A autobiografia da minha mãe (TAG Vozes Negras #4) -

    Jamaica Kincaid

    Alfaguara; TAG - Experiências Literárias
    2021
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-10: 8556521304
    Português Brasileiro

    Poderoso, emocionante e perturbador, este romance conta a história de Xuela Claudette Richardson, moradora da ilha de Dominica, filha de mãe caribenha e pai meio escocês, meio africano. Sua mãe morre no parto, e ela precisa encontrar seu lugar no mundo sem amparo materno. Com extrema habilidade literária, Jamaica Kincaid conduz o leitor pela vida de Xuela, da casa de sua infância, onde ela podia ouvir o canto do mar, passando pelo quarto com telhado de zinco que ocupa como estudante, até seu refúgio na velhice. Uma história de amor, medo, perda e formação de caráter, um relato da evolução de uma mulher negra caribenha escrito por uma das autoras mais engenhosas da literatura contemporânea.

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    Wanderson26/06/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O DESPERTAR

    O romance “A autobiografia da minha mãe”, de Jamaica Kincaid, relata, em primeira pessoa, da infância à maturidade, a vida de Xuela, “uma pessoa que nunca teve permissão para ser” e que também nunca permitiu se tornar. Marcada pela ausência desde cedo – perdera a mãe no momento em que esta a concebeu; o pai nunca lhe fora próximo –, precisou desenvolver, por meio de uma autoconsciência obstinada, estratégias de resistência em um mundo que a excluíra de todos os modos. Como não lhe bastasse a ausência dos pais, Xuela cresceu sob a indiferença e hostilidade dos professores, da madrasta, dos meios-irmãos e de toda uma sociedade que lhe havia rechaçado, entre outros motivos, pelo fato dela descender dos “caraíbas”, o povo nativo de Dominica, que havia sido praticamente dizimado pelos colonizadores europeus: “Minha mãe era uma mulher caraíba, e quando me olhavam era o que viam: o povo caraíba tinha sido derrotado e depois exterminado, jogado fora como as ervas daninhas...”. Mas se engana quem imagina que o livro adota um tom fatalista – a imagem da mãe torna-se para a protagonista uma obsessão quase divina, de tal modo que, nessa busca pelo reencontro impossível, Xuela se (re)conhece progressivamente ao confrontar tal espectro. E essa aguda consciência de si, leva-a a uma consciência extrema de seu próprio corpo. Desse modo, revolucionariamente, sua vida adquire um novo rumo, sob o seu total controle. Por fim, vale ressaltar que o texto de Kincaid é denso, sufocante às vezes, mas sempre faz concessões ao leitor: sua linguagem é acessível, com pitadas líricas, e a autora abusa, num bom sentido, do recurso da gradação, bastante eficiente para o efeito poético que pretende evocar e provocar. Se existe alguma dúvida em apreciar essa obra, confira o trecho a seguir: “Tudo que nos diz respeito é visto com dúvida, definimos tudo o que é irreal, tudo o que não é humano, tudo o que é sem amor, tudo o que é sem misericórdia. Nossa experiência não pode ser interpretada por nós: não sabemos a verdade dela. Nosso Deus não era o correto, nossa compreensão do paraíso e do inferno não era respeitável.” Leia! Leitura e microrresenha feitas em parceria com Carlos (IG: @o_alfarrabista).

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