Primeiro, uma nota: essas edições da Folio – coleção de livros de bolso da Gallimard – são um primor. Comprei pelo menos uns quatro livros da Folio na FLIP de 2022 para aproveitar a oportunidade de comprar edições em francês por um preço ok; três desses livros foram da Ernaux (‘La Place’, ‘Les Annés’ e ‘Se Perdre’).
Aliás, fun fact: A Annie Ernaux tinha acabado de ganhar o Nobel de Literatura e era a autora homenageada da FLIP daquele ano; estava lá, portanto. O ‘fun fact’, no caso, é que eu quase tive esses meus livros autografados pela recém laureada com o Nobel de Literatura de 2022. Isso, claro, se não fosse a sessão de autógrafos terminar quando faltava, sei lá, cinco pessoas na minha frente de uma fila em que eu já devia estar há pelo menos meia hora. Seja como for, eu tenho algumas boas fotos dela levantando da mesa de autógrafos, se isso vale de algo.
Toda essa introdução relativamente inútil para dizer que, depois de ler isso aqui, eu muito provavelmente teria ficado muito irritada comigo mesma se não tivesse encarado aquela fila – mesmo sem ter dado em nada. Isso aqui definitivamente entrou na minha prateleira de favoritos da vida porque conversa tão diretamente comigo que, por vezes, fiquei genuinamente assustada. Afinal, Annie Ernaux está escrevendo rigorosamente sobre a vida DELA aqui – esse é o livro que dá o tom do seu projeto literário pessoal que se seguirá em seus livros seguintes.
Aos incautos, pode-se dizer que, com sua obra, Ernaux basicamente revolucionou o gênero da autoficção ou mesmo que fundou um novo gênero: a auto-sócio-biografia. Desse modo, ela sempre começa a partir de questões cotidianas profundamente pessoais para explorar as relações familiares e de classe mais globais, fundindo a sua história pessoal com a história dessa França do século XX e a própria sociologia, num sentido mais amplo. Neste livro, em particular, ela enfoca a relação que tinha com seu pai.
Apesar de parecer um intento pretensioso – e talvez até ser –, ela o faz com maestria. Sua escrita é impressionante – por isso, inclusive, sou grata por ter lido diretamente em francês; a sua narrativa se assemelha a um diário em forma de romance, ao mesmo tempo em que oferece panoramas que abordam questões mais complexas relacionadas à nossa consciência de classe e ao nosso senso de pertencimento a determinados contextos e espaços. Apesar disso, é como eu disse: mesmo que não se fosse sabido que esse é um relato pessoal, o livro se sustenta com seus próprios pés enquanto um romance.
Acredito que esse livro dialoga tão pessoalmente comigo porque aborda como o acesso à instrução vai distinguindo a sua experimentação do mundo da experimentação dos seus pais – especialmente do seu pai. E se por um lado isso lhe proporciona acesso a contextos sociais diferentes de sua origem – esses espaços, lugares, ‘les places’ –, por outro demarca um afastamento de sua família, que é pertencente a uma geração e uma classe que não reconhece atividades intelectuais como formas de trabalho próprias de 'gente como eles'. Então, é esse sentimento ‘d'être déplacé’.
Por fim, falando de um ponto de vista extremamente pessoal agora: sendo a primeira pessoa do meu núcleo familiar a alcançar o ensino superior, esse livro meio que me oportuniza expressar a experiência um tanto quanto inefável que é a de se esforçar para justapor essas duas realidades. Atividade que, no final das contas, acaba resultando em um empenho hercúleo de reconciliação de diferentes pedaços do quebra-cabeça que eu sou no mundo. Em linhas gerais, é como tentar emendar quem eu era com quem eu me tornei de uma maneira que não seja necessário renunciar tudo o que foi conquistado para entender esse dito 'lugar' do outro. Et enfin, comprendre cette place qui est à moi.