Crime fiction master Raymond Chandler's fourth novel featuring Philip Marlowe, the "quintessential urban private eye" (Los Angeles Times). In The Lady in the Lake, hardboiled crime fiction master Raymond Chandler brings us the story of a couple of missing wives—one a rich man's and one a poor man's—who have become the objects of Philip Marlowe's investigation. One of them may have gotten a Mexican divorce and married a gigolo and the other may be dead. Marlowe's not sure he cares about either one, but he's not paid to care.
The Lady in the Lake (Philip Marlowe #4) -
Raymond Chandler
Tempos pessimistas, detetives falíveis e mulheres fatais
Esse é um clássico da literatura policial noir estadunidense, publicado em 1943. Chandler é um dos principais nomes dessa fase do surgimento do noir. Acredito que para gostar do livro é preciso entender um pouco do que significou, na época, esse estilo de narrativa. Simplificando bem as coisas (e desde já adianto que não sou especialista em nada disso), posso dizer que primeiro havia a literatura policial clássica, de enigma, inaugurada por Edgar Allan Poe e explorada largamente por outros escritores como Árthur Conan Doyle e Ágatha Christie. Sua fórmula era bastante rígida, baseada no método científico de dedução lógica, centrada totalmente na investigação e com um detetive genial e infalível. O drama dos personagens não importava, não havia imprevisibilidade. Hoje chamamos de literatura de conforto (ou cozy mystery) porque nela tanto o assassino quanto a vítima são distantes do leitor. Não nos identificamos com eles, é com o detetive que nos preocupamos, é por seu sucesso que torcemos, e em suas aventuras ele raramente corre perigo, de fato. O policial clássico surgiu e prosperou no contexto do pensamento positivista, otimista e baseado no uso da razão. Quando a humanidade tinha acabado de enfrentar uma guerra mundial — e logo depois sofreria a queda da bolsa de 29 e uma segunda grande guerra —, surgia, nos Estados Unidos, o subgênero policial noir. Não dava mais para ser otimista. Então, a literatura responde a esses novos tempos com mudanças radicais. No caso do romance policial, os detetives passam a ser falíveis, rudes, violentos, vulgares e com moral questionável. Muitas vezes se machucam fisicamente e trabalham apenas o necessário para sobreviver. O mundo é imprevisível, as instituições são corruptas e os personagens complexos. No início, o noir trazia forte crítica à sociedade capitalista. Bom, é nesse contexto que a obra de Chandler se insere. Vemos essa história pelos olhos do detetive particular Philipe Marlowe, contratado para localizar a esposa de um empresário da indústria de perfumes. Ela desapareceu depois de passar por sua casa no lago Little Fawn. Enquando investiga, Marlowe descobre o corpo de outra mulher que morava no lago. O livro traz, então, logo de cara, dois mistérios, duas vítimas mulheres. As duas escondiam segredos. Como todo bom policial noir da época, a perspectiva é masculina e as mulheres são estereotipadas. Ou são vítimas ou o tipo mulher fatal — bela, fria, sexy e distante — em nenhum dos casos são confiáveis. Mas, nessas histórias, os homens também não são confiáveis e são infinitamente menos interessantes que as mulheres. Ou seja, há estereótipo mas, a meu ver, não há misoginia. E como diz Chimamanda, o estereótipo é uma parte pequena da verdade. Alguns chamam essa "mulher fatal" de arquétipo, ou seja, ela transcende o indivíduo e chega na essência profunda de toda uma coletividade. Da época em que surgiu até os dias de hoje, o policial noir mudou muito. O cinema abraçou largamente o gênero, a violência se tornou cada vez mais crescente, e escritoras mulheres assumiram sua visão de mundo. Acredito que esse pequeno livro talvez pareça ser ingênuo e simples demais para os dias de hoje, mas ele traz um charme clássico e o registro de tempos amargos de redescoberta da fragilidade humana. E é claro, um mistério e uma investigação prazerosos de acompanhar.
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