Todo ato de violência é chocante. Um ato de violência totalmente sem sentido, proferido quatro vezes, contra quatro inocentes, muito mais.
Em novembro de 1959, a paz da pequena cidade de Holcomb, no Kansas, foi abalada pela chacina da família Clutter: pai, mãe e os dois filhos menores foram assassinados a sangue frio dentro de casa, de madrugada. Até chegarem aos assassinos, o clima na cidadezinha era de insegurança: quem mataria uma família tão influente e querida? Por quê? Seria o assassino um deles? Estariam correndo perigo? Mas uma pista levou os responsáveis pelo caso a dois ex-detentos: Perry Smith e Dick Hickock.
O que temos aqui é uma narrativa pioneira, considerada a primeira obra de New Journalism (Novo Jornalismo ou Jornalismo Literário): une técnicas jornalísticas a ferramentas literárias para contar um fato. É também uma leitura muito, muito difícil. Na parte da invasão à casa, tive que parar várias vezes. Por mais que não tenha sido exatamente como o relatado, você sabe que os assassinatos foram reais. E Capote humanizou muito todos os envolvidos - os assassinos inclusive -, de uma forma que não dá para sair incólume.
In Cold Blood é considerada a principal obra do autor e também foi alvo de várias controvérsias, entre elas que Capote inventou várias cenas - apesar de sempre afirmar ser tudo 100% real -, que teria tido um caso com Perry Smith e que, por isso, o retratou de maneira muito mais sensível do que retratou Dick Hickock. De qualquer forma, é um relato muito bem escrito e cheio de detalhes, que rendeu à Truman muito dinheiro.
Sobre a minha experiência, devo dizer que foi bem vasta: o livro me levou a muitos artigos e reportagens (a voz do Capote, gente!!!), fotos (algumas bem desagradáveis), entrevistas, documentários e filmes baseados no livro. Por tudo isso, apesar do dificílimo tema, dou nota máxima.
Uma peculiaridade sobre este livro é que Truman Capote foi para cidade de Holcomb acompanhado de Harper Lee, a autora do famoso O sol é para todos (que ainda não havia sido lançado). Curiosamente, os dois viveram numa cidadezinha chamada Monroeville, no Alabama, que tinha cerca de mil habitantes. Ela, porque era nascida lá; ele, porque passou uma temporada na casa de parentes. Dois seres tão opostos, ele extravagante e ela reservada, se uniram numa amizade que durou anos, foram juntos para Nova York e se tornaram escritores famosos.
O objetivo de Capote em Holcomb era entrevistar os moradores da cidade para uma reportagem que ele publicaria na revista The New Yorker. Acontece que o autor era muito excêntrico às vistas dos moradores da cidadezinha e quem quebrou o gelo foi Harper Lee - na época ainda a desconhecida Nellie -, aproximando-o da comunidade, facilitando as entrevistas, acompanhando-o. Porém, Truman Capote não deu nenhum crédito ao trabalho dela. Apenas lhe dedicou parcialmente o livro, juntamente com Jack Dunphy, que era o companheiro do autor. Sem mais. A amizade nunca mais foi a mesma; não só por isso, mas foi a gota dágua. Fonte: Letras In.Verso e Re.Verso.