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    Xigubo -

    José Craveirinha

    Alcance Editores
    2008
    64 páginas
    2h 8m
    ISBN-13: 9789928791016
    Português
    3.9
    22 avaliações
    Leram41Lendo27Querem106Relendo1Abandonos0Resenhas4
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    O livro de poesia do mesmo escritor de "Karingana ua karingana", o jornalista José Craveirinha já trabalhou nos jornais "Brado Africano", "Notícias", "A Tribuna", "Notícias da Beira", "O Jornal" e "Voz de Moçambique". Ganhador de diversos prêmios como a "Medalha de ouro de Brescia", na Itália e "Premio Cidade de Lourenço Marques", em Moçambique. Foi preso pela PIDE por causa das suas actividades políticas.

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    André Siqueira picture
    André Siqueira15/01/2022Resenhou um livro
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    Xigubo foi a primeira obra de Craveirinha a deixar de ser ideia e se materializar em tinta e papel, no ano de 1964. E que obra. Sua poesia é a n’goma que “Grita!!! / Grita!!!” (20-21); é o som do xipalapala que chama seus iguais e “rasga o silêncio da terra” (32) e com seu berro, une os povos negros sob a bandeira da África livre - sem machucar suas alteridades: juntemo-nos ao xigubo. Suas vozes e gritos são muitos, e cada um deles tem seu mérito e significado. A obra é formada por vinte e um poemas, respeitadas suas singularidades creio que partilham de características comuns, todas elas diretamente relacionadas ao cotidiano de Craveirinha e da Moçambique de seu tempo. As línguas de seus poemas são pistas notórias de suas escritas e seus propósitos: embora seja escrita majoritariamente em português - a língua de seus (nossos) colonizadores - os neologismos abundam, assim como termos em bantu - falado em grande parte da região Africana subsaariana - e XiRonga - língua principal da cidade que ocupa um local tão central em seus escritos: Maputo. Craveirinha, diría Cristina Pero Rossi em “Condicíon de Mujer” “Hablo la lengua de los conquistadores/pero digo lo opuesto de lo que ellos dicen”. Esta escolha linguística me parece ser, por um lado, a demonstração clara de alguém que, embora lute com pena e azagaia, compreende que a colonização faz parte de sua (nossa) história e assim deve ser tratada, o apagamento não favorece a memória, apenas a alija. Por outro lado, atesta e anuncia: minhas raízes vivem e progridem, minhas tradições não foram extintas e “aqui outra vez os homens desta terra / dançam as danças do tempo da guerra / das velhas tribos juntas na margem do rio” (36-39). Também há de se considerar: a obra foi publicada em 1964, em Lisboa, graças à vitória do concurso na Casa dos Estudantes do Império - famosa pela resistência ao regime Salazarista e a sua parte na luta anticolonial, sendo a publicação o prêmio concedido ao vencedor. Os posicionamentos do autor sobre o tema da diáspora e do colonialismo merecem menção especial: poemas como “Ode a uma carga perdida num barco incendiado chamado saga”, “Mamanô”, “Cântico a um Deus de Alcatrão” ou “Gado Mamparra-Magaíza”, por exemplo, denunciam a chaga - que ainda sangra - da escravidão e a forma como tentaram reduzir a não-humanos seus conterrâneos da grande África durante cerca de 400 anos, as imagens e palavras são cruas, duras, sem romantização: “Mas não desesperem mães / não fiquem tristes pais e amigos e irmãos / não molhem de lágrimas de adeus os lenços brancos / noivas idílicas e entristecidas irmãs. / O barco estava no seguro / e segurada só não estava a carga perdida” (CRAVEIRINHA, 1964, p.32, 12-17). As críticas não passam somente pela diáspora, mas circulam por temas como a fome em ambientes onde a comida abunda - com em “Afinal … a bala do homem mau” - ou pelo assassinato através do banzo e pelas transformações nos modos de vida - como em “Elegia à minha avó Fanisse” - e a própria morte em vida, ao alijar do indivíduo tudo aquilo que lhe conecta a realidade - como em “Mamanô”. Mas nem só de denúncias é composta a obra, têm-se também um forte movimento de valorização da Negritude, compreendido, como uma luta contra tal colonialismo que não rouba apenas capital em forma de trabalho, ouro ou produção, mas também esperança e orgulho, através da imposição de uma estética branca, capitalista, masculina e masculinista - movimento consoante a diversos outros que surgiram no período, como por exemplo o movimento dos direitos civis nos estados unidos, liderado por Martin Luther King ou o liderado por Kwame Nkrumah para a independência de Gana. De mãos dadas ao movimento de valorização da estética e do ser negro, há um movimento de criação e consolidação do Pan-Africanismo como oposição ao Ocidental, novamente em acordo com Krumah. Poemas como “Mãe-África”, “Xigubo” e “Mãe África” são exemplos. Vejo claros paralelos com o “Orientalismo” de Said: a África - negra, servil, colonial, subdesenvolvida - vs o Ocidente - branco, líder, desenvolvido que leva suas bênçãos a povos que nunca as atingiriam sozinhos. O mito dessa Africanidade inferior como modo de sustentação do próprio modo de vida, condição necessária - não só do ponto de vista econômica e a manutenção do sistema escravocrata - mas também do ponto de vista moral-existencial: existimos somente em oposição a outros - ilustrado também por Lévi-Strauss em O cru e o cozido. Por fim, trago dois temas que se inter relacionam e me parecem fundamentais para a obra: a tradição oral e o banzo. A tradição oral africana está, frequentemente, associada ao tambor e a antifonia; gerando uma história que é narrada por muitos e não por um, construção coletiva antes que expressão individual. Já o banzo pode ser compreendido como um estado de espírito pensativo, rememorante; alguém que se recorda de algo com saudosismo e canta as glórias do passado com o olho no futuro, já que estas histórias, embora sejam tematizadas no passado e no presente, dizem respeito ao futuro que Craveirinha vê para seu povo e sua terra.

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