Fiquei com sentimentos conflitantes sobre esse livro. Criei algumas expectativas por conta da história de vida da autora, tão singular, e um pouco decepcionado com o desenvolvimento da obra, talvez por desconhecimento de alguns temas mais filosóficos. Mas vamos lá.
Já no final da obra ela senta esse pau nos críticos: "A alma da duquesa confessou que era extravagante, muito além do usual e comum, mas sua ambição era tal que, se fosse possível, não seria como os outros em nada. Esforço-me, disse a duquesa, para ser o mais singular que puder; (...) Minha natureza é tal que eu preferiria parecer pior na singularidade do que melhor dentro da moda" (p. 151).
Ser mulher nunca foi fácil, mas era muito pior do que é hoje. Margaret Cavendish rompeu inúmeras barreiras e sofreu preconceitos por ser mulher e se colocar além dos lugares que lhe eram predeterminados no século XVII. Escrever sobre Filosofia, Ciências e mesmo querer ser escritora estava fora dos padrões de uma sociedade extremamente machista e patriarcal. Aristocrata, Duquesa de Newcastle, dama de companhia da rainha Henriqueta Maria, viveu exilada na corte de Luís XIV da França, símbolo máximo do período, onde conheceu o seu esposo William. Primeira mulher a participar de uma reunião da Royal Society of London, que só aceitaria uma mulher nos seus quadros três séculos depois, foi logo proibida de voltar a instituição. Margaret viveu em um dos períodos mais turbulentos da história inglesa - uma guerra civil, o regicídio e o banimento da família real. Talvez por isso o mundo que criou seja um mundo de paz, de unidade.
Durante séculos a Filosofia foi dominada pelos homens e ela quis refletir filosoficamente e assim o fez, conseguindo inúmeros críticos. Logo foi apelidada de "Mag, a louca". Inicialmente "O mundo resplandecente", publicado em 1666, era um adendo ou complemento de "Observações sobre a filosofia experimental". A obra é estruturada em uma sequência de diálogos, onde a personagem principal, a Imperatriz, indaga sobre uma série de questões de filosofia experimental, ciência, política, religião, natureza etc. Para o leitor que não se interessa por esses temas ou têm pouco conhecimento torna-se um pouco cansativa essa parte do texto. As melhores partes são as que Cavendish reflete mais diretamente sobre o seu mundo real, sobre as condições das mulheres e o Estado em que se encontrava a civilização. Rendem passagens brilhantes. Vale a leitura!