O canto da cidade (Discos da música brasileira) - Da matriz afro-baiana à axé music de Daniela Mercury

    Luciano Matos

    Edições Sesc SP
    2021
    214 páginas
    7h 8m
    ISBN-10: B09JKWBSKT
    Português Brasileiro

    Em junho de 1992, um show no vão do Masp parou a avenida Paulista em pleno meio-dia. Dada a tamanha concentração de pessoas e a vibração da música no lugar, a produção do evento foi alertada que havia grave risco da laje do museu desabar. Com quarenta minutos de show, a cantora, ainda pouco conhecida do grande público, teria a apresentação interrompida pela Secretaria Municipal de Cultura e pela Polícia Militar. Tudo assim: em sequência acelerada e surpreendente, como a cena musical batizada de "axé music" que aquela cantora iria consolidar. O show do Masp é o ponto de partida do livro do jornalista Luciano Matos para contar a história de Daniela Mercury e do álbum O canto da cidade, de 1992. Como a história é sempre maior, e muito mais que 12 faixas de um disco, Luciano Matos volta às origens do que seria absorvido (e aproveitado) por esta nascente axé music: os blocos afro. No livro, o autor reconta a trajetória de seus maiores representantes na capital baiana: Ilê Aiyê, Olodum, Malê Debalê, Muzenza e Ara Ketu. Volta igualmente à origem da batida de Neguinho do Samba, Mestre Jackson, Ramiro Musotto… que somou aos timbaus e repiques da levada do reggae uma poderosa batida grave de surdos: estava nascido assim o samba-reggae. O resultado desse encontro da cantora com os blocos e com o samba-reggae aparece já no primeiro disco: "Swing da cor", música de trabalho do álbum, foi descoberta em um festival do bloco Muzenza e gravada com a percussão do Olodum e Neguinho do Samba. "A gente estava descendo a ladeira de São Bento [no trio], quando Marcionílio perguntou se eu já tinha ouvido a música nova do Olodum. Eu não conhecia ainda. Então ele cantou um trecho de 'Faraó' e o povo respondeu. Aquilo foi incrível. Fiquei enlouquecida. Era um samba novo, uma síntese nova. Uma estrutura louca, uma música longa e interessante. Era muito diferente", lembra Daniela ao autor. Além dela, entre os entrevistados para o livro estão figuras centrais tanto da música baiana quanto do álbum: Vovô do Ilê; João Jorge, presidente do Olodum; Marcos Kilzer, vice-presidente artístico da Sony à época; Margareth Menezes; Herbert Vianna; Armandinho; Letieres Leite; Liminha; Jorge Xaréu, do grupo Muzenza; Carlinhos Brown; Durval Lelys e os compositores Tote Gira ("Prefixo de verão" e "O canto da cidade") e Luciano Gomes ("Faraó – Divindade do Egito" e "Swing da cor"), entre outros. Como escreve Matos: "A enorme visibilidade alcançada por Daniela serviu para escancarar de vez o que já era realidade na Bahia. A música pop baiana, que ganhou o apelido de axé music, virava uma realidade nacional, sem que os artistas precisassem sair de lá, como antes acontecera com quase toda a música surgida fora de Rio de Janeiro e São Paulo. Desde o baião de Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, a bossa nova de João Gilberto, a tropicália de Caetano, Gil, Gal e Tom Zé". O livro é parte da coleção Discos da Música Brasileira, organizada pelo crítico musical Lauro Lisboa Garcia.

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    Pierre Almeida02/03/2025Resenhou um livro
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    Se antes admirava a obra de Daniela Mercury e Margareth Menezes, hoje admiro muito mais. São raras as cantoras que ainda mantém compromisso com a música afro-brasileira, sem ceder à lógica atual do mercado musical, que privilegia números em plataformas de streaming em detrimento de um conteúdo significativo. O livro “O Canto da Cidade: Da matriz afro-baiana à axé music de Daniela Mercury”, de Luciano Matos, traça um resgate da trajetória da música e dos blocos afro na Bahia, mostrando como chegamos à produção de um dos melhores álbuns da música brasileira, “O Canto da Cidade”, além de evidenciar a influência de Daniela no fortalecimento do axé music no Brasil. No entanto, se de um lado Daniela Mercury ajudou a levar a música afro para o cenário nacional, por outro, o livro também denuncia e o processo de “embranquecimento” que essa música sofreu para ser aceita pela indústria fonográfica. O racismo velado e os interesses comerciais dos grandes executivos da música foram determinantes para essa transformação, o que fez com que muitas das referências e protagonistas originais do movimento fossem apagados ou minimizados. Esse contraponto é essencial para entender a complexidade da difusão da música afro-brasileira no país. O álbum “O Canto da Cidade” ganhou para mim um novo significado, pautado no profundo respeito de Daniela Mercury pelas matrizes afro-baianas que formaram sua identidade musical. A inclusão de elementos dos blocos afro e o forte teor político das letras reafirmam o seu compromisso fiel e irrestrito com essa cultura desde o início de sua carreira até os dias de hoje. Senti falta de imagens nos livros, elas teriam enriquecido ainda mais a obra.

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