O Dono do Morro - Um homem e a batalha pelo Rio

    Misha Glenny

    Companhia das Letras
    2016
    292 páginas
    9h 44m
    ISBN-10: B01H0LV154
    Português Brasileiro

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    Rodrigo29/11/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Sobre como surgiu o Estado Paralelo

    O Dono do Morro é uma ótima biografia do traficante conhecido como Nem da Rocinha, antes um cidadão comum e pai de família, até que, nos anos 2000, por força de circunstâncias difíceis, acaba entrando para o crime na mais famosa favela carioca. Como pano de fundo, temos o recente e trágico histórico político e social do Rio de Janeiro. 3 fatores fizeram Nem ascender até o cargo de chefe: a sabedoria para manter a paz no morro, num ambiente estável para o tráfico, o carisma dispensado às pessoas da comunidade e a perspicácia de não se expôr em redes sociais, virando um anônimo digital, e assim evitando inveja alheia e operações policiais. Nesse cenário, o leitor também se depara com a história do surgimento das grandes organizações criminosas no Brasil, a partir do encontro de traficantes comuns com gente da esquerda presa no presídio da Ilha Grande/RJ, durante o regime militar, dando origem ao Comando Vermelho, e, posteriormente, ao PCC. Ao longo do livro, percebe-se uma leve tendência de se retratar traficantes como "Robin Hoods", a polícia genericamente corrupta e o Estado (ou a falta dele) como o culpado de tudo, o que, em se tratando de Rio de Janeiro, fica difícil discordar.  Por isso, há de se ter sempre em mente que bandido é bandido, pra início de conversa. O texto em si é muito fluido, e algumas partes são sufocantes, no estilo "Tropa de Elite", como quando ocorrem invasões do morro por facções rivais, e sim, o BOPE faz algumas participações especiais na matança. As primeiras vítimas são sempre pessoas comuns que nada tinham a ver com a guerra, apenas estavam passando no lugar errado, durante o fogo cruzado. A dualidade entre o traficante amado na comunidade, que realiza ações sociais e até circula livremente em festas de famosos como Gilberto Gil e Ivete Sangalo, e, ao mesmo tempo, comete estupros e execuções por motivos banais, ilustra bem o "Estado Paralelo" imposto pelos imperadores do tráfico, à luz do dia. Em suma, um livraço carregado de tensão, que mergulha fundo no abismo social das favelas pra mostrar que, na guerra entre polícia e traficante, dos chefões aos vassalos, os muitos inocentes não estão protegidos no Leblon. Cariocas entenderão.

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