QUAL É O DOCE MAIS DOCE DO QUE O DOCE DE BATATA-DOCE?
QUAL É O DOCE MAIS DOCE DO QUE O DOCE DE BATATA-DOCE?
Algumas vezes, um conto ou estória nos foge totalmente do controle. De acordo com um dos meus escritores preferidos, também conhecido como Stephen King, o trabalho do escritor se assemelha ao de um arqueólogo: munidos de nossas ‘ferramentas’ (palavras), desenterramos do nosso imaginário os elementos construtores de uma narrativa. Com o mínimo de interferência possível, retiramos, letra por letra, linha por linha, aquilo outrora imaginado. Agora, em frente ao meu computador, uma constatação. Eu falhei. Com um propósito, as palavras aqui-agora eternizadas tinham um outro direcionamento. Tinham um começo, meio e fim. Afinal, é muito fácil falar sobre "nossos livros preferidos e como eles impactaram nossas vidas" (o tema deste texto). Nesta crônica, deveria permear J. K. Rowling e o seu segundo livro, que acabara por tornar-se o meu primeiro Romance lido, com erre maiúsculo mesmo, lá nos idos de 2004. Seguir-se-iam Tolkien e o seu alfabeto rúnico élfico – Tengwar. Viriam, depois, os sete volumes d’A Torre Negra, agora oito e um filme, com o seu universo distópico-western-futurista e um pé em todos os outros cinquenta e tantos romances do autor. Após, Orwell e Huxley e, aos 18, PUTA-QUE-ME-PARIU, que soco na cara. Como numa ode aos grandes poetas contemporâneos, minhas palavras referenciariam os socos e os chutes de um tal Palahniuk e um certo clube que não podemos falar (ou escrever). Como um Sobrevivente(s) - alguém aí captou a referência? –, deveriam descrever meu pesadelo russo: Dostoiévski e seu crime, que imputariam o castigo de uma depressão-paranoica à la Rodion Românovitch Raskólnikov, com a sua/nossa mania-compulsiva-esquizofrênica particular. Ao falar dos livros que mudaram minha vida, iria escrever que, alguns tantos meses depois, um encontro casual com Matthew Quick me mostrou que há, sim, um 'Lado Bom da Vida'. Em um breve momento de menções honrosas vem-me, então, uma confirmação: a Literatura sempre me salvou, a mim e a minha alma. E, em meio aos meus devaneios com meus jornalistas-escritores preferidos, eu tive uma certeza: não foi tudo por um acaso! Perdido na solidão de Macondo, nas estórias errantes dos Buendías e Arcadios, um pensamento. “Se não podemos escrever como os grandes, que compartilhemos o mesmo título, ofício. Que sigamo-los: jornalistas!” Por falar nisso, terminei ‘Amor nos Tempos do Cólera’ ontem. Reflito, então: o mais difícil, no mundo das palavras, é abandonar uma leitura que persiste em nos acompanhar muito além do ponto final. Uma pausa, outra reflexão: era por aí que estas linhas dever-se-iam se enveredar. Porra, falar de Literatura é muito fácil! Ao falar sobre Literatura, a intenção era começar o texto com o primeiro livro que minha memória foi capaz de recordar. Eu deveria ter pouco mais de cinco anos. Morávamos, minha mãe, irmão e eu, em uma casa gigantesca, com uma sala sobressalente, a nossa ‘salinha’. Com azulejos imensos na cor marrom, uma escada que vinha da sala principal, de TV, e um teto inalcançável até mesmo para as vistas, a ‘salinha’ era o nosso inferno-paraíso. Inferno quando obrigavam-me a fazer o dever de casa durante toda uma tarde (copiar e transcrever textos enormes de uma Enciclopédia Barsa). Paraíso, pois ali, naquele espaço ‘gigantesco’, as crianças brincavam. Em nosso reino de brincadeiras, tínhamos uma pasta amarela. Velha, com os elásticos rasgados, na época foi o abrigo de alguns-muitos livros infantis. Não me recordo de nenhum, exceto o do maldito a quem me refiro no título deste relato passional: Menor que um livro convencional, foi impresso em capa dura, nas cores marrons e branca. Na parte frontal, uma senhora caricata cozinhava, em um fogão que era muito alto, auxiliada por um banquinho de madeira, com o restante da família a preencher a cena. "Uma maçã bem dura (...) faz bem para os dentes da gente (...) mas um pudim mole e doce (...) bem que me deixa contente". Paladar. Esse era o tema do livro que, com absoluta certeza, afirmo: foi o mais lido durante a minha existência. O enredo era simples: para ensinar sobre o assunto, o autor(a) narrava situações pitorescas envolvendo os diversos ‘sabores’. Mas eram as ilustrações que me ganhavam, todas! Tortas, pudins, guloseimas. Até a maçã tinha um quê de ‘pornfood’ naqueles desenhos, tão nítidos que consigo descrever que um dos personagens, um adolescente com rabo de cavalo, bermuda amarela e camisa rosa, cheio de sardas ou espinhas, fazia uma cara feia porque chupara um limão. Era o azedo, caralho! Em uma ‘bad vibe’ causada pelo excesso de nostalgia - "Azedo, salgado e amargo são o contrário de doce (...) Mas se você comeu tudo que era doce (...) Acabou-se!” - procuro, há pouco mais de três horas, pelo nome daquele que me introduzira no universo mágico das palavras, a “mais perigosa que a espada e mais inebriante que o ópio”. Não resignado, o que seria uma "Carta de Amor" à Literatura transformou-se, então, num cartaz de "Procurado". Como disse lá em cima, algumas vezes, um conto ou estória nos foge totalmente do controle. Mas, se você encontrar, o livro, me avisa? Observação importante: este texto foi escrito em 2017. Ao longo dos anos, após a minha entrada na faculdade de Jornalismo (e depois de formado), fui convidado a escrever em diferentes sites e blogs, sempre de forma não remunerada. Nunca me importei, pelo contrário. Foi uma forma de praticar e, tão importante quanto, de me expressar. Sempre me senti lisonjeado. “Fulano me convidou para escrever”. Recentemente, descobri que muitos desses blogs foram excluídos. Noutros, os responsáveis ocultaram certas publicações. Por algum motivo, não fiz back up dos textos. Fiquei triste: por mais que alguns escritos não representem mais a forma como enxergo o mundo, ainda assim há uma espécie de apagamento (memória, minha história etc). Não entremos nos méritos da desvalorização do trabalho, das horas despendidas. Enfim… há algum tempo, por coincidências da vida, quis mostrar uma crônica a um amigo. Procurei, procurei e procurei. Com muito custo, descobri alguns textos ocultados num blog de literatura, no qual escrevi, durante alguns meses, lá atrás. O trabalho acima faz parte da leva de crônicas que estão sendo republicadas, por mim, por aqui, neste espaço que tem sido o meu depositório particular. Após encontrar esse texto, obviamente, me dei a missão - ingrata - de procurar mais uma vez a obra. No último mês, já com a ajuda de inteligência artificial, eu o encontrei! O nome do livro é 'Comer', da Ruth Rocha. Todavia, não consegui localizar a edição à qual me refiro, no texto. Não há "(...) Tortas, pudins, guloseimas" ou maçãs num "quê de ‘pornfood’". No livro que a inteligência artificial me mostrou, não há "adolescente com rabo de cavalo, bermuda amarela e camisa rosa, cheio de sardas ou espinhas", fazendo uma "cara feia porque chupara um limão". A minha busca, então, continua. E, se você encontrar a referida edição, o pedido é o mesmo: me avisa! (Será que se eu mandar uma mensagem para a Ruth Rocha ela consegue me ajudar?).

Anna Flora nasceu em São Paulo. Formou-se em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e é mestra em Teatro pela Universidade de São Paulo. Já publicou mais de 28 livros, entre eles, dois dos que compõem a Coleção Pulo do Gato (Salamandra), criada em parceria com a autora Ruth Rocha.



