O golpe da barata, primeira graphic novel da argentina Gato Fernández, é uma autoficção que narra a infância de uma sobrevivente de abuso sexual intrafamiliar. Entre bichos de pelúcia falantes, ratos antropomórficos e bidês celestiais, acompanhamos o cotidiano da menina Lucía, alter ego da autora, e sua relação com a mãe, o irmão e com Alberto, seu pai e algoz. Obra ganhadora do Concurso de Letras 2020 do Fundo Nacional das Artes do Ministério da Cultura da Argentina, O golpe da barata já foi publicado na Itália, na França e na Espanha. Aluna de Carlos Trillo e Horacio Lalia, Gato Fernández é uma das maiores revelações dos quadrinhos argentinos contemporâneos, como revela este tour de force criativo e pessoal.
O golpe da barata -
Gato Fernández
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Ver maisUm grande alerta sobre as pessoas ao nosso redor.
A trama se desenrola no cotidiano doméstico, retratado pelas refeições em família e as idas à escola, é tomado constantemente por episódios de violência física e verbal entre seus pais, um cenário cáustico que reverbera em Lucía e seu irmão. A saída que ambos encontram, um escapismo fraterno presente nas brincadeiras de guerreiras, que ganha vida no traço da autora e nos recorda que os caminhos que a mente encontra para manter os elos de sanidade são complexos. O lado psicológico de Lucia, é aberto como um leque nesta história, sua mente já machucada por experiências que lhe trazia medo, angustia e desespero, criava mundos e situações que vão de uma aventura com seu irmão onde ela mata monstros, e o prostíbulo, onde ela se via como uma garota de programa rodeada e abusada pelos seus bichos de pelúcia. No entanto, os sinais da ruína familiar persistem, e se torna cada vez mais difícil ignorá-los, exigindo de sua mãe a força que parece lhe faltar nos momentos cruciais. Não digo que a forma como a autora busca narrar os fatos torna a história totalmente lúdica, afinal, tem os seus pontos negativos, mas a maneira que ela encontrou para narrar as crueldades, tornam a leitura mais amena, como, por exemplo, quando sua vó lhe disse que Deus está em todas as partes, o que causou uma grande surpresa para Lucía, pois, ela queria conversar com Deus, e eis que ela o encontra no vaso sanitário, e desde então suas conversas com Deus se passam ali. Os macaquinhos imaginários que estão sempre por perto quando algo de ruim está para acontecer, seus bichos de pelúcia que fazem parte da visão que ela tem de si mesma, os demônios que ela vê rodeando o seu agressor. São situações que demonstram com clareza o psicológico dela. A arte não é nada excepcional, e nada marcante, porém, é aceitável, as formas que ela usa na história para representar seus fantasmas pessoais, são peças essenciais para a construção tanto da sua personalidade quanto da sua narrativa. Sua palheta de cores constroem o ar claustrofóbico da HQ, com determinadas passagens que relatam os abusos sofridos, as cores criam o teor, em cenários que vão da luz clara ao breu total sob a sombra de um monstro com seu semblante agigantado nas paredes ao redor. A narrativa é flexível, para não dizer quebrada, há momentos em que o ritmo do texto é quebrado por um quadro que remete a alguma peça, e vice-versa. No entanto, a obra de Gato Fernández tem o poder de salvar vidas, pessoas que abraçam a ficção para fugir do mundo real. Sua história é real e igual a tantas outras, milhares que existem por aí no mundão a fora. Mas, que infelizmente pode não ganharão sua própria adaptação. Este certamente é um quadrinho que todos deveriam ler, e abrir os olhos sobre o comportamento de nossos filhos e conhecidos. Afinal, sempre temos que ficar atentos.
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