O romance A autobiografia da minha mãe, de Jamaica Kincaid, relata, em primeira pessoa, da infância à maturidade, a vida de Xuela, uma pessoa que nunca teve permissão para ser e que também nunca permitiu se tornar. Marcada pela ausência desde cedo perdera a mãe no momento em que esta a concebeu; o pai nunca lhe fora próximo , precisou desenvolver, por meio de uma autoconsciência obstinada, estratégias de resistência em um mundo que a excluíra de todos os modos.
Como não lhe bastasse a ausência dos pais, Xuela cresceu sob a indiferença e hostilidade dos professores, da madrasta, dos meios-irmãos e de toda uma sociedade que lhe havia rechaçado, entre outros motivos, pelo fato dela descender dos caraíbas, o povo nativo de Dominica, que havia sido praticamente dizimado pelos colonizadores europeus: Minha mãe era uma mulher caraíba, e quando me olhavam era o que viam: o povo caraíba tinha sido derrotado e depois exterminado, jogado fora como as ervas daninhas....
Mas se engana quem imagina que o livro adota um tom fatalista a imagem da mãe torna-se para a protagonista uma obsessão quase divina, de tal modo que, nessa busca pelo reencontro impossível, Xuela se (re)conhece progressivamente ao confrontar tal espectro. E essa aguda consciência de si, leva-a a uma consciência extrema de seu próprio corpo. Desse modo, revolucionariamente, sua vida adquire um novo rumo, sob o seu total controle.
Por fim, vale ressaltar que o texto de Kincaid é denso, sufocante às vezes, mas sempre faz concessões ao leitor: sua linguagem é acessível, com pitadas líricas, e a autora abusa, num bom sentido, do recurso da gradação, bastante eficiente para o efeito poético que pretende evocar e provocar. Se existe alguma dúvida em apreciar essa obra, confira o trecho a seguir:
Tudo que nos diz respeito é visto com dúvida, definimos tudo o que é irreal, tudo o que não é humano, tudo o que é sem amor, tudo o que é sem misericórdia. Nossa experiência não pode ser interpretada por nós: não sabemos a verdade dela. Nosso Deus não era o correto, nossa compreensão do paraíso e do inferno não era respeitável. Leia!
Leitura e microrresenha feitas em parceria com Carlos (IG: @o_alfarrabista).