Em seu romance de estreia, Clara Corleone aborda as relações amorosas-sexuais do século XXI, com homens e mulheres ora buscando novas formas de estar junto, ora reencenando antigos papéis. Num estilo arejado, com diálogos certeiros e instigantes, a autora celebra a amizade entre mulheres e o poder de se reinventar. Um romance pulsante, que nos provoca a devorá-lo inteiro. * “Pensei que você fosse jogar o telefone pela janela, se livrando, nos livrando de todo o mal, de toda a burocracia, de todos os protocolos, de todos os artigos, de todos os advogados. Finalmente éramos só você e eu. Você me olhou – eu já nua na cama, ofegante, líquida, precisando de você – e disse: – Eu quero colocar a minha boca aqui. E mergulhou em mim. Tive a sensação de que iria me afogar, de que iria morrer, de que iria ser feliz para sempre naquele preciso e precioso momento, você mergulhado em mim, persianas fechadas, mãos entrelaçadas, necessidade e desejo, a gente protegido de tudo, você obedecendo ao desejo da sua boca e do meu corpo. Eu tive – sim, eu tive, eu juro – a sensação de que seria feliz para sempre.”
Porque era ela, porque era eu -
Clara Corleone
Edições (1)
Ver maisUma celebração às boas amizades femininas!
Esse é o romance de estreia da autora nacional Clara Corleone, que também é autora de um livro de crônicas. Já adianto que é o tipo de livro para ler em uma sentada, não só por ser relativamente curto (168 páginas), mas pela escrita da autora, que é muito gostosa, como se a gente estivesse conversando com uma amiga. Eu poderia deixar a sinopse dele mais clara, mas acho que o charme inicial do livro está na confusão que a gente faz com quem está falando o que e, quando o esclarecimento vem, o impacto é certeiro, por isso optei por não estragar essa experiência aqui. Só esclareço que temos duas personagens contando seu ponto de vista, sua história, em primeira pessoa, que se alterna a cada capítulo. Tem linguagem adulta de cunho sexual crua e sem pudores, encaixada aqui e ali de forma bem interessante. O plano de fundo do livro é Porto Alegre, cidade natal da autora, então deve ser uma experiência de leitura muito divertida pra quem mora no local, ao poder reconhecer os cantinhos pelos quais os personagens passaram. Os capítulos são curtos e a leitura fluida, de forma que é possível ler o livro em um dia - e terminar com o coração quentinho e muito bem resolvido, como acontece com as personagens. Acredito que existem dois temas principais aqui (além de várias ramificações destes). O primeiro deles é sobre relacionamentos afetivos, com foco na traição. E, confesso, doeu um pouquinho ler, se colocar na pele da personagem e sentir sua angústia. Quantas de nós já não fomos como ela? É até um gatilho pra quem já passou por isso. Dá vontade de chorar, afinal ninguém quer ver o amor do outro acabar. Em segundo lugar, o livro fala sobre sororidade, sobre a força da amizade, sobre esse elo forte que só as mulheres conseguem ter umas pelas outras, sobre o feminino de uma forma ampla. É uma celebração à nossa união e me emocionou bastante a relação das personagens com seu respectivo grupo de melhores amigas. Outro ponto que achei bastante interessante foi ver a percepção das duas mulheres sobre os mesmos relacionamentos, vide o encontro casual com o personagem chamado Fernando e a forma como ele afetou de forma diferente as duas protagonistas. Como ser bem resolvida e ter inteligência emocional, ser emocionalmente estável de fato, te faz um bem danado e nada do que vem do outro te machuca. Ah, e como é bom o autoconhecimento advindo de boas sessões de terapia. O livro também faz menção ao ghosting e ao gaslighting, dentre outros comportamentos sociais, que consistem em técnicas que pessoas maduras não usam quando querem encerrar um relacionamento. O primeiro refere-se a quando uma pessoa some da sua vida por vontade própria, sem deixar maiores explicações do motivo do sumiço. O segundo se trata de uma espécie de manipulação que beira a violência psicológica, onde o outro manipula a realidade de forma a fazer a mulher se sentir culpada, a histérica da história. Vale a pena pesquisar mais a fundo cada um deles pra entender melhor sobre o assunto e não cair nessas armadilhas. Por fim, foi um livro que me emocionou bastante. Cheguei a chorar em dois trechos, rs. Remexeu algumas feridinhas internas por aqui. Até a orelha escrita por Martha Medeiros é emocionante! Me reconheci muito em uma das personagens e senti um afago com seu caminho de libertação. O esclarecimento do título do livro também é de uma doçura e força que nem tem explicação. Que possamos ser como as personagens do livro: reconhecer as batalhas umas das outras e não nos colocarmos como rivais nunca, mesmo que a situação nos diga o contrário. Estou encantada pela Clara Corleone e já quero ler mais escritos dela! Agradeço muito à editora por ter me dado a oportunidade de ler essa joia! Recomendo a leitura de olhos fechados!
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