Eu comecei A Vingança do Poderoso Chefão mais por teimosia do que por expectativa. Depois da decepção com O Retorno, que me pareceu mais uma colcha de retalhos do que uma verdadeira continuação da obra de Mario Puzo, confesso que abri esse livro com um certo ranço. Li esperando o momento de dizer: “Tá vendo? Sabia que não prestava.” Mas, para minha surpresa… ele melhorou. Consideravelmente.
Finalmente Mark Winegardner parece ter entendido melhor, aqui, a alma da família Corleone. Ainda não é genial, ainda não tem o peso e o lirismo que o Puzo imprimiu no original — mas há momentos em que ele toca o que realmente importa nessa saga: o vazio que o poder deixa quando consome tudo ao redor.
Já aviso que não vou considerar spoiler o trecho abaixo, de um livro com quase 20 anos sobre uma trilogia de um filme com mais de 40 anos...
Esse livro não é sobre o crime organizado, nem sobre estratégia ou vingança, embora tudo isso esteja presente. É sobre Michael. Sobre um homem que mandou matar o próprio irmão, afastou a mulher que amava, e viu os fantasmas do passado sufocarem qualquer traço de humanidade que ainda existisse nele. Um imperador cercado de silêncio, saudade e paranoia.
Há uma cena, ali pelo final, em que Michael contempla tudo o que construiu — e o silêncio que resta é ensurdecedor. Foi aí que a frase que usei no título da resenha veio à minha mente. Porque é isso. O poder absoluto exige sacrifícios tão profundos que, no fim, quem o detém não sabe mais se está defendendo algo real ou só as cinzas daquilo que um dia teve valor.
Ainda assim, o livro não é perfeito. Algumas subtramas cansam, certos personagens parecem estar ali só para preencher espaço, e o texto carece daquele brilho que só o criador verdadeiro dos Corleone sabia dar. Mas tem alma, e isso já é muito. Senti raiva, senti pena, senti até respeito em certos momentos. Winegardner finalmente entendeu que essa história não é sobre mafiosos — é sobre homens tentando sobreviver às escolhas que fizeram.
Então, sim. Eu comecei por implicância. Mas terminei com respeito. Não é um clássico. Não vai ser lembrado como o original. Mas, dessa vez, Mark Winegardner conseguiu entregar algo digno do nome que carrega na capa. E por isso, valeu a leitura.