LC do Clube do Livro Feminista
Ler Canto Eu e a Montanha Dança foi uma experiência singular: uma obra que não apenas se lê, mas se sente com o corpo, atravessando a mente e a memória. Irene Solà constrói uma narrativa polifônica, na qual cada capítulo dá voz a seres humanos, animais, espíritos, elementos da natureza, inclusive à própria montanha. O livro é fortemente telúrico: a terra, as rochas, a neve, as chuvas e os ventos não são pano de fundo, mas personagens vivos que nos lembram constantemente de nossa fragilidade temporal. A natureza não apenas existe; ela nos observa, nos atravessa e nos recorda que estamos aqui apenas por uma fração mínima de tempo.
A obra valoriza múltiplas vozes e experiências, descentrando a narrativa do antropocentrismo e celebrando a memória coletiva, o cuidado e a interdependência entre seres. A força feminina se revela na maneira como a vida e a morte são vividas, transmitidas e preservadas, em harmonia com o ambiente e com a ancestralidade.
Pra mim, destacaram-se dois capítulos: "As trombetas" (Parte I), narrado pelos esporos, que nos mergulha em uma sensação de feminino ancestral em diálogo íntimo com a terra, a memória e a continuidade da vida; "O tranco" (Parte III), narrado pela própria montanha, começa com “Não me amolem” e termina com “Ninguém mais se lembra do nome dos seus filhos”, reforçando a efemeridade da vida humana e a força duradoura da natureza. Ambos exemplificam a escrita sensorial, polifônica e telúrica de Solà: uma leitura que exige entrega, mas recompensa com emoções e imagens que permanecem no corpo e na mente.
Este é um livro que desafia definições e expectativas: não há respostas prontas, mas um mosaico de memórias, lutos, desejos e vozes que nos atravessam e se complementam. Ao mesmo tempo, nos ensina algo essencial: a singularidade de cada vida humana está sempre conectada à coletividade, à natureza e à memória, e nossa passagem por este mundo é breve, mas marcada por profundidade e intensidade.