Xigubo foi a primeira obra de Craveirinha a deixar de ser ideia e se materializar em tinta e papel, no ano de 1964. E que obra. Sua poesia é a ngoma que Grita!!! / Grita!!! (20-21); é o som do xipalapala que chama seus iguais e rasga o silêncio da terra (32) e com seu berro, une os povos negros sob a bandeira da África livre - sem machucar suas alteridades: juntemo-nos ao xigubo. Suas vozes e gritos são muitos, e cada um deles tem seu mérito e significado. A obra é formada por vinte e um poemas, respeitadas suas singularidades creio que partilham de características comuns, todas elas diretamente relacionadas ao cotidiano de Craveirinha e da Moçambique de seu tempo.
As línguas de seus poemas são pistas notórias de suas escritas e seus propósitos: embora seja escrita majoritariamente em português - a língua de seus (nossos) colonizadores - os neologismos abundam, assim como termos em bantu - falado em grande parte da região Africana subsaariana - e XiRonga - língua principal da cidade que ocupa um local tão central em seus escritos: Maputo. Craveirinha, diría Cristina Pero Rossi em Condicíon de Mujer Hablo la lengua de los conquistadores/pero digo lo opuesto de lo que ellos dicen.
Esta escolha linguística me parece ser, por um lado, a demonstração clara de alguém que, embora lute com pena e azagaia, compreende que a colonização faz parte de sua (nossa) história e assim deve ser tratada, o apagamento não favorece a memória, apenas a alija. Por outro lado, atesta e anuncia: minhas raízes vivem e progridem, minhas tradições não foram extintas e aqui outra vez os homens desta terra / dançam as danças do tempo da guerra / das velhas tribos juntas na margem do rio (36-39). Também há de se considerar: a obra foi publicada em 1964, em Lisboa, graças à vitória do concurso na Casa dos Estudantes do Império - famosa pela resistência ao regime Salazarista e a sua parte na luta anticolonial, sendo a publicação o prêmio concedido ao vencedor.
Os posicionamentos do autor sobre o tema da diáspora e do colonialismo merecem menção especial: poemas como Ode a uma carga perdida num barco incendiado chamado saga, Mamanô, Cântico a um Deus de Alcatrão ou Gado Mamparra-Magaíza, por exemplo, denunciam a chaga - que ainda sangra - da escravidão e a forma como tentaram reduzir a não-humanos seus conterrâneos da grande África durante cerca de 400 anos, as imagens e palavras são cruas, duras, sem romantização:
Mas não desesperem mães / não fiquem tristes pais e amigos e irmãos / não molhem de lágrimas de adeus os lenços brancos / noivas idílicas e entristecidas irmãs. / O barco estava no seguro / e segurada só não estava a carga perdida (CRAVEIRINHA, 1964, p.32, 12-17).
As críticas não passam somente pela diáspora, mas circulam por temas como a fome em ambientes onde a comida abunda - com em Afinal
a bala do homem mau - ou pelo assassinato através do banzo e pelas transformações nos modos de vida - como em Elegia à minha avó Fanisse - e a própria morte em vida, ao alijar do indivíduo tudo aquilo que lhe conecta a realidade - como em Mamanô.
Mas nem só de denúncias é composta a obra, têm-se também um forte movimento de valorização da Negritude, compreendido, como uma luta contra tal colonialismo que não rouba apenas capital em forma de trabalho, ouro ou produção, mas também esperança e orgulho, através da imposição de uma estética branca, capitalista, masculina e masculinista - movimento consoante a diversos outros que surgiram no período, como por exemplo o movimento dos direitos civis nos estados unidos, liderado por Martin Luther King ou o liderado por Kwame Nkrumah para a independência de Gana.
De mãos dadas ao movimento de valorização da estética e do ser negro, há um movimento de criação e consolidação do Pan-Africanismo como oposição ao Ocidental, novamente em acordo com Krumah. Poemas como Mãe-África, Xigubo e Mãe África são exemplos. Vejo claros paralelos com o Orientalismo de Said: a África - negra, servil, colonial, subdesenvolvida - vs o Ocidente - branco, líder, desenvolvido que leva suas bênçãos a povos que nunca as atingiriam sozinhos. O mito dessa Africanidade inferior como modo de sustentação do próprio modo de vida, condição necessária - não só do ponto de vista econômica e a manutenção do sistema escravocrata - mas também do ponto de vista moral-existencial: existimos somente em oposição a outros - ilustrado também por Lévi-Strauss em O cru e o cozido.
Por fim, trago dois temas que se inter relacionam e me parecem fundamentais para a obra: a tradição oral e o banzo.
A tradição oral africana está, frequentemente, associada ao tambor e a antifonia; gerando uma história que é narrada por muitos e não por um, construção coletiva antes que expressão individual. Já o banzo pode ser compreendido como um estado de espírito pensativo, rememorante; alguém que se recorda de algo com saudosismo e canta as glórias do passado com o olho no futuro, já que estas histórias, embora sejam tematizadas no passado e no presente, dizem respeito ao futuro que Craveirinha vê para seu povo e sua terra.