Haikai -

    Cássia Penteado

    Reformatório
    2021
    104 páginas
    3h 28m
    ISBN-13: 9786588091371
    Português Brasileiro

    Haikai conta a história de uma aspirante poetisa que se muda para a cidade de São Francisco Xavier, na Serra da Mantiqueira, na busca por uma vida mais próxima da natureza, onde possa se inspirar para compor seus haicais. Para manter-se vai morar e trabalhar na fazenda do senhor Murakami, um produtor de cogumelos, que vive com o filho de 8 anos, cuja mãe, Sayuri, ceramista, nascida e criada no Japão, em Kyoto, encontra-se internada em uma casa de repouso. Dividido em 4 partes: primavera, verão, outono, inverno, o livro vai, aos poucos, descortinando a vida de Sayuri, mesmo sem sua presença na história. Do nascimento em 1976, até seus 21 anos, quando vem para o Brasil, prometida como noiva de Murakami. Como pano de fundo, Haikai nos leva a um passeio pela história e pela cultura japonesa, passando pela gastronomia, a arte da cerâmica, a política e os costumes orientais. O olhar da autora de Haikai é sutil, célere, detalhista, delicadamente perspicaz o que, irrefutavelmente envolve o leitor a identificar-se com os personagens, nos dois países em questão, trazendo pela arte literária tom, core e sabores, marcas, receita de prazer que aguçam os sentidos. Haicai é uma pequena obra-prima, delicada e sutil como um origami, saborosa como os cogumelos orientais, e certeira como um golpe Bujutsu.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos08/04/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    HAIKAI

    Por Krishnamurti Góes dos Anjos Parece ter sido o crítico Afrânio Peixoto, o primeiro a difundir o haikai na Literatura Brasileira. Em seu livro de 1919, chamado ‘Trovas Populares Brasileiras’, faz referências ao poema japonês. O gênero poético tem estruturação formal simples. Possui três versos: o primeiro e o terceiro são redondilhas menores — versos de cinco sílabas —, e o segundo, redondilha maior — verso de sete sílabas. Portanto, é uma poesia objetiva e sintética. Entre nós encontrou admiradores e seguidores do porte de Paulo Leminski, Millôr Fernandes e Guilherme de Almeida. No Japão sempre foi muito praticado, ao menos desde o século XVII pelo poeta Bashô, pseudônimo de Matsuo Munefusa. Foi Bashô quem deu força e importância a prática do haikai em seu país. Uma feliz injunção de circunstâncias levou a advogada, escritora e tradutora Cássia Penteado a escrever “Haikai”, recentemente publicado pela Editora Reformatório que, em face do sucesso alcançado no lançamento, reimprime nova tiragem da edição. A feliz injunção de circunstâncias que envolvem a concepção do romance (sim, é um romance em prosa poética), começaram a se configurar ainda na infância da autora devido à convivência com objetos de origem japonesa que sua família colecionava. Seguiu vida a fora, com o desfrute da culinária japonesa, amizades cultivadas com nipônicos, imigrantes que foram em larga escala para São Paulo e curiosamente, em virtude de pesquisas relacionadas ao cultivo de cogumelos daquele país. Tudo isto acabou estimulando pesquisas outras, que levaram a novas descobertas sobre a fascinante cultura do povo do sol nascente. Plantou-se a semente que deu origem à ficção. Mais 3 anos de leituras intensas, pesquisas e entrevistas sobre a cultura japonesa. Temos o romance “Haikai”. A obra divide-se em quatro partes: Primavera, Verão, Outono e Inverno. E o leitor ao tempo em que se deleita com a trama da narrativa, vai também conhecendo várias nuances da cultura japonesa, como o cultivo de cogumelos, a alta gastronomia que os japoneses adotam, e a fabulosa fabricação de cerâmicas decoradas que aquele povo produz como uma de suas maiores especialidades artísticas. A construção da obra em breves capítulos, imprimiu ao projeto gráfico da obra roupagem que valoriza espaços, assim como a introdução de belíssimas ilustrações. Outra surpresa para o leitor. Houve um garimpo de Haicais da autoria de Bashô que ora abrem os capítulos como epígrafes, ora aparecem como conclusão parcial, o que permite reflexão paralela ao texto propriamente dito. Tudo muito bem urdido a dar a consistência ficcional para a narrativa. O enredo, narrado pela jovem poeta Chiara, nos conta que ela mesma, necessitando um contato mais próximo com a natureza a fim de sentir-se em um estado de espírito tal que lhe propiciasse melhores condições para compor sua desejada obra, acaba indo residir na fazenda de cultivo de cogumelos do senhor Murakami, marido de Sayuri com quem teve um filho ainda pequeno. Sayuri está internada em um hospital, vítima de grave e misteriosa doença. Entre o convívio diário de Chiara com aquela diminuta família de pai e filho pequeno, vamos sabendo da história de vida de Sayuri, uma jovem nascida em Kyoto, ceramista de largo talento, e despachada para o Brasil, aos 21 anos de idade, em virtude de um casamento arranjado com o senhor Murakami – e imagine-se que uma coisa dessas ocorre em pleno ano de 1997! Ocorre que entre um e outro capítulo se alternam as vivências de Chiara na fazenda, com as visitas à mãe do garotinho Dô no hospital, Chiara vai descortinando a trajetória de vida de Sayuri, que esconde terrível segredo, ao tempo em que outra história se constrói. Assim a vida, um eterno recompor. Telma Shiraishi, que assina o texto de orelhas, faz a determinada altura, referência a um conceito espacial muito usado na cultura japonesa. O “ma”. O vazio místico do ideal japonês teria, mais ainda do que revelações explícitas, o condão de sugerir todo um universo de possibilidades, promessas, desejos e significados. Isto porque também, e leve-se em conta, que se está plenamente consciente de que nada é em vão, por acaso ou por descuido na existência. Este o universo em que nos movimentamos. “Ma” seria um lugar vazio onde todos os tipos de fenómenos aparecem, passam e desaparecem, onde vários símbolos de arranjo de fenómenos e formas altamente elásticas surgem, e só começa a fazer sentido quando existe indicações da vida humana. Está a chave talvez para se observar e refletir sobre o âmago da criação de Cássia Penteado. Vale a pena refletir muito detidamente sobre. Difícil, sobretudo se nos dermos conta de que somos uma negatividade completa (aqui no ocidente nem se fala), em termos de especulações imaginativas. Na cultura japonesa, a produção de cogumelos traz em si uma modulação, uma gradação de simplicidade elegante dentro do silêncio eloquente que envolve o desenvolvimento desses fungos comestíveis. Valoriza-se o que os nipônicos entendem como Shibumi – ou seja, o grande requinte oculto sob uma aparência corriqueira. A expressão é usada para qualificar qualquer coisa que exprima harmonia, beleza fluída e a paz que está em movimento sem perturbar-se. Observamos que esses organismos extraordinários que são os cogumelos, possuem enorme capacidade de adaptação e de colonização dos mais diversos meios (águas doces e salgadas, terra, madeira, etc.). As árvores lhes fornecem alimento, abrigo e até mesmo suporte físico. Por seu turno, esses seres vivos desempenham ações específicas na dinâmica própria da comunidade biológica, que é a floresta natural. E então refletimos que realmente, para além da mera utilidade comestível para os humanos, os cogumelos detêm função crucial no ciclo biológico da Terra. Juntamente com as bactérias, são os únicos seres vivos existentes capazes de digerir duas das substâncias presentes numa árvore – lenhina e celulose – realizando a decomposição da matéria orgânica. Através desta decomposição, os fungos interveem nos processos de mineralização e reciclagem dos nutrientes no ciclo do carbono, e na associação simbiótica que alguns estabelecem com o sistema radicular das árvores. Em suma, promovem a reciclagem de nutrientes que já fizeram parte de outros seres vivos. Sem a sua ajuda, o solo cobrir-se-ia de inúmeros restos de animais e vegetais, tornando a vida inviável. Os japoneses sabem disso. O homem ocidental, escravo do tal pensamento ‘racional”, detonou os liames de causa e efeito e meteu tudo no cesto das casualidades, ou acidentes ou imprevistos. Perdeu a capacidade de concatenar evidências. O mérito inconteste de um livro como é “Haikai” é, para além do deslumbre muito justificável com a cultura japonesa, o de acenar mais uma vez para a ideia de que tudo, absolutamente tudo no planeta tem sua utilidade, tudo se interliga e se conecta para que a vida sempre seja viável. Vivemos em um imenso rizoma que nos possibilita em última análise a vida. E esta vida em todos os níveis, submete a matéria e a coloca em permanente transformação. Para a humanidade, o que sempre permanecerá, o que sobreviverá à renovação contínua dos meios, é o desenvolvimento da nossa personalidade espiritual. A propósito do romance “EntreMeios”, obra de 2018, quando da estreia da autora na literatura, escrevi: “A senhora Cássia Penteado positivamente elabora uma prosa ágil, concisa e inteligente na qual entrelaça fios de um psicologismo plasmado na compreensão das obscuridades que habitam a alma humana. Verdadeiramente uma estreia promissora que há de provocar nos leitores o desejo de encontrar novas produções suas.” Eis aqui em 2022 este romance “Haikai”. Texto em prosa poética que alcança em boa medida, semelhanças com a linha estrutural do gênero poético japonês, a valorizar o simples, e cujo objetivo é aguçar em quem lê, o espírito contemplativo e descritivo das imagens expressas. Fragmentos da realidade que se interconectam, buscando captar, como numa fotografia, a brevidade de momentos de que a vida é feita. Pequenos registros de uma percepção muito mais intensa a respeito da existência e da transitoriedade da própria vida física. Livro: “Haikai”, Romance de Cássia Penteado, com belas ilustrações da artista plástica Mika Takahashi – Editora Reformatório, São Paulo – SP 2022, 104p. ISBN 978-65-88091-37-1 - Links para compra: https://editorareformatorio.minhalojanouol.com.br/produto/321227/haikai ou https://www.facebook.com/cassia.penteado

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