My Tender Matador -

    Pedro Lemebel

    Grove Press
    2005
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-13: 9780802141873

    Centered around the 1986 attempt on the life of Augusto Pinochet, an event that changed Chile forever, My Tender Matador is one of the most explosive, controversial, and popular novels to have been published in that country in decades. It is spring 1986 in the city of Santiago, and Augusto Pinochet is losing his grip on power. In one of the city's many poor neighborhoods works the Queen of the Corner, a hopeless and lonely romantic who embroiders linens for the wealthy and listens to boleros to drown out the gunshots and rioting in the streets. Along comes Carlos, a young, handsome man who befriends the aging homosexual and uses his house to store mysterious boxes and hold clandestine meetings. My Tender Matador is an extraordinary novel of revolution and forbidden love, and a stirring portrait of Chile at an historical crossroads. By turns funny and profoundly moving, Pedro Lemebel's lyrical prose offers an intimate window into the mind of Pinochet himself as the world of Carlos and the Queen prepares to collide with the dictator's own in a fantastic and unexpected way.

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    mpettrus12/09/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um Rebelde Romance Queer na Ditadura de Pinochet

    “Me enamoré de ti como una perra, y tú solamente te dejaste querer” ​ Eu quase não tenho palavras para descrever esse romance de Pedro Lemebel, lindamente lírico e enormemente agridoce. Alguns dos romances queer mais amados que li recentemente foram da América Latina – a exemplo do emblemático “O Parque das Irmãs Magníficas” de Camila Sosa Villada. Deixe-me lhes dizer que sempre tive muita curiosidade de ler essa obra-prima novelesca de Lemebel, que conta-nos uma história que acontece na Santiago do Chile dos anos oitenta, em plena ditadura de Pinochet. Infelizmente, INFELIZMENTE MESMO, essa obra não possui tradução no nosso digníssimo idioma Português – Brasil. A curiosidade foi tanta para navegar na jornada literária desse romance, que eu o li no idioma-mãe do autor. Perdi alguns dos muitos detalhes da narrativa do autor por não dominar o seu idioma? Sim, perdi. ​A minha maior dificuldade perpassou na transição da narrativa em terceira pessoa para a primeira pessoa, confusão com terminações e pronomes masculinos e femininos. Mas obtive ajuda de alguns amigos fluentes na língua espanhola para sanar dúvidas que surgiram no decorrer da leitura com relação as palavras, frases, conectores e afins. ​Foi uma grata surpresa conhecer dois incríveis protagonistas nessa história, a travesti, “La Loca Del Frente” e o revolucionário Carlos. Amei conhece-los, amei cada nuance, cada contradição, cada ação e reação dos dois. Principalmente da ‘la loca’. ​Foi a travesti mais humana da literatura chinesa com qual já me deparei, porque a “Louca da Frente”, a grande protagonista que enche todo esse romance, é brega, é kitsch, porque essa é a sua forma de lidar com aquilo que é o feio do mundo, de cara, sem esconder a sua condição de homem homossexual que mal recebeu educação durante sua infância e adolescência, exagerando na feminilidade, apaixonando-se por coplas e boleros, velhas canções sentimentais nas quais vira o seu desejo impossível por Carlos, um homem heterossexual membro da “Frente Patriótica Manuel Rodríguez” a quem ajudará por amor e por amor a ele irá pouco a pouco comprometendo-se politicamente com a causa. E que amor não é brega visto de fora? ​ É uma história simples: uma louca que se apaixona por um lindo rebelde revolucionário e o segue cegamente ajudando-o na sua aventura subversiva. Amei o capítulo que conta da emboscada armada para assassinar Pinochet. Foi muito bem narrado e com detalhes precisos das ações dos revolucionários. Aliás, esse episódio da tentativa de assassinato do ditador Pinochet foi real, verídico. Mas ele escapou da morte. ​A ‘la loca del frente’ sabia com quem estava se envolvendo. Quando ficou claro para mim esse ponto, fiquei contente porque sintetiza que ela é inteligente, perspicaz. Iria odiar o autor caso a retratasse como uma idi0ta, uma delusional completamente desconectada da realidade que a cercava. Nesse sentido, Lemebel foi o ‘mestre dos mestres’. ​A “Louca da Frente” é terna, comovente, corajosa, honesta, leal, que superou um passado de abusos e marginalidade transformando a vida à sua maneira, à maneira que Lemebel imprime ao romance, um ‘modo de adornar até o momento mais insignificante da vida’. ​Um dos aspectos de que mais gostei em Lemebel foi a voz narrativa que empregou na história. Tão recarregada, construída com imagens complexas e com frases populares, a exemplo desse “Rico, rico, rico, como le dijo el poto al pico” juntando-se com outros ditos populares de belíssima poesia. Suponho que para Lemebel a fala popular também era poesia. Outro aspecto que também adorei foi que no decorrer da história, o narrador e as personagens se referem a ‘la loca del frente’ em um ambíguo tratamento masculino/feminino: “¿ Qué le passa, se siente mal? Está pálido. Y ella sin mirarlo, le contestó: no se preocupe”. ​Há uma cena em que os militares dividem os passageiros dos ônibus por gênero masculino e feminino. E ela, ‘la loca’, não sabe em qual das duas filas ocupar. Essa mudança por ambos os gêneros durante a narrativa foi bastante curiosa e reveladora, porque sintetiza a transexualidade do universo de Lemebel. A leitura desse romance me evocou, em alguns aspectos, o famoso romance “O Beijo da Mulher Aranha”, de Manuel Puig pela similaridade com o cenário no clima de uma feroz ditadura sul-americana, pelo contínuo afloramento de elementos retirados da cultura popular a exemplo de filmes, novelas, canções e ditos populares. ​Mas também, sobretudo, pelo caráter dos dois protagonistas, a travesti e o revolucionário que, forçados pelas circunstâncias, acabam se encontrando e passam a conviver influenciando-se mutuamente a respectiva sensibilidade de forma indelével. ​Esse deve ser o livro mais raro que já li nos últimos tempos. Não pela temática que aborda (homossexualidade e ditadura), mas pela forma como o faz, com uma boa história, uma escrita excepcional e personagens de profundidade cativantes. ​Normalmente, todos os romances queer têm esse tema em comum – resiliência queer, apesar do amanhã desconhecido, no meio político mais cruel que se possa imaginar. A capacidade de resistir, de continuar quase milagrosamente, e quando o fim se aproxima, tudo que se quer é abraçar livremente e sem medo seus amores, amigos e familiares. ​ Há cenas tão ternas neste livro, tão suaves, tão esperançosas. Nós vemos e ouvimos diariamente as atrocidades, elas estão muito presentes, mas nos permitirmos escapar para os devaneios da “Louca da Frente” por um momento, para esquecer os tempos sombrios é sim muito libertador. O que eu mais amei no livro sem dúvida alguma, foi a representação do ‘outro queer’ vivendo em tempos incertos. Sendo um pária, mas vivendo para aquele momento de escapismo. ​ Ostentando a queerness de alguém, mesmo que isso signifique consequências brutais, é a única maneira de afirmar a existência de alguém. A queerness da “Louca da Frente” é sua armadura e seu mundo de fantasia sua arma. ​Cruzam-se paixão e política, sentimentos platônicos e luta armada, sonho e realidade, desejo e racionalidade, que se materializam no encontro entre ‘la loca del frente’, uma travesti afeminada que adora cantar e um tanto maltratada pela vida, e Carlos, um lindíssimo jovem revolucionário. ​Duas figuras diferentes que, a partir da aceitação mútua das diferenças, conseguem estabelecer uma relação terna e respeitosa. Uma história que certamente roubou meu coração página após página. Lemebel me conquistou para sempre. ​ Foi uma experiência nova ler um livro em outro idioma, curiosa, difícil também, porém, incrível. Uma história permeada de medo, tensão e esperanças de dias melhores, principalmente, para a comunidade Queer. ​ Maravilhoso, lírico, multifacetado, um mural do falecido Chile de Pinochet. Tão estranho que eu comecei dizendo que quase não tinha palavras... ☭ 🇨🇱☕️📖👨🏽‍❤️‍👨🏻❤️‍🩹🦄🏳️‍⚧️🕰⌛️☭

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