[Rastro de Apolo (Os peãs, v.3), 1977, MELLO MOURÃO] O zênite da obra gerardiana, no entanto, é o livro Os Peãs. Trata-se, na verdade, de uma trilogia formada pelos seguintes volumes: O País dos Mourões (1963), Peripécias de Gerardo (1972) e Rastro de Apolo (1977). Embora os textos estejam separados temporalmente por um longo hiato, é possível encontrar no tríptico um elo temático que entrelaça a composição dos poemas: a aparição das deidades gregas, em formas não canônicas e miscigenadas com as potestades cristãs, na vida sertaneja. Alguns detalhes biobibliográficos, como os chama o próprio autor, cercam a composição do poema: três anos depois de ter lançado País dos Mourões, “primeiro volume da trilogia denominada OI PAIANES (em grego, por motivos óbvios) isto é, OS PEÃS, Gerardo visita a Grécia e tem uma “noite de exaltação poética no templo de Poseidon” e depois parte para Delfos, “onde lhe vêm os primeiros versos de Rastro de Apolo”. O relato dá a entender que a atmosfera grega teve elevada influência no modo como os versos sobre Apolo foram compostos: Por isso Pallas invoco—Palas Athenaia e Afrodite clamo—Afrodite e Zeus e Poseidon e Hermes Trismegisto e Afrodite clamo—Afrodite—e ao seu nome estremecem frementes a pele e o corpo dos machos e das fêmeas: da concha de seus lábios com seus olhos verdes ergue-se Afrodite os mesmos ombros de cabelos molhados pelo mar da Jônia na concha de Poseidon (Os Peãs) A fervorosa receptividade que Os Peãs experimentou entre intelectuais, poetas e jornalistas especializados, contrasta com o quase anonimato do livro junto ao grande público. Esse fato reforça uma ideia de que Gerardo Mello Mourão, por conta das conjunturas de sua época, é uma espécie de “poeta para poetas”. Ao contrário de outros autores que gozaram de boa receptividade popular (Casimiro de Abreu, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Adélia Prado), GMM não tem nenhum verso vertido para canções ou celebrado em frases repercutidas pelo senso comum. Um espectro sempre rondou a poesia de Gerardo Mello Mourão: a fama de ser um poeta críptico e obscuro. Ao falar do próprio poema, o autor menciona o seu “labirinto de Gerardo”.


