Depois de ter lido os 20 contos desse livro, fiz uma listinha de palavras-chaves de cada um para ver se conseguiria perceber alguma tendência temática. O resultado foi interessante, pois as três principais palavras-chaves foram "Busca de si mesma", "Relacionamentos de mãe e filha" e "Relacionamentos amorosos". Nessa perspectiva, o livro é realmente "contemporâneo", pois os contos (quase todos do século 21) expressam muito do "espírito da época" em nossas relações.
A "busca de si mesma" é cada vez mais um desafio em um mundo que perdeu os seus referenciais e possivelmente seja ainda marcante para a mulher que, finalmente, depois de milênios de submissão, começa a vislumbrar a possibilidade de construir o seu caminho. Esse processo influencia também os "relacionamentos amorosos", pois há também um modo de amar que é típico de nossa época, sem mais a obrigação moral de durar até a eternidade, mas ainda assim desejando que dure o máximo possível. Os homens, ah, bem sabemos, os homens geralmente demonstram não estar à altura dessas mudanças.
Esse mundo, mais desorientado, certamente impacta também o fruto desses relacionamentos, ou seja, os filhos (e, no caso do livro, preferencialmente as filhas). Há uma relação mais distanciada em relação aos país, que possivelmente representam as tradições que são implodidas pelo tempo presente, mas também não há muita certeza sobre como se comportar em relação às filhas, porque a própria mãe ainda está em busca de si mesma.
Um ótimo conto que reúne, sozinho, essas três palavras-chaves é "Quando cai um botão", de KateÅina Sidonová. A busca visceral de si mesma é melhor expressada em "Chamado dos ossos", de Hana Androniková", de feitio surrealista. Os relacionamentos amorosos contemporâneos marcam contos como "Mirante de Goethe, Capela do Diabo", de Alena ZemanÄíková, e "A vida nem sempre dá presentes", de Markéta Hejkalová.
O relacionamento mãe-filha é especialmente visível em "Os nomes deixo na Europa", de Hana Pachtová, conto que é também sobre a busca de si mesma, mas também de forma absolutamente crua, pornográfica e psicanalítica em "Não conta pra mamãe", de Svatava Antoová, de forma melancólica e desoladora em "A última noite" (KateÅina TuÄková), de forma espantosamente trágica em "Minha vida são os meus amantes" (VÄra Chase).
Falo em "mãe", mas também a relação com o "pai" importa nesses contos. Eventualmente, até com um avô, como em "Sãosetedamanhã!Levanta", de Iva Pekárková. Aliás, esse conto mostra outra palavra-chave importante do livro, o encontro de culturas. Nesse caso, é a nigeriana com a alemã, como havia sido a queniana com a tcheca no conto de Pachtová e como seria, de modo muito explícito, a afegã com a tcheca no brilhante "A mulher dos correios e a selvagem", de Petra Procházková.
Ao contrário de grande parte da literatura tcheca exportada ao longo do século 20, a desse livro apenas eventualmente aborda situações associadas à Segunda Guerra Mundial e ao regime comunista (mas, nesse último caso, o faz otimamente em "Infortúnio", de Irena Dousková). Há ainda um conto com um quê kafkiano ("Os bebedores de ovos", de Hana Lundiaková), um em que a busca de si mesma é associada ao trabalho ("Mendigante", de KateÅina KováÄová), e mais alguns outros, além de três contos que, lamentavelmente, não são contos, são enxertos tirados de romances, pecado mortal que acaba com os "contos".
Meus contos favoritos:
"A mulher dos correios e a selvagem" (Petra Procházková)
"A última noite" (KateÅina TuÄková)
"Sãosetedamanhã!Levanta" (Iva Pekárková)
"Infortúnio" (Irena Dousková)
"Quando cai um botão" (KateÅina Sidonová)
"Os nomes deixo na Europa" (Hana Pachtová)