Riacho Doce -

    José Lins do Rego

    Global Editora
    2021
    320 páginas
    10h 40m
    ISBN-10: 6556121835
    Português Brasileiro

    À época da publicação deste livro em 1939, José Lins do Rego já era conhecido como ficcionista brasileiro que concedera grande realce aos traços regionais de nossa cultura, assim como Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos. Em Riacho Doce, o escritor acabaria, de peito aberto, consolidando novos contornos à sua magnífica trajetória literária. O livro inicia-se com as passagens da infância e da adolescência de Edna, na Suécia. Num segundo momento, o qual ocupa a maior parte do romance, Edna muda-se para o Brasil para acompanhar o marido Carlos, que fora transferido para o litoral de Alagoas a fim de trabalhar na exploração de petróleo. No ambiente paradisíaco de Riacho Doce, Edna aproveita os banhos de mar e o encantador cenário repleto de belezas naturais da região. Sua estada no litoral nordestino e sua vida seriam radicalmente transformadas após conhecer Nô, pescador do lugarejo com quem acaba se envolvendo amorosamente de maneira natural e intensa. É importante registrar que este enredo de José Lins de Rego, marcado por uma atmosfera de romance que tem como pano de fundo belíssimas paisagens tropicais, chegou a inspirar em 1990 uma célebre minissérie na Rede Globo. Tendo no elenco nomes de peso como Vera Fischer e Carlos Alberto Riccelli, RiachoDoce gravaria seu lugar na memória audiovisual de milhões de brasileiros. A edição da Global, que tem capa ilustrada por Mauricio Negro, conta um texto de apresentação de Ivan Marques, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP). Ao fim, a edição traz um texto de Mário de Andrade sobre o livro de José Lins, publicado no ano do lançamento de sua primeira edição.

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    Maria Luíza de Araújo picture
    Maria Luíza de Araújo30/01/2010Resenhou um livro
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    O romance é dividido em três partes: Ester, Riacho Doce e Nô - Ester: A infância da protagonista Edna/Eduarda, com 10 anos, onde vive com um casal de irmãos e seus pais e avó paterna, num vilarejo rural da Suécia. Edna é a caçula dos irmãos, tem a função na casa de cuidar dos porcos. Sua vida muda com a chegada da doce e meiga professora Ester, que substitui a anterior, rigorosa com todos. Ester se apega à pequena Edna, e lhe dá aulas extra-classe de música e piano. Edna nutre um sentimento único e possessivo por Ester, denotando traços homoeróticos, bem evidenciados quando do encontro de Ester com um músico num concerto deste. Edna desenvolve uma dependência emocional por Ester a ponto de tentar o suicídio, o qual leva cinco anos para se recuperar completamente. E na tentativa de se afastar da vida e família humildes, casa-se com o engenheiro Carlos, um menino do mesmo local mas criado fora, mesmo sem amá-lo. Carlos é contratado para explorar petróleo numa pacata região do nordeste brasileiro e o casal viaja para o Brasil. - Riacho Doce: O casal de suecos aporta em Riacho Doce, pequena vila de pescadores de Maceió, e Edna se encanta com o local, e busca interagir com os moradores e cultura locais. O tempo vai passando e o casamento oportunista começa a se esfacelar e Edna passa a trocar a companhia do marido por longas caminhadas na areia e banhos infindáveis no mar. Num dos eventos locais, Edna conhece o mestiço Nô, morador local mas embarcadiço em navio cargueiro, em passagem por Riacho Doce, neto da grande matriarca da vila, a velha Aninha, mistura de benzedeira, curandeira e bruxa. - Nô: Edna se encanta com o mulato e se entrega à paixão avassaladora. Nô também se sente envolvido com a “galega”, mas sua avó usa de seus poderes místicos-religiosos para afastar o casal, pois Aninha considera Edna arma do diabo para seduzir o neto favorito. O rapaz, assustado com as palavras proferidas pela avó, que o amaldiçoa por se unir ao demônio louro, se afasta de Edna. O autor nesta obra não só denuncia o preconceito sócio-racial, a exploração da barata mão de obra nordestina pelos estrangeiros e à modernização desenfreada e destruidora de uma cultura, mas nos brinda com outras incursões: - A força da mulher na trama é definida pelas matriarcas Elba e Aninha, avós paternas de Edna e Nô, respectivamente. Ambas centralizadoras, temidas, detentoras do poder no clã. As noras são subservientes e silenciosas, sofridas e agastadas pela dura vida que levam. Os homens, à exceção de Nô antes do “ataque” na praia após romper com Edna, são submissos às mães, inexpressivos e fracassados. - A religião e preconceito a esta é bem delineada nos três momentos do livro: a família de Edna é Protestante, a de Carlos, Católica e Ester, Judaica. Na Suécia, a família de Edna é “cuidada” por um pastor severo, e no lado brasileiro, a religião é liderada e conduzida pela velha e intimidadora Aninha, uma junção do catolicismo fervoroso com a feitiçaria e curandeirismo mesclados com um fanatismo ignorante e patético dos moradores locais. - Tanto a família de Carlos como a de Edna são contrárias ao casamento dos filhos por questões evidentemente religiosas. A expulsão de Ester da escola por suposta interferência negativa para Edna e as crianças do local mascara, na verdade, a ascendência judaica da jovem professora. E o que mais impressiona em todo o romance, é a figura de um Deus sempre punitivo, enraivecido,que só faz castigar e atemorizar, remetendo à desgraça os seus fiéis seguidores! E o riacho, que dá nome ao local, carrega o infortúnio, doença e morte em seu leito, desaguando num mar fértil, salvador e provedor das famílias que dele tiram sua sub-vivência.

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