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    A rua -

    Ann Petry

    Carambaia
    2021
    352 páginas
    11h 44m
    ISBN-13: 9786586398519
    Português Brasileiro
    4.4
    23 avaliações
    Leram27Lendo7Querem167Relendo1Abandonos1Resenhas4
    Favoritos2Desejados167Avaliaram23

    Publicado em 1946, A rua, de Ann Petry (1908-1997), tornou-se rapidamente o primeiro romance de uma autora negra a superar a marca de 1 milhão de exemplares vendidos nos Estados Unidos – e bateu o recorde com folga: vendeu 1,5 milhão de cópias. No cânone da literatura afro-americana, contudo, a autora nem sempre foi devidamente lembrada, apesar de ter alcançado um equilíbrio raro: uniu observação social implacável a características da melhor tradição do thriller, sendo comparada a clássicos do romance policial como Raymond Chandler e Patricia Highsmith. Mais de sete décadas depois de sua primeira edição no Brasil, o romance de Ann Petry recebeu nova tradução, de Cecília Floresta, e vem acompanhado do posfácio da escritora americana Tayari Jones. A maior parte do enredo se desenvolve, efetivamente, em uma rua, a 116th Street, que tem papel-chave na vida da protagonista, Lutie Jones, que tenta sobreviver com um filho de 8 anos no tumultuado bairro nova-iorquino do Harlem. Nas palavras de Tayari Jones, “a 116th Street é a resoluta antagonista e representa a intersecção entre racismo, sexismo, pobreza e fragilidade humana”. São esses os elementos que conferem ao romance um ponto de vista incomum mesmo entre os clássicos da produção literária afro-americana, em geral marcadamente masculinos. Lutie Jones é uma mulher que sai de seu meio familiar na região da Nova Inglaterra e deixa para trás o companheiro que não consegue ajudá-la a criar o filho. Ela tampouco pode contar com o pai beberrão e sua nova esposa. Resta-lhe, de início, o trabalho de empregada doméstica na mansão de uma família rica que a trata com condescendência num ambiente abertamente racista. Lutie, no entanto, compartilha com seus patrões o credo no “sonho americano”, traduzido no elogio ao empreendedorismo formulado por Benjamin Franklin. Essa convicção a leva a abandonar o trabalho doméstico para estudar datilografia e conseguir empregos melhores. “Em outras palavras, Lutie é uma americana”, observa Tayari Jones. “Contudo, ela é uma americana negra, e esses termos nem sempre combinam.” No prédio decadente e sujo onde Lutie encontra um apartamento ao alcance de sua pouca renda, Lutie convive com um zelador de presença ameaçadora e a dona de um bordel que a convida insistentemente a trabalhar para ela. O único personagem branco na 116th Street é o dono do prédio e também de um bar onde Lutie começa a se apresentar como cantora, estimulada pelo pianista e líder da banda da casa – um homem negro que sabe se virar na selva urbana. Enquanto ganha a vida, Lutie tem de deixar seu filho sozinho nos horários em que ele não está na escola. A atmosfera construída por Petry traduz a iminência de perigos por toda parte de um cenário marcado por miséria e atitudes de salve-se-quem-puder. O leitor é envolvido numa multiplicidade de pontos de vista – embora a autora naturalmente dê ênfase à vida interior da protagonista, com frequência leva os leitores aos pensamentos e atitudes de quase todos os personagens, mesmo os mais sinistros.

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    Pablo Pax picture
    Pablo Pax23/11/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Estou lendo

    Marquei como lido devido a outra edição (em espanhol), mas a desta editora merece ser divulgada e já adquiri um exemplar. Esse livro, publicado em 1946, está em pré-venda, e é uma daquelas obras em que temas que hoje nos aparecem como novos já foram tratados há pelo menos duas gerações, como a dupla jornada feminina e a experiência da maternidade como mãe solteira. Dois ótimos motivos para lê-lo: pelos temas entrelaçados (é interseccionalidade que fala?) e pela qualidade da obra. O estilo e a proposta literária da autora se sustentam e valem por si mesmos. Biscoito-fino!

    12 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.4 / 23
    • 5 estrelas39%
    • 4 estrelas52%
    • 3 estrelas9%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%
    Ann Petry profile picture

    Ann Petry

    Ann Lane (depois Petry) nasceu numa pequena cidade do estado de Connecticut onde havia apenas quatro famílias negras. A origem de classe média não impediu que Ann e suas irmãs passassem por vários episódios de discriminação racial, mas permitiu que ela frequentasse a universidade, formando-se aos 25 anos em ciências farmacêuticas. Trabalhou sete anos na farmácia da família até que, em 1938, já casada com George Petry, mudou-se para Nova York com a intenção de tornar-se escritora, iniciando-se na carreira jornalística. Em 1946, enquanto terminava seus estudos de escrita criativa na Columbia University, publicou <i>A rua</i>, um sucesso estrondoso que a tornou uma celebridade, principalmente nos círculos de cultura negra, com repercussões no Brasil, onde o romance foi publicado em 1947 pela Companhia Editora Nacional. A habilidade em retratar sua época e lugar fez com que <i>A rua</i> merecesse da esposa de Martin Luther King, Coretta Scott King, o seguinte elogio: “É um trabalho de crítica social poderoso e implacável. Poucas obras de ficção iluminaram tão claramente o impacto devastador da injustiça racial.” No entanto, a fama incomodou profundamente a escritora, que voltou para sua região natal em busca de paz e privacidade, tendo vivido discretamente até sua morte aos 88 anos, deixando marido e filha. Sobre <i>A rua</i>, Petry afirmou que seu objetivo foi “mostrar como o meio social pode, simples e facilmente, mudar o curso da vida de uma pessoa”. A autora – que frequentava grupos de esquerda em Nova York – defendia com convicção a arte engajada. “A mim parece que toda grande arte é propaganda, seja a Capela Sistina ou a Mona Lisa, <i>Madame Bovary</i> ou <i>Guerra e paz</i>”, escreveu num ensaio. “Quando o romancista mostra como a sociedade afeta seus personagens, como foram formados e delineados pelo vasto e precário mundo em que vivem, está escrevendo uma obra de crítica social, chame-a assim ou não.” Petry publicou contos, ensaios e vários livros para o público infanto-juvenil, além de dois outros romances: <i>Country Place</i> (1947), ambientado entre a elite branca de uma cidade de Connecticut, e <i>The Narrows</i> (1953), uma história de amor trágica entre um homem negro e uma mulher branca. Suas obras vêm conquistando novos leitores nos Estados Unidos, após o lançamento, nos últimos anos, de seus principais romances na prestigiosa coleção Library of America.

    8 Livros
    1 Seguidor
    Connecticut, Estados Unidos

    Ann Petry