Na obra de Mónica Ojeda, os fluidos funcionam como disparadores e construtores de todas as histórias. Da mesma forma acontece em História do leite: o leite materno é o ponto de partida da vida e da morte, é o condutor de toda uma história organizada em partes que funcionam, ao mesmo tempo, como unidades autônomas. Buscando ressignificar o relato bíblico do fratricídio de Caim e Abel, a poeta equatoriana escreve em chave feminina o que ela considera um dos momentos fundantes de nossa sociedade: o crime. A violência transfigura-se em beleza para dar lugar àquilo que mais importa: a criação. A capacidade de criar torna-se um dos pontos essenciais de todo o livro, exaltando os vícios, as dores e as perversidades mais humanas, mas não só isso: há ali um gesto de profunda rebeldia frente às convenções da linguagem. Destruir para criar. “A poesia será o aprendizado da morte”, antecipa Mónica, porque “o sangue sabe a linguagem” e questiona, provoca e cutuca: “chorarei de beleza?” * Abre os olhos e olha tudo o que cresce na morte de Mabel: sob suas unhas lutam rinocerontes machos que rasgam os tecidos de meu coração Levo suas unhas nas minhas orelhas como caracóis e escuto o mar queimando em negrume a lubricidade dos morcegos Olha tudo o que cresce em seu silêncio perfeito: miragens na dança dos areópagos Somente renasce o que começa a morrer A destruição é criação


