Chinobyl é um livro escrito por um jornalista brasileiro que morou na China entre 2015 e 2018, inicialmente trabalhando como professor universitário, e, posteriormente, como jornalista na rádio estatal chinesa. O texto narra basicamente suas façanhas do cotidiano e as passagens pitorescas vivendo no país asiático, com vários aspectos sobre a sociedade chinesa, sua cultura e história, mas também citando suas impressões sobre como o partido comunista chinês (PCC) manipulava e controlava o povo para se manter no poder. Em resumo, um livro com forte viés político.
O texto agrada pela fluidez e pelo panorama raro sobre a nação mais populosa do mundo, com dezenas de etnias diferentes e aprisionada numa bolha polarizada entre a economia pujante e o regime ditatorial do qual é refém. Contudo, achei que, até a 3a parte, o autor foi um pouco paranoico em querer justificar argumentos iniciais (as mentiras do PCC como uma bomba nuclear prestes a explodir); ok, na China os cidadãos são controlados pelo governo por meio de um aplicativo de celular, e ações favoráveis ao PCC podem render uma viagem ao exterior; do contrário, multas e perseguições. No entanto, a expectativa era de que o autor poderia ser preso a qualquer momento por supostamente estar "espionando" o partido, e, às vezes, parecia até que ele queria ser, quando, durante coletivas de imprensa, tentava fugir das pautas pré-programadas para colocar o entrevistado (membro do partido) em xeque.
Então, entre a 4a e 5a partes, o livro muda de rumo: nos idos de 2018, o autor, já de volta ao Brasil mas ainda com fortes ligações asiáticas, percebe movimentos do PCC, instalado em Brasília, tentando manipular a opinião pública contra o governo de direita recém-empossado, a fim de evitar perda de influência política sobre o país mais relevante da América do Sul, ora se associando a canais de TV como Band e Globo (que, uma vez sem verbas públicas, toparam qualquer negócio para sobreviver), ora buscando introduzir sua tecnologia 5G no país com fins de espionagem, por meio da empresa Huawei, que, novidade, pertence ao governo chinês.
O ápice veio com o surgimento da COVID-19 na China e depois no mundo; não irei aqui esmiuçar como o livro tratou toda a hipocrisia e autoritarismo gerados em torno da crise global, ou sobre como diferentes partes do mundo reagiram, em detrimento ao que chegou no Brasil pela imprensa, mas o último capítulo, "sobre vidas e almas", bateu como um soco na boca do estômago... achei simplesmente f*da que, finalmente, o título havia se justificado.
No fim, avaliei como sendo um bom livro, que me trouxe novo entendimento sobre a China e seus movimentos maquiavélicos dentro do jogo de poder global, e que poderá agradar a jornalistas, amantes de geopolítica e das teorias conspiratórias.