Palestina -

    Joe Sacco

    Veneta
    2021
    328 páginas
    10h 56m
    ISBN-13: 9786586691405
    Português Brasileiro

    Marco na história das narrativas gráficas, Palestina, de Joe Sacco, é o livro que redefiniu as bases do gênero “jornalismo em quadrinhos”. Publicado originalmente em nove gibis, entre 1993 e 1995, a HQ ganhou uma edição completa em 1996, e ganhou alguns dos mais importantes prêmios tanto dos quadrinhos quanto do mundo literário, como o American Book Award. É já um clássico e está entre as principais histórias em quadrinhos dos últimos 50 anos. O livro é fruto de uma extensa pesquisa e mais de 100 entrevistas com palestinos e judeus, realizadas no início dos anos 1990, durante diversas visitas à região da Faixa de Gaza e Cisjordânia. Com uma narrativa dinâmica e um talento para reproduzir os diálogos, Sacco apresenta um testemunho humano comovente, mas também um panorama histórico do conflito que continua fazendo inúmeras vítimas. Esta edição reúne todos os volumes da obra, o prefácio original do crítico literário Edward Said e textos do jornalista José Arbex Jr., além de fotos, desenhos e comentários de Joe Sacco a respeito da produção.

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    Vania Cristina Ribeiro picture
    Vania Cristina Ribeiro06/03/2026Resenhou um livro
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    Aqui, a arte e o jornalismo se encontram e se completam

    Esta é uma baita HQ!, escrita e ilustrada por Joe Sacco, jornalista nascido em Malta e radicado nos Estados Unidos. Inconformado com o jeito como a Imprensa estadunidense abordava a questão palestina, sempre mostrando apenas a perspectiva israelense, Sacco resolveu passar dois meses entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, no final de 1991 e início de 1992. O que ele queria era simplesmente documentar a perspectiva dos palestinos, sujeitos sem voz e sem rosto, ignorados e/ou demonizados pela mídia e, consequentemente, desconhecidos pelo povo ocidental. Não podemos esquecer que o sionismo vendeu a ideia de que lá era uma "terra sem povo para um povo sem terra". Só que havia um povo, e uma cultura... mesmo que estivessem sendo invisibilizados. Quando quem está no poder quer retratar um "inimigo", dele são tirados seus traços humanos, seu rosto, sua voz e seus direitos. Essa sempre foi a forma encontrada de justificar e facilitar a morte ou o extermínio, sem se deixar dominar por sentimentos de horror e culpa. Assim foi feito com escravos, com judeus, com soldados, e assim ainda é a prática quando vemos um outro, um diferente, e o entendemos como perigoso e, consequentemente, como inimigo. Na maioria das vezes essa prática esconde interesses econômicos e preconceitos enraizados. Nessa edição da HQ temos um texto introdutório de Edward Said e um prefácio de José Arbex Jr., além de reflexões do autor e fotos das suas anotações e registros. A história narra a própria experiência de Sacco, ele, então, é o protagonista. Os personagens que aparecem são pessoas reais e suas falas estão praticamente reproduzidas. A importância desse livro é que Joe Sacco fez, através dos quadrinhos, o que era papel da Imprensa em sua busca pela "neutralidade": dar rosto e voz para ambos os lados. Ele não fez da sua HQ algo panfletário, ele simplesmente mostrou o que viu e ouviu, sem passar pano pra ninguém. Não mostrou o lado israelense, é verdade, simplesmente porque não era necessário, já estava amplamente feito. Escolheu mostrar o que estava escondido, nas sombras. O resultado é uma HQ desconfortável, amarga, triste e, às vezes, irônica. Sacco temeu o tempo todo pela própria vida, se sentiu impotente, e isso fez com que tivesse um olhar crítico sobre o seu próprio papel nos conflitos. Afinal, Sacco estava lá a trabalho, poderia ir embora a qualquer momento, enquanto os outros eram prisioneiros daquela situação. Fazia sentido ganhar dinheiro e reconhecimento mostrando a tragédia dos outros? A consciência desse privilégio traz para a HQ, em alguns momentos, um sentimento ácido de vergonha e de impotência, um humor negro desconfortável. O importante, a meu ver, é que o autor quis estar presente, teve coragem de ser testemunha. E fez isso usando de seu talento para desenhar, de sua sensibilidade para ouvir e documentar. E com seu trabalho furou bolhas, o que apenas a linguagem dos quadrinhos poderia fazer. Trata-se, então, de um excelente livro-reportagem. O que os textos introdutórios dessa edição mostram é que a arte dos quadrinhos busca a subjetividade, enquanto o jornalismo busca a objetividade. O que parecem ser, à princípio, caminhos opostos, na obra de Joe Sacco são caminhos que se encontram, dialogam e se completam. Sem perder a essência sensível da arte, o livro cumpre, com dignidade, a função jornalística e social.

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