A cada passo, o historiador do pensamento medieval reencontra Santo Agostinho de quem, igualmente como Aristóteles, toda doutrina invoca a autoridade para se estabelecer ou para se confirmar. Entre os pensadores que solicitam seus textos em diversos sentidos, a ponto de por vezes serem contraditórios, quem permanece fiel à orientação autêntica de seu pensamento, e em que medida? Questão que renasce sem cessar e cuja solução, tanto quanto for possível, supõe como já conhecida em si mesma e para si mesma a doutrina de Santo Agostinho. Logo, como tantos outros, nós sentimos a necessidade de retornar à fonte e de estudar o agostinianismo do próprio Santo Agostinho, para, em seguida, compreender melhor o de seus sucessores. Daí o trabalho que, após muitas incertezas, submetemos ao público.
Introdução ao estudo de Santo Agostinho -
Étienne Gilson
Em Introdução ao Estudo de Santo Agostinho, o filósofo e historiador francês Étienne Gilson oferece uma leitura profunda e acessível do pensamento agostiniano, buscando situá-lo em seu contexto histórico e filosófico, ao mesmo tempo que destaca sua atualidade. Gilson, um dos maiores especialistas em filosofia medieval, apresenta Agostinho não apenas como teólogo, mas como pensador completo, cuja filosofia é inseparável de sua experiência espiritual. A obra é construída com rigor acadêmico, mas sem deixar de lado a clareza e a elegância da exposição, tornando-se uma excelente porta de entrada para estudantes e interessados em filosofia cristã. O autor organiza o livro de forma didática, abordando as grandes questões que marcaram a obra de Agostinho: a relação entre fé e razão, o problema do mal, a interioridade do sujeito, a ideia de tempo e eternidade, entre outras. Gilson mostra como Agostinho integra influências do neoplatonismo, especialmente de Plotino, mas sempre reinterpretando-as à luz da revelação cristã. O ponto central de sua filosofia, segundo Gilson, é a busca pela verdade através da interioridade o famoso "Noli foras ire, in te ipsum redi" ("Não queiras sair de ti; volta-te para dentro de ti mesmo"). Essa valorização do interior humano como lugar privilegiado do encontro com Deus é o que confere originalidade e força à sua filosofia. Um dos méritos do livro está em mostrar que Agostinho não é um pensador sistemático no sentido moderno, mas um espírito em constante busca, movido por inquietações existenciais e uma fé viva. Gilson não o transforma em um pensador abstrato, mas o apresenta como alguém que pensa a partir da experiência, da conversão e da oração. Essa abordagem confere ao livro um tom quase meditativo em certos momentos, sem perder o caráter filosófico. Ao examinar obras-chave como Confissões, A Cidade de Deus e De Trinitate, o autor destaca a unidade interna do pensamento agostiniano, em que razão e fé se iluminam mutuamente. Introdução ao Estudo de Santo Agostinho é uma obra importante para compreender a importância duradoura do Bispo de Hipona na tradição ocidental. A edição da Paulus contribui para democratizar o acesso a um texto fundamental, com tradução clara e aparato editorial adequado. Mais do que uma introdução biográfica ou teológica, o livro é uma imersão no espírito filosófico agostiniano, guiada por um dos maiores intérpretes do pensamento cristão. É leitura indispensável para estudiosos de filosofia, teologia e todos os que desejam compreender as raízes intelectuais da cultura ocidental.
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