Da mesma autora do incrível romance de terror Mexican Gothic, Certain Dark Things não é o que eu esperava (terror), mas não significa que a surpresa não foi agradável. Em uma realidade alternativa onde a existência de vampiros foi revelada há décadas, países do mundo inteiro implantaram suas políticas de expulsão e extermínio. O enredo se passa na Cidade do México, onde gangues, vampiros e policiais travam um conflito violento por controle e poder.
A história é acelerada, marcada por encontros e desencontros ao longo de poucos dias. É como ter acesso a um recorte não só da história desse mundo, mas da vida dos próprios personagens. São eles que fazem a história brilhar.
Domingos é o primeiro ponto de vista ao qual somos apresentados. O adolescente é morador de rua e catador de lixo, tendo escapado de uma realidade abusiva em casa e do controle de uma gangue violenta que domina jovens renegados da cidade. Um fã de histórias de vampiro, Domingos aparenta estar satisfeito em sua vida, levando-a com base em uma filosofia de se manter invisível e longe de confusão. Isto é, até colocar os olhos em Atl...
Atl é uma fugitiva, descendente de um clã de vampiros astecas, ela foge de uma gangue de vampiros europeus responsáveis pela aniquilação de sua família. Ela é esperta, rápida e ousada, qualidades que contribuíram para a sua sobrevivência até então. Desesperada e faminta, sem ninguém além da companhia de seu fiel cão Cualli, Atl encontra em Domingos um apoio inesperado, além de necessário. Será o humano apenas uma ferramenta para ela ou uma relação mais genuína poderá nascer entre os dois?
No encalço de Atl e Domingos está o obcecado e violento Nick. Jovem e mimado, o vampiro não parece se importar com quantos corpos cairão aos seus pés na sua busca por vingança e satisfação. O personagem de Nick consegue ser familiar por causa do temperamento de homem-bebê estúpido, do tipo que qualquer leitor já deve ter encontrado uma vez na vida, o que talvez só contribua para sua monstruosidade.
Acompanhando o rapaz encontramos Rodrigo, outro humano, dessa vez adulto. Sempre de terno, de fala mansa e profissional, costuma apresentar comportamento bastante razoável quando não está ameaçando seus contatos no mundo gangster ou atraindo vítimas para alimentar a sede insaciável de Nick. Melancólico, passa cada vez mais tempo admirando fotos de sua juventude; de quando ainda era inocente. Rodrigo é como um paralelo sombrio para a vida que Domingos inicia, aquilo que o garoto poderia se tornar depois de alguns anos servindo vampiros egoístas...
Ana Aguirre é uma policial. Sábia e talentosa, Ana emprega os saberes transmitidos pela sua avó para se tornar uma espécie de caçadora de vampiros moderna. Ela teve bastante experiência contra gangues de vampiros no passado, mas até recentemente, a mulher não tinha nenhum interesse em revisitar esse passado. Com anos de carreira nas costas, ela está cansada do sistema falho e corrupto que navega diariamente. Seu maior desejo é levar uma vida tranquila junto a sua filha Marisol, bem longe de toda a violência que a cidade representa. Quando vampiros arrastam suas disputas para sua porta da frente, no entanto, o que Ana pode fazer além de ir a seu encontro?
A história, além de eletrizante, é uma carta de amor à cultura mesoamericana. Paisagens, bairros e pontos turísticos da cidade são apresentados com propriedade pela autora de origem mexicana. O folclore também brilha na representação inventiva das mais diversas raças de vampiro, incluindo aqueles originários de países distantes. Temas como trauma, colonialismo, esperança e moralidades também são explorados nesse livro que eu não poderia recomendar mais.