Cartografia do abismo (Poesia Original) -

    Ronaldo Cagiano

    Laranja Original
    2020
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9786586042016
    Português Brasileiro

    A cartografia passa por muitos momentos da literatura e diversas partes do planeta, aproximadas pela presença do poeta, que palmeia o mapa de sua vida, nesse balanço um tanto precoce e talvez por isso mais pungente e inquietante. Brasileiro vivendo há vários anos em Portugal, incorpora autores lusitanos às suas referências, entre outros, expandindo a própria expressão ao mesmo tempo em que rompe as convenções territoriais que tantas vezes constrangem os artistas com falsos limites. Enfim, trata-se de um tema da banalidade cotidiana universal e, paradoxo, eterno. É grito e lamento diante do absurdo que se renova a cada fração de segundo da consciência. Um construir que se dá exatamente na sua negação.

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    Alexandre Kovacs25/09/2021Resenhou um livro
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    Ronaldo Cagiano - Cartografia do abismo

    Laranja Original Editora - 192 Páginas Projeto Gráfico: Marcelo Girard - Lançamento: 2020. A poesia de Ronaldo Cagiano tem como inspiração a fragilidade do homem contemporâneo em sua "solidão ambulante" diante de temas clássicos como a passagem do tempo ("O tempo, / esse morcego cego / a nos predar" - Memento Mori - p. 15) e a morte ("A morte é esta certeza exata e simples: / os mortos tão mais vivos do que nós!" - Diagrama - p. 37 ), enquanto a alma do poeta, essa resiste sempre ("Minha alma continua lá, / prisioneira das vertigens, / inquilina dos abismos." - Poema sem explicação - p. 61). No entanto, os versos também refletem temas pessoais, seja nas lembranças de menino em Cataguases, Minas Gerais ("É o Pomba / o rio da minha cidade / que (per)correu minha infância / e ainda (es)corre em minhas veias / fatigadas do inútil navegar." - Relembrando Pessoa - p. 181) ou lançando um olhar de Portugal, onde vive atualmente, para as nossas mazelas sociais na inusitada precisão de uma bala perdida ("Mais exata do que nós, / em algum lugar do País / uma bala perdida / achará seu lugar" - Observatório - p. 48) Deixo com vocês quatro exemplos da poesia madura e elegante de Ronaldo Cagiano, um estrangeiro, assim como nós, sobrevivendo nesta "inexpugnável selva digital". PASSAGEIRO DA VÉSPERA (p. 23) E transporemos sem náusea a tragédia do existir Milagre ou resistência? A flor atônita desmoronando sob o véu da madrugada Serpentes na epiderme cobiçando as vísceras A velhice com suas guerras afiadas é um país de muitas incertezas nação desprovida de milagres ou ascensão Esse comboio de artroses estacionado na noite indissolúvel que se insinua de todos os lados DISSENSÕES (p. 75) Falam com eloquência canina sobre a guerra na Síria e discorrem sobre o combate ao terrorismo com a potência indignada dos monopolistas de uma funesta verdade Muito mais perto está a bala perdida que fere sangra humilha animaliza mata mas não comove nem mobiliza como a tirania feroz dos talibãs a impune viagem dos mísseis da OTAN ou a fúria assassina do Estado Islâmico A morte, que não morre nunca, tem endereços diferentes tem dois pesos e duas medidas E os homens, sem perplexidade ou culpa, continuam im(p)unes em suas rotas de fuga apáticos na zona de conforto de suas ideologias ESTRANGEIRO (p. 131) Não tem lugar o homem de corpo e alma nessa inexpugnável selva digital Cada ser deixou de ter coração e linguagem perdeu-se numa imensa teia devorado pela escuridão do não-ser. Não-lugar de tantos exílios. DESCONSTRUÇÃO (p. 136) Essas pedras, eis o que restou de minhas perdas. Sobre o autor: Ronaldo Cagiano, mineiro de Cataguases, formou-se em Direito e trabalhou na Caixa, tendo vivido em Brasília e São Paulo. Entre suas obras publicadas, destacam-se Dezembro indigesto (Contos, Prêmio Brasília de Literatura 2001), O sol nas feridas (Poesia, finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012) e Eles não moram mais aqui (Contos, 3º lugar no Prêmio Jabuti 2016, Editora Patuá). Mora atualmente em Portugal.

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