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    Oscarina -

    Marques Rebelo

    José Olympio
    2022
    208 páginas
    6h 56m
    ISBN-13: 9786558470502
    Português Brasileiro
    3.4
    16 avaliações
    Leram27Lendo1Querem39Relendo0Abandonos0Resenhas5
    Favoritos0Desejados39Avaliaram16

    Um clássico de Marques Rebelo que retrata o cotidiano do subúrbio carioca. Oscarina mostra uma cidade longíngua e ainda muito viva. Com personagens bem caracterizados, a linguagem um tanto dramática e a incorporação dos falares das ruas na escrita, o autor revela o que é próprio de um certo Rio de Janeiro, mas também algo comum à alma humana, com seus desejos e contradições. Jorge desiste dos estudos, para desgosto do pai, e acaba seguindo carreira militar. Troca a noiva, Zita, por Oscarina, uma mulher cheia de encantos, que o apresenta a novos hábitos, e assim ele se lança de vez à vida boêmia. Clarete, do conto Felicidade, sonha em ser atriz, mas acaba se casando com o chefe. O protagonista de Onofre, o terrível, ou a sede de justiça é um mata-mosquitos que, insatisfeito com o salário irrisório e com o chefe que não trabalha, pensa em se vingar ― o que revela também a consciência sobre o valor do próprio trabalho. Publicado originalmente em 1931, Oscarina, estreia literária de Marques Rebelo, reúne dezesseis contos que mostram o cotidiano de donas de casa, trabalhadores e tipos do subúrbio carioca. O autor se mostra ainda atual e apresenta o Rio de Janeiro além dos cartões-postais. “Marques Rebelo é moderno sem ser modernista”, definiu o dramaturgo e romancista Josué Montello [...]. Ao trazer Oscarina de volta às livrarias, esta bela edição da José Olympio vem reiterar as palavras do acadêmico. Como se não bastasse, nos lembra que a literatura é também o lugar dos ferrados, dos invisíveis, dos maltratados, dos vencidos. Torcedor apaixonado do América Futebol Clube ― “meu time perde sempre”, dizia ―, Rebelo sempre esteve ao lado deles. Do prefácio de Marcelo Moutinho “agira como um babaquara tomando birra ao estudo à toa, porque tinha até muita sorte: estudava pouco e passava em tudo quanto era exame. Raspando, mas passava e era o que valia. Tinha, porém, inveja dos camaradas empregados que não estudavam, que não ficavam mais magros por não saberem os teoremas de geometria, nem os verbos irregulares ingleses, dos quais o Benzabat atulhava treze páginas, o bandido, e tinham ― felizardos! ― a noite inteira para jogar na gandaia. E as festas do Ginástico, do Orfeon, do Clube Euterpe!… Aquilo, sim, é que era vida! Por aquilo é que ele ansiava.”

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    Ladyce West picture
    Ladyce West19/06/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Boa surpresa ver a reedição das obras de Marques Rebelo pela editora José Olympio. Desde que me dediquei aos três volumes de "O trapicheiro", comprados num sebo do centro da cidade, não me lembro o ano, sou admiradora da prosa de Marques Rebelo, um dos mais cariocas dos escritores, que andava um tanto esquecido no fundo do nosso baú literário. Além de prosa deliciosa, de fácil leitura, com narrativa direta, temos na obra dele o retrato da cidade na primeira metade do século passado. Não se trata da capital do país glamorosa, construída na arquitetura art déco, cidade de requinte, luxo, peles sobre os vestidos de noite nos bailes no Hotel Glória, Copacabana Palace, dos luxuosos cassinos, cidade de residência de diplomatas de todo mundo, elegante paraíso tropical à moda Hollywoodiana de "Voando para o Rio" [Flying down to Rio] filme icônico do Distrito Federal em 1933 ou o local de nascimento de um dos personagens mais queridos de Walt Disney: Zé Carioca. A época é a mesma, sem dúvida. Mas é o Rio de Janeiro dos subúrbios construídos às margens da estrada de ferro. Estes compõem o pano de fundo das dezesseis histórias contadas em "Oscarina". A preocupação maior de Marques Rebelo está na caracterização do homem comum, seus anseios, desejos, preocupações, o sobreviver diário. Na prosa estão estampados valores, padrões de comportamento, crenças, regras, moral tudo que colabora para o ponto de equilíbrio cultural do carioca. Não há nenhum super-herói, vencedor de grandes batalhas, de odisseias esplendorosas. Ao contrário participamos das frustrações e pequenas vitórias cotidianas, na melhor tradição literária brasileira com raízes na obra de Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Aluízio Azevedo, passando por Lima Barreto, uma única geração acima de Rebelo. Do naturalismo-realismo do século dezenove, ele acena ao modernismo por contos sem fechamento, porque a vida é contínua, pelo humor que nos leva de volta ao notável "Memórias de um Sargento de Milícias" com semelhante olhar carinhoso sobre a classe trabalhadora brasileira e também pelo linguajar comum, direto, repleto de expressões populares. Carioca, Marques Rebelo mudou-se ainda criança para Minas Gerais. É em Barbacena que lê. Lê muito. Não só os livros que faziam parte da biblioteca do pai, como jornais e revistas diversos e clássicos. Voltando ao Rio de Janeiro, na adolescência, já tem conhecimento literário mais sólido do que muitos adultos, ciente dos clássicos das literaturas brasileira, portuguesa, francesa. Mais tarde, quando abandona os estudos no terceiro ano da Escola de Medicina para se dedicar à escrita tem cabedal na arte literária produzida aqui e na Europa, apreciador sobretudo de Manoel Antônio de Almeida e Machado de Assis. Está formado e destinado a escrever. "Oscarina" é seu primeiro livro, publicado em 1931. Dos dezesseis contos neste volume destaco o que nomeia o livro, "Oscarina", "Em maio", "História de abelha", do qual retiro esta passagem, para revelar o sabor da prosa encontrada aqui: “Assim… assim… o diabo é que a missa seria em dia útil. Manhã perdida. Poucas vendas. Era preciso forçar a freguesia, correr os subúrbios, dar uma repasso nas lojas de Madureira, ver se desencantava um tal de seu Arlindo que prometera, de pedra e cal, pagar as duplicatas vencidas do Pirelli, um caloteiro que lhe passara a casa. Não há por onde escapar: não iria ao cinema ver Greta Garbo, o domingo é que seria perdido e toca a acompanhar o Esteves, estava casando dinheiro como para o Caju. E se não fosse? que sofreria com isso? Pelo contrario ganharia que a fita era muito falada. O Antunes tinha elogiado: uma beleza! O Antunes era uma besta! Mas o Gomes, sim o Gomes era um rapaz inteligente e tinha gostado especialmente do pedaço em que ela mata o marido com um tiro, “um troço muito bem arranjado”, afirmara.” [153] Se você não se vê na prosa de Marques Rebelo, certamente reconhecerá seu vizinho, o tio de Marechal Hermes, a madrinha de sua prima do Engenho de Dentro, a colega de trabalho de Olaria, o músico trompetista de Riachuelo, o pai do amigo torcedor de futebol, que não perde um jogo no Maracanã, mesmo que seu time não seja grande. Entramos no mundo do vendedor de sapatos de Piedade, do funcionário público sem ambições do Cachambi, do gerente do supermercado do Jardim Sulacap, do dono da quitanda de Rocha Miranda, do apostador no jogo do bicho de Madureira, da feijoada mensal na Pavuna. E com certeza, brincamos com todos esses personagens nas festas características do carioca, da Igreja da Penha como no Carnaval na Avenida Central. O Rio de Janeiro, repleto de carioquices, é tridimensional no mundo de Marques Rebelo. Recomendo para todos. Leitura agradável, divertida, no melhor estilo literário. Faltou dizer que Marques Rebelo é pseudônimo de Eddy Dias da Cruz e que em 1964 entrou para a Academia Brasileira de Letras. Merecidamente.

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