E quem é Meryl Streep? é um romance desafiador do polêmico autor libanês, Rachid Al-Daif. Como em outros livros seus, ele batiza o protagonista e narrador do romance com seu próprio nome. Rachid, o personagem, é um libanês recém-casado que se vê ameaçado pela ideia da emancipação feminina. Ao se dar conta de que sua esposa usa a presença da TV na casa dos pais como desculpa para ficar longe de casa, Rachid compra uma televisão na esperança de atraí-la, mas à medida que o laço frágil que une o casal se desintegra, a televisão passa a ocupar um lugar cada vez maior na sua vida. Numa cena crucial, ele se vê sozinho assistindo ao filme Kramer versus Kramer. Na ausência de legendas, Rachid se esforça para entender o que se passa no filme e projeta o comportamento de sua esposa na personagem vivida por Meryl Streep, que ao mesmo tempo que o cativa, também o apavora por representar um esforço de libertação das mulheres que ele considera inaceitável. Rachid Al-Daif constrói um personagem reacionário, por vezes repulsivo, e não tem medo de mergulhar na mente desse indivíduo e descrever nua e cruamente sua mentalidade, inclusive sua vida sexual, real ou imaginada. O livro foi considerado pornográfico no mundo árabe e obteve um enorme sucesso tanto no idioma original, como em outros idiomas.
E quem é Meryl Streep? -
Rachid Al-Daif
Edições (2)
Ver maisE quem é Meryl Streep?
Durante a leitura de “Quem é Meryl Streep?”, fiquei me perguntando se estaria diante de um “Bentinho” de Dom Casmurro, obra de Machado de Assis, em que somos lançados à perspectiva de um único personagem. A narrativa que temos, o foco, a versão da história é aquilo que nos é passado pelo próprio personagem. As demais personagens, suas falas, ações, o contexto, o mundo apresentado é o que o narrador-personagem filtra e nos passa. Em resumo, é o enredo dele e, principalmente, é como ele entendeu a história que viveu e que agora nos narra. Portanto, se foi bem assim ou não, se os outros personagens são da maneira descrita ou não, se as motivações dele são ou não o que ele revela ao leitor são pontos que, de fato, jamais saberemos e que nos trazem para essa ambiguidade da vida, lembrando que precisamos sempre insistir em ouvir todos os atores que se encontram no palco se queremos ser justos na nossa avaliação da trama da vida. Quem é Rachid? A apresentação do livro, feita pelo tradutor Felipe Francisco, já anuncia que “o Rachid das próximas páginas talvez seja um dos personagens masculinos mais odiosos que você já encontrou”. A estratégia já anunciada pelo autor do livro é a de usar o seu nome nos personagens principais de suas histórias por duas razões, a saber, a primeira é que, segundo Rachid Al-Daif, o leitor gosta de fofoca sobre a vida íntima dos outros, assim, dotando o personagem de seu próprio nome gera essa intimidade e proximidade com um leitor que fica sempre na dúvida se o que está sendo narrado é ficcional ou biográfico; a segunda razão é que, mais uma vez segundo diz o próprio autor, seu personagem de mesmo nome é tudo aquilo que ele não quer ser, com quem não quer ter a mínima identificação. Veja que estamos no terreno machadiano da ambiguidade de Bentinho, ainda que Bento não seja homônimo de seu autor, mas é quem nos conta toda a história, única voz que nos dá a versão dos fatos. Há ainda uma outra característica machadiana: a ironia, o sarcasmo de um personagem cínico. Contudo, as semelhanças cessam aqui, pois mesmo o uso da ironia em Machado de Assis sempre é algo mais identificado com o autor do que meramente com o personagem. Em Machado, a narrativa é que seja cínica e não necessariamente o personagem. Outra questão que julgo importante é marcar a diferença que a ironia em Machado é sutil e erudita, sempre sendo criada num ambiente de universalidade, jamais de sarcasmo e mesquinhez pornográfica. Para saber mais: https://ribaseribas1.medium.com/e-quem-%C3%A9-meryl-streep-biblioteca-2-vi-c82e1a72cf7b?source=social.fb
Estatísticas
Avaliações
3.7 / 31- 5 estrelas19%
- 4 estrelas35%
- 3 estrelas29%
- 2 estrelas13%
- 1 estrelas3%


