Ester tem 17 anos e um único medo: que alguém descubra que seus pais estão mortos e escondidos dentro do apartamento e ela termine num orfanato. repetindo o destino de sua mãe. Por isso. Ester finge que os pais estão vivos. alimentando suas redes sociais e afirmando que os dois estão de viagem em Buenos Aires. Ao conversar com um estranho que conheceu pela internet. e que promete ajudá-la a se livrar dos corpos dos pais. Ester pode entrar em um jogo ainda mais perigoso. revelando grandes segredos que envolvem sua misteriosa doença e o autoritarismo e os abusos psicológicos de seu pai.
Ester ou Antígona -
Tadeu Sarmento
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Ver maisA Trinca De Áses
“Nenhum homem é feliz, até morrer.” (Édipo Rei, Sofócles) De Tadeu Sarmento, Ester ou Antígona traz à pauta uma familia disfuncional sob a ótica de Ester, a única filha. Resumidamente, ela é uma adolescente, de 17 anos, nada confiável, que afirma ter sofrido abuso por parte do pai na infância e, como a mãe, é portadora de analgesia congênita: uma rara condição genética que faz com que a pessoa seja incapaz de experimentar a dor física e aqui cabe um aparte, “não sentir dor não é mesmo de não ter dor”. “Hoje foram meus pais que postaram uma foto na rede social. Um fato que seria irrelevante, afinal de contas, milhões e milhões de fotos iguais são publicadas o tempo todo, a cada instante, não fosse por um detalhe: meus pais parecem felizes e estão mortos. É assim que vou começar. Digo, a revelar essa história pra você.” (Ester, página 5) Verdade seja dita, uma história bizarra, ou melhor, macabra. Segundo a jovem, o casal está morto há dias, os corpos escondidos no apartamento onde viviam e seu propósito é fingir que eles estão vivos, isto é, evitar que o caso venha a público, pois, sem parentes próximos, ela teme que seu destino seja um orfanato. O que houve paulatinamente vem à tona e como pretende se safar da enrascada é o xis da questão, mas, de imediato, Ester assumiu os perfis dos pais na rede social e tudo está correndo às mil maravilhas: Cilinha e o marido, jamais nomeado, supostamente estão passeando em Buenos Aires. “Não foi difícil descobrir a senha dos velhos na rede social. Tudo é uma questão de tentativa e erro, somada a um pouco de sorte. Saber os gostos dos dois facilitou bastante também. A senha de minha mãe, por exemplo, é o nome de um personagem de Sófocles. Claro que não vou escrever aqui qual é. A do meu pai também não foi grande coisa acertar. O processo foi o mesmo pra descobrir a senha da conta bancária do meu pai. Na verdade, foi um pouco mais difícil, mas, acabei conseguindo”. (Ester, página 32) Reunindo alucinação, psicopatia e internet, o desdobramento dessa farsa desafia qualquer previsão. Uma “trinca de áses” num enredo entremeado de referências literárias, algumas muito sutis, como Hamlet, de Shakespeare; outras mais explícitas, tal qual Antígona, de Sofócles e O Senhor das Moscas, de William Golding, entretanto todas indispensáveis para escorar uma narrativa capciosa e escorregadia. “ …Seus pais estão mortos e ninguém mais, além de você, liga para isso, de modo que não é você quem está conseguindo manter a farsa, é a verdade que não interessa mais a ninguém. Sim. A pergunta que devemos fazer agora é: mas interessa a nós dois? A verdade? Já perguntei sobre a osga, sobre a mamografia, sei lá. Você me conta que está lendo O Senhor das Moscas e me pergunta se eu já li. Respondo que sim, e que por isso mesmo nós dois sabemos quantas coisas horríveis um ser humano é capaz de fazer, mesmo sendo ainda bem jovem.” (Página 115) O trecho acima é do interlocutor de Ester. Um amigo que ela conheceu na rede social e com quem vem trocando mensagens. Ao que lhe parece, um bom confidente e conselheiro, inclusive, disposto a ajudá-la a desfazer dos corpos antes que o cheiro cause suspeita. Para ser sincera, se Ester ou Antígona fosse uma história de amor, eu apostaria que esse amigo é o príncipe encantado, mas como se trata de um suspense, não custa lembrar de um velho ditado: “Quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Por sinal, um suspense que superou minhas expectativas, à medida que escapa do lugar-comum, especialmente, pela forma como é narrado, prima pela polifonia textual e as personagens complexas, além de flertar com um gênero que eu me interesso e vem ganhando espaço na nossa literatura: o horror. Outro ponto interessante é o desfecho aberto que permite ao leitor fechá-lo como melhor convier, algo que provavelmente lhe roubará o sono, e já que mencionei o desfecho, gostaria de encerrar com uma frase de Dan Brown para um thriller de Harlan Coben, não me recordo qual, que é perfeita para Ester ou Antígona: Tadeu Sarmento “vai seduzir você na primeira página apenas para chocá-lo na última.” Boa leitura! “… Escrever aqui está me dando clareza, parece que estou diante de uma câmera parada que filma minhas falas que, aos poucos, ou seja, à medida que as releio e reescrevo, vão perdendo o tom natural e adquirindo o ar declamatório de uma ária. É que quero dizer tudo, falar tudo, até não sobrar pedra sobre pedra. O que acontece quando tudo é dito? O que sobra? É isso que vou descobrir. Talvez seja nesse deserto que a vida de fato comece, um deserto onde não apenas sobreviver seja uma ordem, mas também ser feliz.” (Diário de Cilinha, mãe de Ester - Página, 88)^
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