“Our Missing Hearts”, da autora norte-americana Celeste Ng, é uma combinação de literatura, especulação e distopia, e que assim como Margaret Atwood em sua obra “The Handmaid´s Tale” (em português “O Conto da Aia”), mescla ficção com histórias reais, trazendo à tona as sempre atuais temáticas do racismo, da xenofobia, e dos crimes de ódio Anti-Asiático, mas em especial, de Anti-Chineses que acontecem ainda hoje nos Estados Unidos.
Nesta história que entrou para o Clube de Leituras da atriz Reese Witherspoon, e cujo audiobook contou com a narração da atriz norte-americana filha de imigrantes chineses, Lucy Liu, a escritora conta a história de Bird, um menino de 12 anos que, após uma grande crise ocorrida nos Estados Unidos, passa a ser cuidado apenas pelo pai emocionalmente distante, sem nunca esquecer da mãe que lhe contava histórias infantis e contos de fadas, mas que “out of the blue” (totalmente do nada) desaparece da noite para o dia.
A “Grande Crise” na qual a história gira em torno, se refere a um momento na história dos Estados Unidos em que eventos envolvendo imigrantes ou descendentes de imigrantes, impulsiona o país a criar o PACT – The Preserving American Culture and Traditions Act, onde todos os americanos são convocados a denunciar qualquer obra ou ato que vá de encontro com o sentimento nacionalista.
Nesse ponto da história, onde se retrata o caos causado pela instauração do PACT, que baniu todas as obras de outros países, ou aquelas que feriam o patriotismo americano, eram banidas das livrarias e bibliotecas, e transformadas em papel higiênico (uma bela alegoria sobre como tudo que é de fora é visto!), o único sentimento que foi despertado durante a leitura é de pura alienação.
Confesso que a minha sensação inicial com essa leitura, é de que a autora tentou utilizar a mesma receita de “1984”, a consagrada distopia de George Orwell. E pode parecer estranho dizer isso, mas de fato a minha suspeita é tão substancial, que o livro da Celeste também está dividido em três partes. Porém, diferente de Orwell, não vi muito sentido nessa divisão.
Quando a alienação é retratada em “1984”, o sentimento que ela (geralmente) provoca nos leitores é de muita angústia e de total desesperança de que a história tenha como acabar bem. Já em “Our Missing Hearts”, meu único sentimento é de que os americanos são lunáticos (tais como o pai de Bird) que acham que tudo o que vai contra seu país, é conspiratório.
Aliás, a autora chega a falar de conspiração como se fosse um sentimento positivo, que une aqueles que estão à deriva de uma sociedade. Porém, quando ela desenvolve uma história onde uma mãe com ascendência chinesa precisa abandonar a sua família porque o livro de poesias que ela escreveu quando estava grávida do filho, foi usado como um lema da rebelião anti-PACT, me fez pensar que a única coisa que ela retrata aqui, é de como o mundo está tão doente (e desesperado!), a ponto de ver mensagem subliminar em tudo.
Porque esse poema que ela escreveu, é como se alguém pegasse a canção da “Dona Aranha”, e afirmasse que a aranha é tudo e todos que se opõem ao governo, e a chuva é o governo que vai tentar impor o seu poder sobre a sociedade. Entende o que eu quero dizer? Era só uma cantiga infantil... Por que transformá-la em algo que ela não é?
Minha maior desconexão com essa história (e por sorte vi vários comentários de americanos que tiveram a mesma opinião sobre esse livro!!) foi com os personagens. O pai era um lunático que, por conta de vários livros terem sido banidos das bibliotecas e livrarias, passava o dia lendo dicionários. A mãe, uma mulher que foi eleita uma “Che Guevara”, porém que não tinha voz ativa alguma.
E quanto a Bird, chamado Noah, não passou de um menino desorientado, que ora ouvia um pai lunático, e ora ouvia uma mãe completamente perdida na vida. Um protagonista que não fez absolutamente nada, a não ser ir atrás da mãe, para que ela pudesse contar o que havia acontecido para ter deixado sua família, e tudo isso para que? Para nada! Ele não reivindica nada. Não questiona nada. Nem muito menos faz nada.
Não há forças nos personagens. Suas lutas são válidas, e bastante relevantes. Mas eles passam a maior parte do tempo falando, pensando, sentindo, sem fazer nada. E a ação que a autora propôs para solucionar o problema causado pelo PACT, foi tão sem qualquer propósito, que eu fiquei me questionando de onde foi que a autora tirou que conquistar a empatia é algo simples assim?
E no final, tudo o que a mãe do Bird queria mesmo era enviar ao seu filho mensagem de que ela era uma mãe que se sentia muito culpada por o ter abandonado, e do quanto ela se sentia a pior das mães. Mas quando ela diz isso, por trás, ela só quer mesmo dizer ao filho que o fato dela ser falha, não faz dela uma péssima mãe. Mas uma pessoa humana como outra qualquer.
De fato, mães e pais são seres falhos e que precisam ser vistos pelos seus filhos como seres normais que também estão suscetíveis a cometer erros. Mas o fato é que isso não tinha muito a ver com a proposta do final dessa história. Aliás, eu até preciso abrir um parêntese aqui apenas para dizer que, sobre essa temática de pais e filhos, a autora foi muito mais bem-sucedida em seu primeiro livro publicado, “Tudo o que eu nunca contei”, e que vale muito a pena ler.
Muito embora eu não tenha gostado da história, eu não posso ignorar a mensagem nele contida. Celeste Ng escreveu essa obra durante o período da pandemia da Covid-19, e é fato que muitos crimes aconteceram contra americanos com descendência asiática, como se eles devessem ser responsabilizados por uma doença unicamente por ela ter surgido na China, ou seja, um país ligado aos seus países de descendência.
Aliás, quando a autora ressalta essa fala de chamar todos os que possuem descendência de um país da Ásia, simplesmente como “asiáticos”, não apenas denuncia o quanto isso generaliza, como despersonaliza a nacionalidade de alguém.
A cultura japonesa se difere da chinesa, que também tem suas diferenças das sul ou norte-coreanas. E o fato de que existe uma semelhança na aparência, não quer dizer que todos sejam iguais em suas tradições, cultura e nem mesmo na língua.
Sem contar que outro ponto que a autora nos atenta é para essa diferenciação feita de que uma pessoa nascida nos Estados Unidos, porém com origem asiática é “Asian American”, como se não fossem “americanos puros”.
Assim como também é fato que muitas crianças imigrantes foram retiradas de suas famílias tanto durante o governo do Trump, mas também durante a pandemia. Em 14 de outubro deste ano, a CBS News anunciou que cerca de 130.000 crianças desacompanhadas entraram no sistema de abrigo nos Estados Unidos em 2022. E muitas delas podem nunca mais reencontrar suas famílias.
De fato, tudo isso só mostra como “o amanhã é o hoje que mais parece com o ontem”. Afinal, os tempos mudam, mas os preconceitos e discriminações permanecem imutáveis!