O livro Fluam. minhas lágrimas, disse o policial se passa em um futuro distópico e aborda temas como a percepção da realidade humana. Jason Taverner é uma celebridade da TV. Mas certa manhã, ao acordar, vê-se sozinho num quarto de hotel, sem saber como ou por que foi parar ali. Aos poucos ele percebe que tudo mudou. Ninguém se lembra dele, não há registros de sua vida. Para todos os efeitos, ele havia deixado de existir. Em Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, Philip K. Dick explora magistralmente os limites entre percepção e realidade ao narrar a estranha busca de um homem pela própria identidade. Inquietante e comovente, o livro foi indicado aos prêmios Nebula e Hugo, vencendo o prêmio John W. Campbell de 1975 como melhor romance de ficção científica.
Fluam, minhas lágrimas, disse o policial -
Philip K. Dick
Fluam, minha lágrimas, disse o policial.
Todas as vezes em que eu termino de ler um livro, eu gosto de procurar por resenhas sobre ele. Fazendo isso desta vez, eu me deparei com opiniões diversas a respeito desta obra e com alguns comentários um tanto quanto curiosos. Então, eu vou começar essa resenha tirando esse aspecto da frente, o que já vai dar uma boa ideia da história. O primeiro ponto é o seguinte: obras de ficção científica não são previsão do futuro! Algumas pessoas chamam a atenção para o fato de que, neste "futuro" distópico que se passa em 1988 (o livro foi escrito no começo dos anos 70), ao mesmo tempo em que há carros voadores e seres humanos alterados geneticamente, as pessoas ainda escutam música em LP's, assim como vi em comentários sobre Neuromancer, só citando um exemplo, que o autor "errou" em colocar casas de fliperama na realidade descrita. Esse tipo de comentário realmente me incomoda. Nas realidades criadas por esses autores, pode muito bem existir pessoas escutando música em disco de vinil e jogando em casas de fliperama. Isso é ficção, não futurologia, ok? O segundo ponto é que vi vários comentários do tipo "não gostei do livro, o protagonista é um machista egocêntrico, chauvinista e blá blá blá"... Dizer isso é como afirmar que não entendeu nada do que acabou de ler, parece que só notam aquilo que desejam. O protagonista possui todas estas "qualidades"? Sim, ele possui estes defeitos e muitos outros. Mas todos os personagens deste e diversos outros livros do PKD são quebrados, desajustados, cheios de problemas, sendo eles reflexos dos próprios problemas do autor. E o principal é: todos os personagens possuem plena ciência do quão problemáticos são. Para quem vai começar a ler os livros de Philip K. Dick, tenham uma coisa muito importante em mente: ele não escreve sobre heróis, sobre personagens unidimensionais. Se é isso que procura em uma história, este não é o autor pra você. Eu particularmente gosto de ler sobre este tipo de personagem, pois abre muita margem pra questões filosóficas. O próprio ato do leitor notar todas as atitudes erradas do próprio protagonista do livro, assim como dos demais personagens, já faz com que possamos filosofar a respeito. Acho que personagens quebrados dão à obra um poder muito maior de discussão. O que se pode discutir a esse respeito sobre heróis idealizados, por exemplo? Bem, agora que já tirei da frente o que me incomodava, vamos à um breve resumo da premissa: Jason Taverner é um cantor e apresentador de talk show muito conhecido, com 30 milhões de espectadores acompanhando seu programa todas as semanas. Para ele, sua identidade pessoal é igual à sua identidade pública, e esse é um aspecto muito importante do enredo. Jason é uma pessoa egoísta e extremamente arrogante pois, além de ser uma pessoa famosa e muito rica, ele é um "Seis", parte de um programa genético destinado a criar seres humanos mais evoluídos. Sua beleza física e seu magnetismo sexual parecem provir desse programa genético. Certo dia, Taverner é atacado por uma de suas amantes com alguma espécie de parasita alienígena que, embora tenha sido retirado por Jason muito rápido (afinal, ele é um Seis), consegue deixar pequenos pedaços dentro do seu corpo, o que o faz ser levado para o hospital, onde acaba desmaiando. Quando acorda, está em um quarto de hotel de baixa categoria e com uma quantia alta de dinheiro em seu bolso. E o pior: Jason percebe que as pessoas não lembram mais dele, nem ao menos sua "namorada" Heather Heart, cantora famosa e também parte do programa genético que a define como uma Seis. Então, basicamente, o enredo se desenrola em uma busca desenfreada atrás de respostas sobre o que de fato aconteceu com Jason Taverner e uma forma de restabelecer sua vida anterior. É uma busca por sua identidade. Durante esta jornada, ele vai encontrando diversas mulheres que são o estopim para diversas das questões filosóficas presentes no livro. Óbvio que todas essas mulheres são tão quebradas quanto ele, mas o ajudam, cada qual à sua maneira, a desvendar os mistérios. Desde que comecei a ler as obras do PKD, sempre vi em suas histórias um grande reflexo autobiográfico, em alguns livros de forma mais mais evidente, como em Valis. Mas em cada livro que li eu enxerguei um pouco da persona do autor e desta vez não foi diferente. Durante a leitura, eu pensei diversas vezes sobre como ele é obscuro, soturno e triste. O próprio título do livro provém de uma canção chamada Flow My Tears de um compositor chamado John Dowland, publicada em 1602 e que possui uma das letras mais tristes que já li. O próprio Dowland tinha a melancolia e as lágrimas como pontos centrais de suas composições. Isso já demonstra o tom do livro, certo? Como se essa referência já não fosse suficiente, cada parte do livro possui um trecho da citada composição como uma espécie de introdução. " Mal-humorado, o general Buckman abriu a terceira gaveta da mesa grande e colocou um rolo de fita no pequeno deck que guardava ali. Árias para quatro vozes de Dowland... Ele ficou de pé, ouvindo uma que lhe agradava muito, dentre todas as canções dos libretos de Dowland. ... Pois agora, esquecido e desamparado, Sento-me, suspiro, choro, desmaio, morro Como uma dor atroz e um sofrimento sem fim. (Pag. 194) " Lendo um pouco sobre a biografia do autor, descobri que ele escreveu boa parte do livro durante um processo traumático de divórcio com sua quarta esposa, que acabou levando para longe sua filha pequena. Além disso, ele estava com problemas financeiros graves e estava no ápice de seus problemas mentais e com drogas. Se não me engano, parte da ideia desse livro partiu de uma viagem de mescalina do PKD, algo que acontece também com Taverner. Sabendo de tudo isso, é difícil desvincular a vida particular do autor da ficção criada. Os dois personagens principais, Jason Taverner e o policial Felix Buckman (o policial do título), em minha interpretação, são faces diferentes da persona de Dick. O final, com Buckman chorando desesperadamente e tendo uma espécie de surto descreve o ponto máximo da tristeza do autor naquele período. Em determinado momento, Buckman encontra um estranho (negro - isso é importante para o entendimento) em um posto de gasolina com o qual tem alguma interação e desenvolve com ele algum tipo de ligação sentimental que a princípio pode parecer desconexa e sem sentido. Porém, lendo um pouco a respeito, descobri que esse episódio faz referência a uma passagem bíblica. Diretamente da Wikipedia: " Em Atos, capítulo 8, o discípulo Filipe encontra um eunuco etíope (um homem negro) sentado em uma carruagem, a quem explica uma passagem do Livro de Isaías , e depois o converte ao cristianismo. ". Percebem a semelhança? Para finalizar esse aspecto, saliento que o livro foi finalizado em 1974, ano da revelação espiritual do autor, retratada em Valis. Sobre a ambientação: Como dito anteriormente, a história se passa em um futuro distópico no ano de 1988. O governo dos EUA agora é uma ditadura, desde o início da chamada Segunda Guerra Civil, com um estado de vigilância muito forte, ao melhor estilo de "1984". O foco de resistência são os estudantes universitários que, quando são capturados, são levados a campos de trabalho forçado e os negros foram ou exterminados ou esterelizados (pesadíssimo), tudo isso em clara alusão ao nazismo. Problemas com racismo os EUA sempre tiveram. Se nos dias atuais eclodiu aquela revolta devido ao caso de George Floyd, imaginem como as coisas eram nos anos 70. Sobre esta guerra entre governo e os estudantes, eu li sobre um paralelo interessante: a expressão " Maio de 68 " é usada para designar uma série de movimentos estudantis ocorridos em todo mundo, tendo se iniciado em Paris. Nos EUA especificamente, uma das revoltas mais conhecidas foi a ocorrida na Universidade de Columbia, em NY. Vale destacar que o movimento militante Black Power é do final da década de 60 também. Sobre as personagens femininas com quem Jason se encontra durante a história, acredito que sejam reflexos de todas as suas ex-esposas, afinal Dick foi casado 5 vezes. Então, é de se esperar que estas personagens sejam objeto de reflexão na história mas que, apesar de serem retratadas como personagens quebradas (como eu já disse anteriormente), é na interação com elas que surge os momentos de maior reflexão. São elas: Heather Heart: cantora e companheira mais frequente de Taverner, talvez por enxerga-la como uma igual, sendo ela também uma Seis; Kathy Nelson: falsificadora de documentos que ajuda Taverner a fugir da polícia com identidades falsas, mas que se revela uma informante da polícia. Passou algum tempo em uma clínica psiquiátrica, do qual nunca se recuperou; Ruth Rae: antiga amante de Jason em sua antiga vida, de meia idade e viciada em sexo e luxo; Alys Buckman: a principal destas personagens. Irmã gêmea de Felix Buckman (Dick possuía uma irmã gêmea que morreu ainda bebê), com quem tem um filho (pois é !!!). É uma espécie de gótica com personalidade forte e que exerce um contraponto à Felix, tendo com ele uma relação de amor e ódio; ## SPOILER ## É ela quem é a responsável pelo esquecimento de Taverner: Alys é usuária da droga KR-3, droga experimental criada pelo governo (referência ao MK-ULTRA?) com o poder de deslocar o usuário aleatoriamente (ou não) para realidades alternativas. Alys foi amante de Heather Heart e acabou criando uma realidade onde Taverner não existe, tragando o próprio no processo. As explicações que PKD dá a respeito da droga no livro são simplesmente fascinantes; Mary Anne Dominic é uma ceramista (Dick parece ter uma fixação pela profissão), que dá a Jason um vaso azul que passará a ser valorizado no final do livro, como se esse objeto fosse a única coisa realmente relevante e amada da história. Enfim.... Eu estou há dois dias escrevendo essa resenha, mais alguns outros pesquisando e poderia me alongar ainda mais, mas vou encerrar por aqui. Caro leitor, esteja preparado: se quiser se aventurar por estas páginas, esteja ciente de que não vai conseguir respostas fáceis e que algumas peças do quebra cabeça ficarão sob sua responsabilidade, ok? TRILHA SONORA: American Football, LP 3 (2019) e EP Rare Simmetry (2021); Anathema, We're Here Because We're Here (2010).
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