Primeira resenha de 2026, com 11 dias de atraso no planejamento. A demora, porém, acaba sendo ilustrativa: estou resenhando o principal pensador marxista sobre a questão negra no Brasil enquanto vivencio na pele o que ele denuncia. Por conta do capitalismo dependente brasileiro, a precarização avança a passos largos e, devido a isso, meus primeiros 16 dias de férias foram engolidos pelo trabalho. Não tenho como fazer muita coisa, já que preciso pagar as contas, mas, felizmente, poderei aproveitar os próximos 14 dias.
Em outra resenha do Clóvis, já comentei que era um absurdo a obra mouriana ser quase uma coisa de gueto dentro da universidade. Quanto mais leio, mais concordo com a minha indignação. Aqui, o pensador combate as principais ideias defendidas pelo pensamento racista e, infelizmente, dominante nas principais esferas de poder do Brasil: a tese de um país sem racismo. Pouca coisa poderia ser mais mentirosa.
O Brasil, segundo Moura, foi e continua sendo um país extremamente racista — ideia com a qual concordo plenamente. O cenário pintado pelos nossos políticos conservadores faz parecer que a divisão entre negros e brancos, patrões e empregados, gays e héteros foi criada por um "pensamento marxista" que necessita dividir as pessoas. Clóvis derruba isso ao explicar o conceito de "grupos diferenciados e específicos". Ele demonstra, de forma brilhante, que essa divisão não é natural: ela é criada pela parcela dominante da sociedade justamente para estigmatizar o outro e legitimar a sua exploração.
O Estado, enquanto representante e braço armado dessa classe dominante, utiliza todos os seus meios — legais ou não, éticos ou não — para garantir a manutenção do status quo. Isso não acontece apenas por racismo puro e simples, mas para assegurar mão de obra barata e garantir o pleno funcionamento do capitalismo. Afinal, manter o trabalho degradante, e principalmente barato, é um dos principais mecanismos de controle social do capital.
Adorei o livro. Demoraria bastante para escrever tudo o que ele representou para mim, principalmente no meu atual momento de vida. Continuarei conhecendo a obra mouriana e, principalmente, utilizando-a como instrumento de mobilização e transformação social dos nossos: a classe trabalhadora.