Thiago é um homem totalmente desolado que acabou de perder sua amada esposa, Vera. Assim, acompanhamos a sua história de uma maneira incomum, já que ele decide contar tudo o que aconteceu e o pesadelo que ele está vivendo no formato de carta para a sua mulher, recém-falecida.
Thiago e Vera eram um casal apaixonado e feliz até se mudarem para uma nova casa e adquirirem uma Itza, uma espécie de Alexa que começa a se comportar de forma peculiar. Aos poucos, barulhos nas paredes, encomendas misteriosas e um alarme que não despertou quando deveria resultam na perda de Vera.
Thiago, consumido pela culpa, pelo luto e pela solidão, resolve alugar um chalé em um local isolado na Califórnia, onde poderá, enfim, ruminar todas as terríveis sensações que estão tomando sua alma. Mas seja lá o que estivesse acontecendo em sua antiga residência, continuará ocorrendo aqui, de modo muito mais bizarro e assustador...
Esse é um livro em que a sinopse engana o leitor, fazendo com que ele acredite que encontrará uma história de terror sobre um dispositivo eletrônico possivelmente possuído. Porém, ao longo da trama, o rumo do tema muda e teremos um horror cósmico e delirante. Cá entre nós, eu amo tudo isso, mas o que eu mais gostei nessa narrativa é como ela consegue ser extremamente crua e mostrar, com perfeição, tudo o que envolve o luto e a perda. Thiago é capaz de expressar sua dor em palavras carregadas de emoção que demonstram o que quem é deixado para trás enfrenta, além de explorar como a morte de um ente querido pode acabar se tornando um alvo social e político, utilizado como benefício de pessoas desconhecidas enquanto aquele que precisa viver com o fardo de não ter mais o amor de sua vida é quem realmente está sofrendo com tudo isso.
Gus Moreno construiu uma história que também levanta questões sobre cultura, descendência e árvore genealógica, focando em como os traumas que vivemos podem se tornar grandes monstros. E eu confesso que, mesmo já tendo lido muitas obras cujo tema central é a morte, eu nunca li algo como essa narrativa, mostrando esse trágico momento de forma tão magistral, melancólica e real.
O autor traz uma referência constante ao clássico "2001: Uma Odisséia no Espaço", que me deixou muito feliz, pois é meu livro de ficção científica favorito e fez com que eu me apaixonasse pelo gênero. E é através desse elemento que ele constrói o seu próprio cosmicismo, em que o horror, por mais insólito que seja, tem raiz no maior terror de todos: o fim.
É claro que, pela história ser escrita do ponto de vista de Thiago, sabemos que ele não é um narrador confiável - e o autor permite que o leitor se pergunte o que é real e o que não é, pinta imagens surreais em nossas mentes, traz certas confusões sobre o que personagem vê e nos leva a cogitar, junto do protagonista, o que será que está além dos muros que separam o mundo dos vivos e o dos mortos.
É exatamente isso que torna esse livro tão especial: ao focar na morte e descrever com perfeição os sentimentos que alguém experimenta durante o luto, o autor nos faz viver todo o sofrimento que o protagonista está encarando. Por isso, já aviso que essa é uma obra para ser lida com cautela, já que é um livro pesado e doloroso que fez com que eu me sentisse mal ao terminar a última página... Mas também fez com que eu compreendesse que cada ser humano é único - e vive a morte de sua própria maneira.
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