Cheia - Natália Zuccala
"Temo que, alguns livros ne esfregam na cara que, a construção da sensibilidade é também estar aberto ao sentir alheio. Mesmo quando (aliás, principalmente, quando) esse alheio é fruto do imaginário de alguém. Alguém imaginando alguém, é alimentado de muita gente.E espero que eu também seja!"
Escrevi sobre a experiência com a Amanda a personagem desse livro, num caderno de registros pessoais (pra não falar diário rs e soar infantil).
Foi uma leitura que me desafiou no sentido de me lembrar o quanto nós não somos indivíduos binários, como as nossas sentimentalidades são profundas e na maior parte do tempo ambivalentes, nós talvez nem saibamos dar um nome para o que se sente.
E, aqui residiu meu encontro com essa personagem, Amanda. Uma mulher fragmentada num casamento infeliz, com um companheiro (Carlos) que anula a personalidade dela p/ ela mesma,p/ os outros e, nos detalhes mais banais do cotidiano: como trocar o piso da sala, sem sequer pedir a opinião dela... Ela descobre pelo pedreiro, cuja presença também nem sabia que estava agendada, pelo marido claro.
A identidade e a memória, aspectos intrínsecos para determinar quem somos, como agimos, como nos compreendemos. Nesse jogo de poder dentro do matrimônio, esse apagamento da memória de Amanda, resulta no desconforto que sente em relação a si mesma. Então, ela descobre estar grávida.
"Uma mulher sem cabelo parece mais um homem ou um bebê?Gargalha como se não fosse uma mulher, tira de entre os dentros um fio de cabelo ou um pelo(...)Acaba arrancando um outro bocado entre os dedos.Quando se dá conta disso, desliga o secador e pensa se não é dessa forma que ando ficando careca: arrancando os fios entre os dedos, lavando,penteando antes de dormir.Ou estão caindo por vontade própria, lançando-se para fora do meu corpo.Percebe de uma forma inédita, recebe a sua imagem de uma forma inédita, como se, de repente e para sempre, algo tivesse transformado, como se a queda de cabelo não fosse um processo, mas uma ocorrência.Ou como se saber fosse o acontecimento.O que vale mais: ser ou saber-se?" (pg. 59)
Gostei MUITO desse trecho e da construção das frases, que iniciam em terceira pessoa com um narrador aparentemente oculto, para a medida com que toma consciência sobre si mesma, no meio da frase reafirma-se a ação em primeira pessoa. E essa consciência vai partir da relação da personagem com o próprio corpo. Essa imagem comparativa que ela cria entre a cabeça de uma mulher careca, com um homem e um bebê, suscita essa família na qual agora se vê, e a movimentação da queda para fora do corpo, como não um processo, mas uma ocorrência me faz entender que é ela se dando conta da própria existência antes de ter no corpo, um outro corpo que não o seu.
Pode não ter nada a ver, partiu da minha interpretação e, eu achei muito forte esse questionamento que parece acompanhar a nós mulheres, principalmente, em decorrência dessa anulação que existe do indivíduo mulher enquanto ser, assim que engravida. Já antes em realidade rs, mas piora.
O saber associado ao acontecimento, é uma ideia que se repete ao longo da narrativa, toda vez que essa consciência emerge como no trecho:
"Vejo com nitidez.Não sei por que logo agora, aqui, nesta maca,nesta espera,mas aqui e agora eu consigo me lembrar.De todos os dias,das noites,das madrugadas,dos barulhos que a madrugada faz, de.Tudo.Tudo?Ou, pelo menos, do que eu acredito ser tudo. O passado inunda cada pedacinho do agora, cada espaço.Saber é um acontecimento." (pg. 99)
Livraço, com diversas camadas filosóficas! Mega indico!