Tudo se passa no início dos 60, nos EUA. Um casal jovem, com 2 filhos pequenos (tidos precocemente e sem querer), vive angustiado com a mediocridade de suas rotinas, das pessoas que os cercam e da vida, que a maior parte das pessoas leva, sem qualquer questionamento. Nesse sentido, lembrei-me de "A Trégua", de Benedetti, quando o protagonista diz "suportaria melhor meu estilo de vida se não tivesse consciência de que (apenas mentalmente, claro) estou acima dessa vulgaridade". A questão é que essa "consciência" não é tão firme para Frank e April, que, ao mesmo tempo em que anseiam desesperadamente por um destino melhor, ou mais interessante, desconhecem em si mesmos o talento capaz de diferenciá-los.
E, nessa busca, Frank acaba por embarcar no plano sonhado por April de irem morar em Paris (por que será que sempre Paris?) como a oportunidade de ouro para se libertarem do 'vulgar', satisfazerem suas carências de conviver com pessoas 'interessantes' e descobrirem um sentido para suas vidas, sem a pressão e a obrigação de serem felizes porque capazes de consumir tudo o que, em tese, representaria 'ter uma vida feliz'.
Para mim, o melhor do livro, assim como do filme, ocorre no momento em que ambos estão envolvidos nesse processo e contagiados pelas boas expectativas de vida em Paris, e tudo o que acontece naturalmente pelo simples fato de terem renovado suas esperanças na vida.
Porém, o que, a princípio, parecia ser o motivo de maior química do casal, que era a afinidade, típica de pessoas que têm a mesma visão de mundo, aos poucos vai se esfacelando e deixando à mostra todas as incongruências do relacionamento, arruinado justamente pela consciência de que a afinidade, como se pensava, talvez nunca tenha existido.
"Que coisa mais ardilosa e traiçoeira era se deixar levar por um caminho daqueles! Porque depois que a pessoa se põe em marcha, é extremamente difícil se deter; (...) E quando a pessoa percebe, toda a franqueza, toda a verdade está tão distante e vaga, tão inalcançável quanto o mundo do faz-de-conta. Então a pessoa descobre que está levando a vida assim como o Grupo de Teatro Laurel atuou em "A floresta petrificada", ou como Steve Kovick tocava bateria - com seriedade, incompetência e presunção, e de um modo totalmente errado; a pessoa descobre que dizia sim quando queria dizer não, e "Precisamos estar juntos nisso" quando queria dizer exatamente o contrário; então a pessoa começa a sentir o cheiro de gasolina como se fosse de flores, e se entrega a um delírio de amor sob o peso de um homem... de quem não se gosta, e então a pessoa se vê, cara a cara, em plena escuridão, diante da constatação de que não conhece a si mesma."
Gostei tanto do filme que, mesmo muito tempo depois, resolvi fazer o caminho inverso e menos provável e ler o livro que lhe deu origem. E não sei se teriam me tocado tanto o casal e as questões existenciais deles se já não tivesse a ideia do filme na minha mente. Isso porque o casal do filme me pareceu sensivelmente mais cúmplice e mais unido que o do livro, o que conferia maior sentido à todo o resto, porém a obra de Richard Yates merece certamente 5 estrelas.