Numa bem-vinda iniciativa, a Companhia das Letras acaba de reunir em um único livro todos os 53 contos do goiano José J. Veiga (1915-1999), um nome fundamental de nossa literatura, em especial, pelo caráter pessoal e inovador de sua obra.
A bem da verdade, a crítica jamais foi hegemônica na classificação estilística do escritor. Boa parte tende a considerá-lo como integrante do Realismo Mágico, enquanto que outra, apesar de apontar marcas do fantástico, não o insere nessa corrente. Entretanto, também é inegável a presença de aspectos do Impressionismo e do Surrealismo, aliás, Veiga jamais negou a influência de Kafka na sua formação.
Resumidamente, sua obra é uma “enciclopédia de espantos” que suspendem a tranquilidade do dia a dia e a partir daí, tudo se transforma. O efeito é insólito, uma estranheza impregnada de lirismo que, brutal e até dolorosa, flerta com o onírico e redimensiona a inocência, em especial, da infância mediante uma perspectiva realista, marcada pela crítica social e alegorias políticas.
Como afirma Socorro Acioli no Posfácio, O Jogo dos Dez Encantos que acompanha o livro, esses espantos ou “sustos são de toda qualidade. Pode ser uma máquina abandonada no meio da rua, que não funciona, não faz absolutamente nada e modifica uma cidade inteira. Pode ser a chegada de uma dupla de forasteiros trazendo uma categoria particular de armagedon. Um objeto mágico encontrado por um indígena, que faz barulho de música, alegra a alma e que vem depois destruir sua ideia de paraíso. Pode ser a lembrança de um passado distante, quando a terra era redonda, junto com a análise dos indícios que podem provar essa realidade.”
O referido texto fundamenta e amplia a discussão sobre a obra de Veiga de maneira didática e despretenciosa, portanto não deve ser deixado para trás, assim como a cronologia biográfica, assinada por Érico Melo. Tais bônus debruçam-se sobre um autor cujos livros são indagativos, não explicativos e que escrevia para conhecer melhor o mundo e as pessoas. Eles “são um exercício, ou uma aventura, ou um passeio intelectual. Não‘acabam’ no sentido tradicional, e nesse não acabar é que entra a colaboração do leitor.”
Uma colaboração em que a economia é uma das maiores virtudes do escritor. Por sinal, ela é indispensável para escrever uma narrativa curta, e neles, nunca “há um detalhamento exagerado, uma coisa fora do lugar, algo que poderia ser cortado sem prejuízos”. O resultado são três livros dedicados ao gênero — Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Estranha Máquina Extraviada (1967) e Objetos Turbulentos (1997) — mais 16 contos esparsos com as respectivas fontes, isto é, jornais e revistas.
Uma lista marcada pela oralidade em que é possível notar o quanto Veiga demorava escrevendo, com espaços de anos entre um livro e outro. Nisso, ele era parecido com seu contemporâneo, Murilo Rubião, que publicou pouco, mas nunca parava de escrever e reescrever. Entre Os Cavalinhos de Platiplanto e o romance A Hora Dos Ruminantes foram sete anos, por exemplo. Talvez, isso seja reflexo por ter começado a publicar maduro, aos quarenta e quatro anos, sem pressa ou ambições. Talvez por ter encontrado o prazer do trabalho com a palavra. Não é todo autor que encontra. Não são raros os depoimentos de escritores com a ideia do escrever sofrido, lastimoso, custoso, dolorido.”
Enfim, Contos Reunidos é um livro que não pode faltar na biblioteca — física ou virtual— de quem aprecia e prestigia a nossa literatura.
Nota: Adquiri o e-book que, além de ser uma opção econômica, permite transitar entre os contos com mais rapidez.
“Absurdo é o mundo real em que vivemos.” (José J. Veiga)