O Brasil é um país que produz grande literatura. Quem discorda disso provavelmente tem o benefício da dúvida devido às más escolhas que fez ou apenas está perdido no profundo mar da ignorância. E o paulista quase gaúcho Daniel Galera é um dos grandes nomes da ficção brasileira contemporânea. Prova robusta que permite tal alcunha é justamente este O deus das avencas.
Lançado em 2021, este último trabalho de Galera é composto por três textos de um gênero esquecido dentro da frenética produção contemporânea nacional: a novela. Nomes como Milton Hatoum e Otto Lara Resende, para citar apenas a nata, já usaram desse pequeno atalho que o ato de escrever ficção permite, que é a produção de um texto que fique a meio caminho do conto e do romance. E, sem economias, o autor entrega logo três delas, que são bem distintas entre si, apesar de possibilitarem a criação de conexões temáticas, éticas e estéticas.
A novela homônima que abre o livro é, sem dúvidas, a melhor das três. É verdade que ela é uma escolha covarde deste leitor porque gosto da pegada realista dentro da ficção. Mas não é covardia do autor, que entrega um texto perfeito do início ao fim e mostra sua maturidade no ofício que, vá lá, também aponta certa zona de conforto de Galera. Mas a verdade é que a história de Lucas e Manuela é tão envolvente, tão palpável que os leitores devem ficar tão hipnotizados quanto eu a cada virar de páginas. Com forte teor político (e não panfletário, como preconiza a boa literatura), O deus das avencas, a novela, funciona como uma crônica anunciada do fim: todos sabíamos que aquilo (a eleição de alguém do calibre de Bolsonaro) estava por vir, mas também acreditávamos na esperança de um futuro melhor, representado aqui magistralmente nas últimas linhas da narrativa, que fecha a história de maneira muito satisfatória.
Nas ficções seguintes, Galera pisa em terreno desconhecido e, de maneira louvável, faz o que todo artista deveria fazer sempre: arriscar. Tanto em Tóquio quanto em Bugônia, a ideia de colocar a narrativa dentro do escopo da ficção científica se mostra uma escolha no mínimo acertada. Na primeira novela dessa dupla final, Galera avança um pouco em nossa patética história humana e discute, essencialmente, uma questão ética: no futuro, com a possibilidade cada vez maior e crescente da tecnologia simular o que nos torna humanos, fará sentido o conceito de consciência? Em meio a esse gancho filosófico, o autor desfila uma série de discussões que integram o presente e não o distante futuro: a crise climática, as relações obscenas (e obscuras) entre governos e grandes empresas e, é claro, os relacionamentos humanos entre pais (no caso aqui em particular a mãe) e filhos, homens e mulheres, e a sempre complicada vivência em sociedade. Já Bugônia, a mais fraca entre as novelas, avança de maneira pitoresca a um futuro indefinido para abordar não somente o que nos torna humanos, mas o que nos torna humanos numa pós-humanidade, onde a desgraça a qual estamos fadados se concretiza. Afinal, em uma história sobre abelhas que produzem mel a partir de corpos putrefatos (o necromel, obviamente) que é a única cura possível e temporária contra um vírus letal - e que só é encontrada em uma estranha comunidade denominada Organismo -, nada mais faz sentido. O destaque nesta última novela fica por conta da mais esperançosa mensagem de todo o livro, onde uma menina (Chama) representa um pedido, talvez quase um grito silencioso do autor, da necessidade de união e conciliação para que o fim inevitável da humanidade seja, de alguma maneira, adiado.
O que Daniel Galera consegue entregar em O deus das avencas é, sobretudo, boa ficção. E para este leitor que ainda não conhecia o trabalho do autor mas estava sedento por adentrar em seu mundo, o livro foi uma ótima pedida. E talvez esse seja o caso de outras pessoas também, principalmente para quem procura um livro nacional que envolva ficção realista, especulativa e até uma tradicional distopia, tudo isso em meio a um notável cuidado com o texto e com uma preocupação atenta ao nosso estranho e indefinido destino enquanto humanos.