Matilda -

    Roald Dahl

    WMF Martins Fontes
    2010
    260 páginas
    8h 40m
    ISBN-13: 9788578272418
    Português Brasileiro

    Todos os dias Matilda passava horas na Biblioteca, lendo um livro atrás do outro. Mas quanto mais ela lia e aprendia, mais aumentavam seus problemas. Os pais passavam o tempo todo vendo televisão, e achavam muito estranho a menina gostar tanto de ler. A diretora da escola achava Matilda uma fingida, pois não acreditava que uma criança tão nova pudesse saber tantas coisas.

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    Kakau14/05/2025Resenhou um livro
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    Entre o Giz e as Constelações Literárias. “― Queria um livro bom de verdade, daqueles que os adultos leem. Um livro famoso. Não sei de nenhum título.”

    “Desse dia em diante, todas as tardes, logo depois que a mãe saía para o bingo, Matilda ia até a biblioteca. Era uma caminhada de apenas dez minutos, e assim lhe sobravam duas horas gloriosas para ficar sentada em silêncio, sozinha, num canto tranquilo, devorando um livro atrás do outro. Depois de ler todos os livros infantis da biblioteca, ela passou a percorrer as estantes em busca de alguma outra coisa. A sra. Felps, que a observara fascinada durante as últimas semanas, levantou-se e foi falar com ela. ― Posso ajudá-la, Matilda? ― Estou pensando no que posso ler agora ― Matilda disse. ― Terminei todos os livros infantis. ― Quer dizer que já viu todas as figuras? ― Vi, mas também li os livros.” “Matilda”, de Roald Dahl, é muito mais do que uma narrativa infantojuvenil sobre uma menina extraordinária: trata-se de uma obra que, sob o véu da fantasia e do humor mordaz, desnuda as estruturas de opressão e negligência que cercam a infância. Publicado em 1988, no crepúsculo de um século marcado por convulsões políticas e culturais, o romance de formação ocupa um território liminar entre o real e o fabular, entre a crítica social e a celebração da imaginação como instrumento de subversão. Dahl, com sua linguagem aparentemente simples e direta, constrói um universo em que os adultos — figuras que deveriam acolher, educar e proteger — surgem como agentes de ignorância, autoritarismo e descaso, alheios à existência de uma pequena criança pensante. É justamente nesse ambiente hostil que Matilda Losna, uma menina de inteligência prodigiosa e sensibilidade singular, floresce não como vítima, mas como símbolo de resistência silenciosa, autonomia intelectual e senso de justiça. Embora envolta por uma atmosfera de comicidade e elementos mágicos, a narrativa pulsa com uma inquietação existencial: quem somos quando ninguém nos enxerga verdadeiramente? O que resta da infância quando ela é colonizada pela brutalidade e pela banalização do afeto? “Matilda” é, nesse sentido, uma narrativa de formação às avessas — uma Bildungsroman que não conduz à integração social, mas à emancipação precoce. A busca por pertencimento dá lugar à construção da liberdade interior, e a leitura, o conhecimento e a solidariedade surgem como os últimos refúgios possíveis diante de um mundo marcado pela arbitrariedade, pelo desamparo e pelas incoerências da vida adulta. “Matilda” é um dos filmes que guardo com mais ternura na memória. Assistir àquela garotinha inteligente, sensível e sonhadora era como olhar para um espelho encantado e, nele, enxergar alguém que me compreendia com uma clareza quase sobrenatural — como ninguém mais jamais compreendeu. Era como ver desvelada a solidão mansa de uma criança que chora em silêncio, sem saber exatamente o motivo, mas que esconde as lágrimas como se houvesse um perigo invisível prestes a se revelar à sua frente. Uma menina cujos pensamentos pareciam habitar uma órbita própria, sempre vagando pela lua, à procura de algo que não sabia nomear. Em Matilda, encontrei reflexos profundos de mim mesma — traços dispersos de uma infância interior que, por muito tempo, eu não soube como traduzir em palavras. Era como se ela falasse por mim, por tudo o que eu sentia mas ainda não sabia dizer. Lembro-me com nitidez de quando tinha cinco anos e frequentava, com entusiasmo quase sagrado, a pequena biblioteca que ficava próxima de casa. Passava horas ali, dia após dia, mergulhada em mundos silenciosos e infinitos, como se cada livro fosse uma relíquia encantada guardada por um ritual secreto — um universo onde ninguém ousava me interromper. Minha paixão pelos livros nasceu ali, entre estantes silenciosas e o cheiro doce do papel antigo. Começou com os gibis: eu os pegava em pilhas, organizava ao meu lado como se construísse uma pequena fortaleza de papel e, só depois, me aventurava pelas demais seções da biblioteca. Não importava o gênero, a idade recomendada ou o tema — se algo me chamasse a atenção, eu levava comigo. Curiosamente, os livros didáticos eram os meus favoritos. Tenho plena convicção de que, se alguém tivesse me apresentado a títulos como Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, ou Moby Dick, de Herman Melville, eu os teria devorado com encantamento — teria sido um presente inestimável. Mas cresci sem exemplos de leitores ao meu redor, sem qualquer incentivo. Havia apenas eu e minha sede insaciável por compreender, aprender, ir além. Mas sempre fui assim: curiosa, inquieta, com uma mente que teimava em ultrapassar os limites impostos pela idade ou pelo currículo escolar. Queria entender o porquê de tudo — das coisas grandes, das pequenas, das que todos pareciam aceitar sem questionar. Desejava respostas que os adultos ao meu redor pareciam não ter — ou, se tinham, não se importavam em oferecer. Ao final de cada tarde na biblioteca, minha mãe vinha me buscar. E eu, invariavelmente, saía de lá carregando uma pequena pilha de livros, como se fossem companheiros leais que eu me recusava a abandonar. Eles eram meus confidentes silenciosos, cúmplices de um mundo interior que ninguém mais parecia conhecer. Lembro com carinho do dia em que descobri que podia levar os livros para casa. Aquilo me pareceu um presente mágico, quase inverossímil — como se, de repente, o universo inteiro coubesse dentro da minha mochila infantil. Mas ainda mais inesquecível foi o momento em que, com apenas cinco anos, recebi um certificado por ser a leitora mais assídua da biblioteca. Imaginem: uma garotinha lendo mais do que qualquer adulto que frequentava aquele lugar! Chega a ser engraçado — quase cômico, se não fosse tão doce. Minha mente sempre pareceu maior do que meu corpo conseguia carregar. Uma estrutura frágil sustentando um pensamento vasto, inquieto, em constante ebulição. E, embora esse peso fosse às vezes silenciosamente difícil de suportar, nenhum adulto à minha volta parecia perceber — ou, se percebia, não dava importância. Assim como ninguém parecia se importar de verdade com a pequena e extraordinária Matilda, cujos poderes não vinham da força ou da bravura, mas da solidão e da imaginação. A narrativa gira em torno de Matilda, uma menina de inteligência radiante e precoce, cuja paixão pelos livros não apenas a define, mas a sustenta. Desde os primeiros anos de vida, Matilda demonstrava uma genialidade fora do comum: aos três, ensinou-se a ler sozinha, decifrando palavras nos jornais e revistas esquecidos pelos cantos da casa. Aos quatro, já lia com fluência surpreendente, mergulhando com voracidade nas páginas impressas como quem respira ar puro após dias de clausura. Contudo, em sua casa — onde reinava a pretensão de uma cultura inexistente — o único livro disponível era um exemplar surrado de Cozinha sem Mistérios, propriedade da mãe. Matilda o leu de capa a capa, decorando cada receita como se fossem poemas épicos. Mas sua fome era maior. Queria mais, ansiava por algo que desafiasse sua mente. Pediu ao pai, o Sr. Losna, que lhe trouxesse um novo livro. A resposta foi o escárnio indiferente de um homem arrogante, incapaz de enxergar a filha além de seu incômodo brilho. Cansada da monotonia e da negligência que permeavam sua rotina, Matilda encontrou refúgio nas tardes silenciosas. Assim que a mãe saía para o bingo, ela caminhava sozinha até a biblioteca da cidade. Era uma curta jornada de dez minutos, mas que a conduzia a um universo inteiro. Lá, entre estantes imponentes e o cheiro reconfortante de papel antigo, Matilda passava duas horas sagradas em silêncio, encolhida em um canto sossegado, lendo sem parar, como se cada página fosse um degrau em direção à liberdade. Em pouco tempo, esgotou os livros infantis disponíveis e começou a se aventurar por prateleiras mais densas, atraída pelo mistério das palavras maiores e das ideias mais vastas. Foi nesse santuário de papel e silêncio que conheceu a adorável Sra. Felps, a bibliotecária gentil que, espantada com a mente vibrante daquela garotinha, a acolheu como se fosse um raro tesouro. Foi ela quem apresentou Matilda a Charles Dickens, por meio do romance Grandes Esperanças — a porta de entrada para uma jornada literária extraordinária. A partir de então, aos cinco anos, Matilda já se perdia com prazer entre as páginas de Jane Austen, Ernest Hemingway, John Steinbeck e Herman Melville, com uma maturidade impressionante até para muitos adultos. Porém, todo esse fulgor intelectual florescia num terreno árido: sua própria casa. O lar dos Losna era um espaço estéril, sufocante, incapaz de nutrir a mente brilhante de Matilda. O Sr. Losna, um vendedor de carros usados desonesto, e a Sra. Losna, uma mulher fútil e autocentrada, obcecada por novelas e aparências, eram caricaturas grotescas da ignorância altiva. Desprezavam livros, zombavam do saber e desejavam que a filha se conformasse, que fosse apenas mais uma criança diante da televisão. Não apenas a ignoravam — viam-na como um erro, uma aberração a ser corrigida, uma ameaça à mediocridade que prezavam. A indiferença deles não era apenas desinteresse: era crueldade disfarçada de autoridade. E é justamente aí que Roald Dahl revela sua maestria narrativa. Com uma prosa sarcástica e implacável, o autor desenha figuras adultas propositalmente ridículas, quase monstruosas, como se quisesse sussurrar ao ouvido dos pequenos leitores que nem sempre os adultos estão certos — e que, às vezes, é preciso resistir ao mundo com a força silenciosa e indomável da inteligência. Matilda começou a frequentar a escola mais tarde do que o habitual. Enquanto a maioria das crianças ingressava no ensino básico aos cinco anos — algumas até antes — seus pais, invariavelmente alheios às necessidades intelectuais da filha, ignoraram por completo o período de matrícula. Esse descaso não foi um caso isolado, mas apenas mais um episódio de uma negligência sistemática e cruel. Assim, foi apenas aos cinco anos e meio que Matilda, com sua curiosidade ardente e inteligência muito além da média, atravessou os portões de sua primeira escola. A instituição, chamada Escola Primária Crunchem Hall, era um edifício austero de tijolos expostos, sombrio e imponente, cuja própria arquitetura parecia antecipar o clima opressivo que reinava entre seus corredores. Com cerca de duzentos e cinquenta alunos, de idades entre cinco e doze anos, a escola era comandada com mão de ferro por sua diretora: a infame Sra. Agatha Taurino. Alta, corpulenta e de postura militar, a Sra. Taurino — mais conhecida como Trunchbull nas adaptações cinematográficas — era mais temida do que respeitada. Seu método educacional baseava-se no medo, no grito e na coerção física e psicológica. Ela tratava a escola como um quartel e os alunos como recrutas em potencial. Seu comportamento extremado a tornava quase uma caricatura da autoridade desmedida, beirando o absurdo, como se tivesse saído de uma fábula sombria. Foi nesse ambiente desolador que Matilda conheceu duas figuras centrais em sua jornada de crescimento e resistência: a amável Srta. Jennifer Mel — eternizada nas telas como Srta. Honey — sua jovem professora, e a própria diretora Taurino. Essas duas mulheres, opostas em caráter e conduta, formam os polos simbólicos de um dos eixos temáticos mais fortes da narrativa: a natureza do poder e da autoridade. Roald Dahl articula entre elas um contraste evidente e intencional. Srta. Mel é a encarnação da empatia, do cuidado pedagógico e da fé inabalável no potencial transformador da infância. Ela ensina com delicadeza, escuta com atenção, e cultiva com paciência, como quem entende que a mente infantil é um jardim em desenvolvimento. Em contrapartida, a Sra. Taurino encarna o lado mais obscuro da autoridade: a dominação, o autoritarismo e o abuso travestido de disciplina. Sua presença é opressiva, seus métodos beiram o sadismo, e sua visão de educação reduz as crianças a corpos a serem dobrados pela força. Dahl, com sua costumeira ironia mordaz, não a suaviza — ao contrário, a transforma numa alegoria grotesca da autoridade desumanizada, exagerando seus traços até o limite da farsa. Srta. Mel torna-se, após a Sra. Felps — a adorável bibliotecária que acolhera Matilda em sua sede por conhecimento —, a segunda adulta a reconhecer o brilho intelectual da menina. Mas é a primeira a agir com verdadeiro zelo, buscando protegê-la não apenas da ignorância da família, mas do ambiente corrosivo da escola. A delicada aliança entre Matilda e Srta. Mel é um contraponto de ternura e solidariedade em meio ao caos, uma fagulha de esperança em um mundo dominado pela injustiça. A dinâmica entre essas três personagens femininas — Matilda, Honey e Trunchbull — não apenas movimenta a trama, mas simboliza um embate mais profundo: a luta entre luz e trevas, conhecimento e repressão, sensibilidade e crueldade. Em Dahl, a infância jamais é passiva — ela é potência em estado bruto. E Matilda, ainda tão pequena, já representa o triunfo da inteligência crítica sobre os grilhões do autoritarismo. Ainda guardo na memória — embora de forma esparsa e nebulosa — a figura da bibliotecária da biblioteca que frequentei diariamente durante minha infância. Sua imagem me vem como uma fotografia antiga, desbotada nas bordas pelo tempo. Não me lembro de seu nome, nem do timbre exato de sua voz, tampouco das conversas triviais que certamente partilhamos ao longo de tantos dias. Mas há uma lembrança que permanece vívida, como se gravada com tinta indelével na superfície da minha memória. Eu tinha entre cinco e seis anos quando ouvi, pela primeira vez, palavras impregnadas de racismo. Recordo-me do espanto: arregalei os olhos — não por completo entendimento, mas por uma repulsa instintiva, visceral, como quem sabe, mesmo sem os nomes certos, que algo ali estava profundamente errado. Confusa e inquieta por aquela experiência que rompia com o meu mundo de histórias e encantamentos, busquei refúgio onde sempre encontrava abrigo: na biblioteca. Aquele espaço era meu santuário silencioso, feito de estantes altas e promessas de outros mundos. Caminhei até a bibliotecária e contei-lhe o que havia acontecido, sem rodeios. Perguntei com a seriedade inocente das crianças: “Tem algum livro falando sobre isso?” Ela me olhou longamente, surpresa — não com censura, mas com um leve espanto carregado de hesitação. Seus olhos se arregalaram não por reprovação, mas talvez por não saber exatamente como responder a uma pergunta tão densa vinda de alguém tão pequeno. Naquele dia, não houve uma resposta pronta — houve uma conversa. Não me recordo das palavras exatas que trocamos, mas ficou impressa em mim a sensação de ter sido acolhida. Pela primeira vez, alguém escutava sinceramente a minha indignação silenciosa, ainda sem nome, e a reconhecia como legítima. Ao longo da trama, Matilda descobre que possui habilidades telecinéticas — a extraordinária capacidade de mover objetos com a mente. Embora essa habilidade se insira de maneira natural no universo narrativo, ela transcende o simples elemento fantástico, simbolizando o poder latente da criança oprimida. Essa descoberta revela a possibilidade de resistência, mesmo diante das estruturas mais cruéis e desumanas. A telecinese de Matilda surge, assim, como uma metáfora para o imenso potencial da mente infantil — uma força silenciosa que, quando negligenciada ou subjugada, encontra maneiras próprias de florescer e se manifestar. Esta leitura ganha ainda mais profundidade na resolução da história: Matilda perde seus poderes quando começa a ser desafiada intelectualmente, como se sua mente, antes forçada a criar “fugas” da realidade opressora, finalmente encontrasse o espaço necessário para ser nutrida e reconhecida em toda a sua complexidade. Matilda não é apenas uma obra sobre uma menina com dons extraordinários. Ela é, acima de tudo, uma história de sobrevivência emocional — sobre como, mesmo na ausência de apoio, estímulo ou amor, é possível, ainda que com grande esforço e coragem, florescer. A história de Matilda se transforma em um grito potente e necessário contra a mediocridade que oprime, contra a ignorância que se impõe como norma e contra o apagamento cruel das crianças brilhantes que, por não se encaixarem no molde imposto pela sociedade, são muitas vezes completamente desvalorizadas. Sempre fui apaixonada por ler — assim como pelo ato de estudar. Desde muito cedo, fui impulsionada por uma curiosidade quase voraz, algo que me lembrava a busca incansável de Matilda por conhecimento. Queria entender o porquê das coisas, suas causas e consequências, os ecos que deixavam no mundo. Essa necessidade de compreender foi uma constante na minha vida, uma chama persistente que me acompanhou ao longo dos anos. No entanto, curiosamente, isso nunca fez com que eu gostasse da escola. Pelo contrário, eu detestava aquele ambiente. Sentia-me sufocada, como se estivesse aprisionada entre paredes que mais restringiam do que libertavam. A escola, em sua essência, me entediava profundamente. Minha mente, ávida e inquieta, parecia estar sempre faminta por algo mais substancial. Muitas vezes, os professores ensinavam o que eu já sabia — conhecimentos que eu havia descoberto sozinha, movida por essa sede insaciável de saber. Isso acontecia com uma frequência que me deixava profundamente frustrada. Estudava por prazer, sem um objetivo claro ou específico, apenas imersa em idiomas — inglês, espanhol, francês, italiano — ou em qualquer disciplina que despertasse minha curiosidade. O tema pouco importava; o que me atraía era a promessa de mais conhecimento. Era uma sede infinita, um desejo quase obsessivo de entender o mundo com precisão, método e profundidade. O ritmo da escola, no entanto, sempre me frustrava. Ele estava muito aquém da aceleração da minha mente. Ao invés de me impulsionar, o conteúdo parecia me restringir, como uma corrente invisível que segurava meu pensamento, que queria voar mais alto, mais longe. A escola se tornava uma gaiola, e meu pensamento, um pássaro inquieto, batendo contra as grades invisíveis dos livros didáticos e da rotina monótona. Era um ciclo cansativo e repetitivo: textos superficiais, explicações rasas, um saber que nunca parecia me alcançar da maneira como eu sentia que deveria. Eu queria mais. Queria ir além. Muitas vezes, a escola revisava conteúdos que eu já dominava, e me perguntava: era assim que deveria ser? Para mim, aquelas paredes estavam cercadas por grades, e minha imaginação, livre por natureza, jamais reconheceu esses limites. Eu queria ser ouvida. Queria que alguém me visse — como viram a pequena Matilda. Ela foi percebida, mesmo que apenas por uma ou duas pessoas. Eu, no entanto, nunca fui. Nem quando era pequena demais para compreender a mim mesma, nem quando minhas mãos mal podiam segurar um copo com firmeza. Não houve ouvidos atentos, nem olhos verdadeiramente abertos. Ao longo do tempo, esse incômodo — embora eu não soubesse como chamá-lo, nem de onde vinha — foi sendo enterrado dentro de mim, trancado a sete chaves. Só agora, mais madura, tento abrir esses cadeados com cautela, buscando entender quem realmente sou. Apenas o início. A escrita de Roald Dahl é, sem dúvida, envolvente, espirituosa e, ao mesmo tempo, implacável naquilo que precisa ser criticado. Ele não tenta suavizar as duras verdades que as crianças já sabem desde cedo: que muitos adultos são injustos, que o mundo pode ser cruel e que, muitas vezes, ser inteligente e sensível não é visto como algo bem-vindo. No entanto, com a mesma intensidade, Dahl também nos mostra que há uma beleza profunda no afeto genuíno, que o conhecimento é uma chave poderosa para a liberdade, e que crianças como Matilda — e como tantas de nós — têm o direito de existir em sua plenitude, sem serem diminuídas ou silenciadas. Matilda é, antes de tudo, uma celebração da leitura, da inteligência precoce e do poder imenso da imaginação — mas também é um manifesto silencioso, porém firme, em defesa das crianças extraordinárias que, mesmo diante das adversidades, encontram forças para resistir. Talvez seja por isso que tantas pessoas se emocionam ao recordar essa pequena menina de tranças escuras e olhos brilhantes, atentos ao mundo que a rodeia. Porque, em algum lugar dentro de nós, ainda vive uma Matilda, com sua busca incessante por algo além do que lhe é imposto. E essa Matilda continua a buscar, incansavelmente, nos livros e nas palavras, a força necessária para se afirmar e existir. Existem muitas pequenas Matildas — agora crescidas, mas ainda com aquele espírito indomável — espalhadas por este vasto mundo, e eu sou uma delas. Que livro maravilhoso, tão encantador quanto o meu querido e amado filme. Estou completamente apaixonada por essa obra, que toca o coração de maneira única e inesquecível! Favoritado com todas as estrelinhas possíveis! Recomendo-o com uma paixão que transborda, com a certeza de que ele vai conquistar todos que se permitirem embarcar nessa leitura. “Já é ruim quando os pais tratam crianças comuns como se fossem cascas de ferida ou joanetes, mas é muito pior quando a criança em questão é incomum, ou seja, sensível e inteligente. Matilda era as duas coisas, principalmente inteligente. Tinha a mente tão ágil e aprendia tudo tão depressa, que mesmo os pais mais medíocres teriam percebido sua capacidade. Mas o sr. e a sra. Losna, muito obtusos e fechados em suas vidinhas estúpidas, não notavam nada de extraordinário a respeito da filha. Para dizer a verdade, se ela entrasse em casa se arrastando, com uma perna quebrada, acho que nem assim eles notariam.”

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