Um jovem escritor desperta de um sono profundo e percebe que há algo de errado na ordem natural das coisas. Estranhamente, o sol não raiou. O Rio de Janeiro está afogado em enorme escuridão e silêncio. Mesmo as estrelas estão começando a se apagar. A única vela que persiste acesa está a um fio de desaparecer. E a sua própria voz parece querer sumir. Este é o ponto de partida para Demônios, conto que Aluísio Azevedo, um dos principais romancistas brasileiros do século 19, publicou pela primeira vez no jornal Gazeta de Notícias, em 1891. Conhecido pela chamada “trilogia naturalista”, que reúne os clássicos O mulato, Casa de pensão e O cortiço, o autor releva nesta história curta uma faceta pouco conhecida do público contemporâneo. Em Demônios, a narrativa naturalista, que é a marca registrada de Aluísio Azevedo, se entrelaça a outro estilo em voga na época, o romantismo. Ao mesmo tempo, todo o conto é atravessado pelo suspense e pelo terror fantástico. Diante daquela misteriosa noite que passa a dominar a cidade, o protagonista deste conto sai de seu quarto em busca de ajuda. Seus vizinhos, porém, estão todos mortos; logo, descobre que toda a população pereceu naquele estranho fenômeno, e só ele se manteve vivo. Em desespero, só pensa no destino de Laura, sua noiva, e se aventura pela escuridão para encontrá-la. A moça está em casa, aparentemente morta, mas o desespero do jovem escritor a devolve à vida. Inteiramente sozinhos ante o apocalipse, porém, o casal decide que sua única saída é procurar a morte, e partem rumo ao mar, ao qual pretendem se lançar juntos. Na jornada dos dois protagonistas pela cidade em trevas, eles experimentam a mutação do mundo e de si próprios. Uma misteriosa metamorfose os acompanha. O chão vai virando uma espécie de lodo. O corpo de Laura, a delicada donzela – como são as clássicas personagens românticas – transmuta-se numa opulenta musculatura, com contornos de fera sensual – como num livro naturalista. Juntos, os dois protagonistas viajam pelas sensações animal, vegetal e mineral, em sua insólita jornada em busca da morte. Por tudo isso, Demônios revela-se antes de mais nada um conto eletrizante, irresistível. Uma história que, apesar de escrita há mais de um século, mantém seu fascínio para os leitores contemporâneos, por dosar terror, suspense e romance numa linguagem fluida e inventiva. Nesta edição, a história ainda ganha um prefácio do escritor Flávio Carneiro, que contextualiza as influências perceptíveis no conto e explica como Aluísio Azevedo soube aliar qualidade literária e apreço popular. As ilustrações de Kako, em preto e branco, acrescentam um tom lúgubre e ressaltam o ritmo vertiginoso da trama.




