de vida, y aunque la idea me parecía espeluznante, no dejaba de buscar esos signos en todos los pasillos de mi vida cotidiana como otras personas rastrean las espinillas que hay sobre su cara o las costras de grasa debajo del cabello. - pág. 13
A segunda se ambienta numa instituição para cegos onde Ana vai trabalhar como leitora e tem uma relação ambígua com os cegos; sua presença no instituto se dá por razões pessoais, mas ela acaba fazendo reflexões sobre o modo de vida dessas pessoas.
No tardé mucho en comprender que esa institución, supuestamente creada para ellos, los tomaba raramente en cuenta. ¿Cuántas personas en el equipo de maestros, psicólogos, camareros y enfermeras eran ciegos o lo habían sido? ¿Cuántos internos participaban en las decisiones administrativas? Que yo supiera, ninguno. - pág. 75
A terceira apresenta Ana a um submundo desconhecido, formado por grupos de pessoas marginalizadas pelos mais diversos motivos e também idealistas, que vivem da mendicância e praticam ações políticas.
En ese ambiente contenido, una mezcla de ceremonia sectaria y carnaval, encontré algo que no había experimentado en años: fraternidad en el sentido más cotidiano; tropezarse con los demás; sentir sus cuerpos cerca. Distinguir sus olores - por más fuertes que fueran - era de alguna forma grato, pues distraía del tufo de los costales. - pág. 144
A proposta da autora me parece bem ambiciosa: tratar dos duplos, dos desdobramentos que ocorrem dentro das pessoas, nas instituições, na sociedade. La Cosa que cresce em Ana e vai revelando um lado seu que ela teme aceitar; os cegos que vivem numa instituição que deveria ajudá-los a serem independentes, mas que só os hospeda; os humanos que vivem à sombra da sociedade, a gente que ninguém vê. O que ocorre é que embora a escrita de Nettel seja extremamente fluida, há uma ruptura entre a primeira parte - tão magistralmente construída - e a segunda, o que provoca uma queda no fluxo, um esfriamento. Depois, na terceira parte, a autora retoma tudo, mas aí muitas coisas já estão perdidas.
Acho, por exemplo, que era sua intenção chamar a atenção para a questão social, mas a verdade é que ela não é feliz em criar uma empatia, em nos colocar ao lado desses marginalizados, como o fez tão bem Fernanda Melchor em Temporada de Furacões. Nós nem entendemos bem, afinal, qual a causa dessas pessoas. Tampouco Ana é uma protagonista empática.
Mas ainda assim, eu fiz várias reflexões nesta leitura que era pra durar dois dias e durou seis. Queria muito ter tido alguém com quem debater durante este tempo, mas não tive, debati comigo mesma! rs... Isso já valeu muito o livro.