Como sempre, gosto de lembrar que os livros do Pe. Júlio tinham como objetivo instruir os menos instruídos, embora alguns livros dele fossem mais aprofundados, tanto em complexidade quanto em fontes. Outra coisa que se deve notar ao ler este livro, é que o Pe. Júlio tinha como objetivo acabar com a prática espírita, não a teoria, a qual já havia desbancado em outro livro anterior, de título "O espiritismo perante a Religião e a Ciência", que infelizmente foi perdido ao tempo (diz a nota de rodapé desta edição que, numa mudança do dono da livraria, acabou sendo perdido). Mesmo assim, é importante notar que, acabando com as práticas espíritas, também se acaba com a teoria, pois esta procede das práticas, que dizem ser inspiradas pelos mortos. Se a prática é falsa, e é da onde a teoria procede, logo...
Neste objetivo de acabar com as sessões espíritas, o livro é perfeito, pois expõe a opinião de vários médicos, mágicos (não no sentido de feiticeiros, no de ilusionistas), padres, homens célebres e ex-médiuns que escreveram contra o espiritismo, ou, no caso dos ex-médiuns, confessaram que enganavam as pessoas. O padre cita vários autores, e expõe que, raramente, as práticas espíritas possuem interferência sobrenatural (do diabo, claro, pois divina jamais teria), como muitos (inclusive eu, antes de ler este livro), pensavam (e ainda pensam). Se mostra que muitos dos tais fenômenos de mesas fazendo batidas, sendo levitadas, etc, são simplesmente explicadas e expostas sendo postas a prova, segurando o médium, colocando uma mesa pesada, entre outras explicações conforme o "fenômeno". Isto no caso dos fenômenos que são simples farsas, fraudes e truques de mágica, feitas por charlatões, pois há de se considerar que existem os fenômenos que acontecem por hipnotismo, histeria, autossugestão e sugestão. Estes fenômenos acontecem porque as pessoas envolvidas estão com os nervos abalados, criando uma fraqueza em seu psicológico, possibilitando de serem enganadas mais facilmente, ou induzidas ao erro. É o caso, por exemplo, de uma mãe que vai "falar" com o "seu" filho falecido em uma sessão espírita; antes mesmo de pisar o pé dentro do tal centro espírita, a mãe já se imagina falando com o filho, ouvindo sua voz. Seria esta a autossugestão, quando a pessoa acaba persistindo tanto em uma ideia que acaba aceitando ela.
Ele não fala muito sobre Kardec, comentando brevemente sobre ele em poucos parágrafos, porque ele é irrelevante para as práticas espíritas em si. Elas surgiram muito antes dele, nos Estados Unidos e em 1848, com as irmãs Fox, de família metodista. As duas irmãs mais novas, Kate e Maggie, admitiram publicamente que foram influenciadas pela irmã mais velha, Leah. Uma delas, Maggie, acabou se arrependendo de expor a farsa por pressão dos espíritas, mas Kate não, tendo dito palavras reveladoras sobre esta seita ridícula: "O espiritualismo é fraude do princípio ao fim. É a major impostura do século. Não sei se ela já lhe disse isso, mas Maggie e eu começamos quando éramos crianças muito pequeninas, pequenas e inocentes demais para compreendermos o que fazíamos. Nossa irmã Leah contava vinte e três anos mais que nós, iniciadas no caminho do engano e encorajadas a isso, continuamos, é claro."
Só depois destas irmãs que as sessões espíritas se espalharam pelo mundo, tendo chegado na França, onde Léon Hippolyte, nome real de "Allan Kardec", teve contato, participando das sessões com as "mesas girantes". A partir desta experiência e outras, acabou "codificando" o espiritismo, sendo, até onde seu, a seita espírita mais bem organizada. Esta seita surgiu para atender um certo grupo de "intelectuais" franceses que queriam ter alguma religião, acreditar em Deus e serem cristãos, mas já adeptos do "racionalismo" (leia-se falsa razão), com uma religião "científica". Sim, essas práticas de batidas das mesas e conversas com espíritos seriam práticas científicas, por mais risível que isso seja.
Uma coisa que o livro me fez foi mostrar o quão ridicularizado o espiritismo sempre foi. Quando apareceu aqui no Brasil, foi tomado como coisa de louco e método de enlouquecimento por todos os setores da sociedade. Os jornais colocavam em suas notícias casos de jovens que eram normais, mas que mudaram de comportamento e enlouqueceram após frequentar sessões espíritas; os médicos, católicos, protestantes e até ateus, eram unânimes em dizer que o espiritismo era a causa de enlouquecimento de muitos; o espiritismo chegou a ser crime segundo o Código de Penal de 1890, com penas de prisão celular de 1 a 6 meses, e multa de 10$000 até 500$000. Porém, infelizmente, o povo brasileiro se tornou extremamente supersticioso após o Vaticano II, quando muitos católicos apostataram para o protestantismo, espiritismo e ateísmo, e a Igreja perdeu totalmente a influência que ainda tinha na sociedade. O brasileiro, agora apóstata, abraçou qualquer tolice que fosse confortável (especialmente emocionalmente), tornando o espiritismo menos rejeitado pela sociedade.
Portanto, é um livro interessantíssimo para os que querem entender mais sobre como o espiritismo não possuí nenhuma marca sobrenatural, ao menos em 98% dos casos, sendo só uma tosca mistura de charlatanismo com nevropatia. Talvez certos termos ou teorias da psicologia e psiquiatria que o padre usa podem ter caducado, já que o livro foi escrito há um século, porém, ele continua relevante. É realmente uma lástima que se tenha perdido o livro em que o Pe. Júlio acaba com a teoria espírita... Recomendo este livro a todos que queiram argumentos diretos contra os que acreditam que os fenômenos espíritas são dignos de algum tipo de crença ou crédito.