Van Gogh: o Suicidado da Sociedade -

    Antonin Artaud

    Sistema Solar
    2018
    96 páginas
    3h 12m
    ISBN-13: 9789898833310
    Português

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    Marcos18/09/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A genialidade sem anteparo

    Neste ensaio de 1947, Van Gogh, o suicidado pela sociedade, Antonin Artaud faz uma reflexão visceral a respeito do suposto suicídio do pintor holandês Vincent Van Gogh. Escrito após visitar uma exposição sobre Van Gogh no Museu de Orangerie em Paris, Artaud faz uma crítica emocional e feroz à sociedade que, em vez de reconhecer a potência do gênio e sua arte, o tolera apenas para rejeitá-lo depois de expropriá-lo de si mesmo. A escrita de Artaud é marcada por uma linguagem provocativa, com imagens violentas e, por vezes, delirantes. O resultado é um texto desconcertante e com um ritmo caótico, refletindo o inconformismo e a frustração de Artaud com a sociedade da época. Assim como Van Gogh fez na pintura. Artaud descreve como Vincent, cuja desagregação psíquica aumentava ano após ano, canalizava seu turbilhão criativo nas suas telas com formas, cores e intensidade sem paralelo na pintura. Ele recorre a ecfrases vívidas e carregadas de impressões subjetivas para demonstrar a profundidade artística de Van Gogh. Mas o autor não relata apenas o que viu na exposição. Ele faz uma crítica cáustica à psiquiatria e aos médicos, em especial ao Dr. Paul Gachet. Para Artaud, a psiquiatria nasce do desejo das pessoas de preservar o mal como fonte de doença e extirpar a rebeldia do espírito do gênio. Ele afirma que o Dr. Gachet foi tanto o arauto do caos quanto o verdugo da genialidade de Van Gogh, tal como uma sociedade conformista que rejeita aquilo que não faz questão de compreender. A relação entre Van Gogh e Gachet é descrita com tensão. Artaud diz que o médico, que não era psiquiatra de formação, ao invés de recomendar repouso e isolamento, instigava Vincent a continuar pintando, atividade que o exauria ainda mais. Os métodos utilizados para ajudar Van Gogh certamente eram limitados, dado o estágio incipiente da ciência psiquiátrica no final do século XIX. Como a saúde mental de Van Gogh se encontrava desarticulada e sem tratamento adequado por anos, os transtornos psiquiátricos, as crises psicológicas e os comportamentos atípicos que acometeram o pintor só pioravam, tornando difícil categorizar sua lucidez. Assim como Van Gogh, outras personalidades mencionadas no ensaio, como Gérard de Nerval, Nietzsche e Baudelaire, enfrentaram profundos problemas de saúde mental. Embora a criatividade possa surgir em diversos contextos, não se pode ignorar que, em alguns casos, a experiência de transtornos mentais pode influenciar a expressão artística. Artaud vê a loucura como uma força de libertação e uma forma de recusar certas normas sociais. A leitura do ensaio é instigante, mesmo que pareça difícil de acompanhar e, em certos momentos, convulsiva e incoerente. Mas a aparente incoerência desse estudo é intencional e sua principal qualidade, uma vez que suscita uma reflexão inquietante sobre a loucura no tecido social, a arte explosiva e a vida de um artista que desafia classificações

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