Ler Tierra Fresca De Su Tumba de Giovanna Rivero é uma experiência um tanto curiosa, o próprio título do livro de contos deixa claro de que não serão textos fofinhos ou luminosos. Entretanto, ainda assim, a escrita da autora é estranhamente agradável. Rivero instiga e surpreende o leitor com contos que mesmo numa leitura mais superficial são perturbadores. A leitura no original em espanhol não oferece muitas dificuldades, ainda que em alguns contos a autora utilize referências em outras línguas como o japonês. O texto original não oferece tradução ou contexto, precisando o leitor ir pesquisar para não se perder; não verifiquei como isso foi organizado na edição brasileira, mas notas seriam bem vindas. Aliás, referências, é curioso como a autora mesmo em contos relativamente curtos condensa informações: origami, psicologia, contextos religiosos, referências médicas e até mesmo análises astrológicas muito bem amarradas estão presentes aqui. Se de fato os contos podem ser lidos como histórias corridas e impactantes é óbvio que existem camadas a serem exploradas numa leitura mais atenta. Existe uma óbvia dimensão político-social no texto de Rivero, mais clara em alguns dos contos e mais velada em outros, mas é nítida a preocupação com o lugar da mulher, dos oprimidos e de todos aqueles que tem sua dignidade de alguma forma desrespeitada ou ameaçada. Não são contos fáceis, o texto da autora trás incômodo, seja na emulação de uma mente perturbada, seja na enumeração desapaixonada e quase resignada de um sistema de opressão. Ao mesmo tempo existe uma beleza quase que macabra em sua escrita. Em algum momento devo ler a edição brasileira para comparar. Tierra Fresca De Su Tumba de Giovanna Rivero é um ótimo ponto de partida para a obra dessa escritora tão aclamada na Bolívia e que vale muito a pena conhecer melhor. Recomendo. Análise conto a conto: (5,0 de 5,0) La Mansedumbre - Um conto incômodo e visceral que põe a nu o machismo estrutural e a hipocrisia religiosa agindo contra as mulheres, com um final surpreendente. (4,5 de 5,0) Pez, Tortuga, Buitre - Um bom conto, novamente com uma conclusão inesperada e um tanto ambígua. Provável que alguns se sintam desconfortáveis lendo. (5,0 de 5,0) Cuando Llueve Parece Humano - Um conto perturbador tendo origami como um dos pontos principais é no mínimo inesperado. Impressiona como o conto começa de um jeito e aos poucos vai se tornando aflitivo. Novamente um final ambíguo, belo e um tanto macabro. (4,0 de 5,0) Socorro - Um conto de início estranho que vai ficando cada vez mais perturbador conforme se avança na leitura, a autora parece ter uma preferência por finais ambíguos. (4,5 de 5,0) Piel De Asno - Um conto bastante curioso onde a autora aborda diversos tipos de preconceito e opressão se utilizando de um curioso recurso de testemunho que fica na ambiguidade entre o religioso e o clínico. Só me incomodou a deturpação usual de Hallelluiah do Cohen. (4,0 de 5,0) Hermano Ciervo - Uma nem um pouco velada crítica a indústria farmacêutica e ao uso de doentes de doenças raras em experimentos ainda que justificáveis, a inserção de alguns elementos porém são um pouco confusas, as referências astrológicas funcionam bem as outras nem tanto.

