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    Aprendendo a viver -

    Clarice Lispector

    Rocco
    2021
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-17: 978-65-5532-119-7
    Português Brasileiro
    4.3
    1052 avaliações
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    Favoritos14Desejados2175Avaliaram1052

    Muito embora tenha afirmado que jamais escreveria sua autobiografia, Clarice produziu diversos textos confessionais no período em que colaborou com o Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973, conforme salientou seu filho e curador do seu legado literário, Paulo Gurgel Valente, no depoimento por ele concedido ao Instituto Moreira Salles em 2014, de fácil acesso no site do IMS ou por intermédio do YouTube. Foi a partir deste conjunto de crônicas que montei Aprendendo a viver como uma espécie de “autobiografia involuntária” de Clarice, desde a primeira infância no Recife na década de 1920, até seus derradeiros anos no refúgio da praia do Leme, na década de 1970. ― Pedro Vasquez, organizador da obra Clarice recusou todos os rótulos e o enquadramento em escolas ou sistemas literários. Buscou sempre a universalidade, a prospecção do próprio interior produzindo uma literatura de excelência incontestável e estilo inimitável, estabelecendo-se como uma das maiores escritoras da língua portuguesa de todos os tempos. “Esfinge, feiticeira, monstro sagrado. O renascimento da fascinante Clarice Lispector tem sido um dos verdadeiros eventos literários do século 21. Ninguém soa como Clarice. Ninguém pensa como ela. Ela não apenas parece dotada de mais sentidos do que os cinco conhecidos, mas também curva a sintaxe e a pontuação de acordo com sua vontade. Ela vira o dicionário de cabeça para baixo, soltando todas as palavras de suas definições, espalhando-as de volta como quer e não é que a língua parece melhor?” ― The New York Times

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    Henrique Luiz Fendrich picture
    Henrique Luiz Fendrich22/09/2011Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Clarice ao rés-do-chão

    Passei as últimas duas semanas trancado no quarto com Clarice. Estava decidido a só sair de lá depois que resolvêssemos todas as nossas desavenças. Sabia que não sairíamos nos amando, mas me consideraria satisfeito se nascesse uma suave afeição. Resolvi que começaria com aquilo que temos em comum. Eu gosto de crônicas. Leio crônicas, escrevo crônicas e, como se não bastasse, pesquiso sobre crônicas e tenho minhas próprias teorias sobre elas. Pois Clarice também fez crônicas – ainda que ela negue. Peguei então um dos seus livros de crônicas. E deixei que ela falasse. Tive, é verdade, a péssima ideia de ler a orelha do livro. Quase estragou tudo. Dizia que não era um livro de crônicas – imagine, Clarice fazendo simples crônicas! Ao contrário, ela estaria rompendo com o modelo tradicional do gênero – uma ou outra, talvez fosse crônica mesmo. A orelha, muito abelhuda, também alertava: não era por ter escrito em jornal que Clarice perdia a sua majestade. Depois de uma ligeira crise de urticária, consegui virar as páginas até a primeira crônica – ou seja lá o que for. Li as cinco primeiras. Eram todas crônicas. E fui surpreendido: eram todas belíssimas. Clarice descrevia episódios singelos de sua infância no Recife através de cenários muito vivos. Era impossível não simpatizar com ela. Refeito do choque, continuei a leitura. Não demorou, no entanto, para eu enxergar aquilo que me desagrada em Clarice – as indagações existencialistas. Mas elas se revezavam com momentos de leitura muito agradável. Clarice conversava com taxistas, com os filhos, com amigas e com empregadas. Falava sobre a natureza. Descrevia viagens. Citava coisas que leu e viu. Narrava episódios. Tudo em um tom leve, como exige o jornal. Clarice não rompeu com o modelo tradicional da crônica pelo simples fato de que não há um modelo tradicional. Ela não deixou, no entanto, de encostar na maior parte das características esperadas para o gênero. Talvez ela tenha, no máximo, rompido consigo mesma – a ponto de leitores acharem que, em jornal, ela não era verdadeira. Clarice não queria, mas foi impossível fazer crônicas sem ser pessoal. Ela estava exposta. E, na sua intimidade, Clarice era frágil. E tinha fome de uma liberdade tão grande que mal aceitava ser chamada de escritora, quanto mais de cronista ou colunista – o que não a impede de ter sido. Fazia crônicas com tudo que tinha direito, incluindo responder carta de leitor. E, em geral, gostei do que li, embora tenha pulado a maior parte dos textos que a própria Clarice pularia se não houvesse escrito – ela não gostava de ler textos pouco objetivos ou que pudessem ser acusados de herméticos. Acho maléfica a tentativa de colocar Clarice no pedestal de um gênero que, em essência, é feito ao rés-do-chão. É preciso deixar que a Clarice cronista seja simplesmente a Clarice cronista – é justamente quando ela se sai melhor. Deixem Clarice longe das revoluções. Parem de louvar a densidade em um gênero que – ela sabe – deve ser superficial. Percebam a beleza da sua fragilidade e deixem que ela corra solta. Em jornal mesmo. Ela não precisa que a tentem deixar mais bonita – em geral, estraga. Os gêneros não interessam mais a Clarice e é precisamente por isso que ela deve ser bem recebida na crônica – que, como lembra José Castello, é o fracasso da divisão em gêneros.

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    Clarice Lispector

    Clarice Lispector, nascida Haia Lispector (Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora brasileira, nascida na Ucrânia. Autora de linha introspectiva, buscava exprimir, através de seus textos, as agruras e antinomias do ser. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise. De origem judaica, terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. A família de Clarice sofreu a perseguição aos judeus, durante a Guerra Civil Russa de 1918-1921. Seu nascimento ocorreu em Chechelnyk, enquanto percorriam várias aldeias da Ucrânia, antes da viagem de emigração ao continente americano. Chegou no Brasil quando tinha dois anos de idade. A família chegou a Maceió em março de 1922, sendo recebida por Zaina, irmã de Mania, e seu marido e primo José Rabin. Por iniciativa de seu pai, à exceção de Tania – irmã, todos mudaram de nome: o pai passou a se chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia – irmã, Elisa; e Haia, Clarice. Pedro passou a trabalhar com Rabin, já um próspero comerciante. Clarice Lispector começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade do Recife, onde passou parte da infância. Falava vários idiomas, entre eles o francês e inglês. Cresceu ouvindo no âmbito domiciliar o idioma materno, o iídiche. Foi hospitalizada pouco tempo depois da publicação do romance A Hora da Estrela com câncer inoperável no ovário, diagnóstico desconhecido por ela. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57° aniversário. Foi inumada no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro.

    135 Livros
    7.111 Seguidores
    Vinnytsia, Ucrânia

    Clarice Lispector