-MOTIVO I: PERSONAGEM FALHO
Ged é real. Ursula tinha tudo nas mãos para idealizar um personagem que passaria por diversos desafios resolvendo problemas que não são seus e recebendo méritos por isso. Mas ela decidiu fazer diferente: O protagonista se mostra ganancioso desde o início da história, ele sempre quer se provar perante os outros e não suporta ser rebaixado. Inclusive é isso o que lhe trás problemas. O único motivo de Ged ter que sair em uma jornada pelo Arquipélago, é manter-se longe das pessoas com as quais ele se importa, livrando-as assim, do perigo que o persegue. Perigo esse que o próprio menino foi responsável por libertar em Terramar.
-MOTIVO II: SIMPLES E DIRETO
São poucas as obras de fantasia capazes de cativar pela simplicidade. Na verdade, para não lhes faltar com sinceridade, a simplicidade de O Feiticeiro de Terramar me incomodou a um primeiro momento. Ursula soube sintetizar toda a proposta do livro, mostrando o crescimento de um personagem e ainda assim sendo bem direta. Eu não estava preparado para digerir uma obra de fantasia que não contasse com todo aquele floreio que é comumente observado na literatura fantástica mas, conforme a história foi passando, eu fui sendo cada vez mais sugado para dentro da diferenciada jornada do herói que o livro propõe. Digo diferenciada e explico no próximo motivo.
-MOTIVO III: JORNADA PESSOAL
A autora se valeu de questões muito mais internas para elaborar as quase 200 páginas que compõe esse livro. Novamente quebrando com a expectativa da maioria dos leitores, a autora criou um personagem solitário que lida muito mais com o seu eu que com o mundo lá fora. É óbvio que para a obra se desenvolver, Ged navega por grande parte do Arquipélago que é Terramar, afinal de contas, é assim que se consolida o seu famoso nome de Gavião. Pontuada por pequenas passagens por determinadas ilhas, a jornada do Gavião é muito mais valiosa nos momentos em que ele entra em confronto com as suas próprias questões.
-MOTIVO IV: QUESTÕES RACIAIS
Para quem não conhece Ursula K. Le Guin, é importante falar que a autora é muito ligada e ativa em questões sociais. Sabe quando dizem que determinada pessoa está a frente de seu tempo? Pois o nome do qual vos falo é o primeiro que me vem à cabeça. Ursula traz nesse livro questões que confrontam a sua época sorrateiramente e ainda assim com ideias fortes o suficientes para quebrar o preconceito de uma geração de jovens leitores. Publicada em 1968, a obra quebra com os ideais do herói branco que tanto para a época quanto para atualidade, temos que admitir, são um padrão. Ged tem a pele marrom-acobreada e Terramar, em quase sua totalidade, é composta por negros.
"Eu me opus à tradição racista, tomei uma posição - mas em silêncio, e isso passou praticamente despercebido. Infelizmente, na época, eu não tinha poder para combater a recusa pura e simples de muitos capistas em colocar pessoas não brancas na capa de um livro. Por isso, apesar de muitos Geds posteriores, de pele alvíssima, a ilustração de Ruth Robbins para a primeira edição - o perfil marcante e delicado de um jovem com pele marrom-acobreada- sempre foi para mim a verdadeira capa do livro" - Ursula K. Le Guin.
-MOTIVO V: NÃO HÁ GUERRAS
E assim como as subversividade usada no motivo anterior, temos um pouco no seguinte: Em momento algum no livro há guerras sendo travadas, combates sanguinolentos acontecendo. Entendo o seu questionamento, leitor, acredite. "Um livro de fantasia repleto de características medievais e sem batalhas? Como isso pode ser uma vantagem?" Isso para mim foi uma espécie de tapa de luva - principalmente quando os motivos para tal são explicados no posfácio escrito pela autora. Ela não queria resumir o livro à metáfora da guerra que, segundo ela, é limitada, limitante e perigosa. Ursula afirma, e eu concordo - apesar de campos de batalha serem cenários que me apetecem-, que resumir a complexidade de um conflito entre o certo e o errado, é um modo pueril, enganador e degradante, pois faz com que violência nesses casos seja sempre a resposta. O que difere o bem e o mal nesses cenários, é quase sempre o ponto de vista, visto que a reação de ambos para o conflito é a mesma: ofensiva de batalha.
Se opondo a isso, para se tornar o Gavião, Ged tem que enfrentar uma jornada de autodescoberta em que o os dois lados da moeda trazem a face do garoto. O certo e o errado são um só, e nenhum ao mesmo tempo.
-MOTIVO VI: AINDA É UMA FANTASIA
Mesmo sendo suporte para muitas questões propostas pela autora, O Feiticeiro de Terramar ainda é uma obra fantástica, com elementos cativantes para os amantes do gênero, como magos e feiticeiros, dragões e outros seres fantásticos. O sistema de magia é simples e satisfatório, e provavelmente vai agradar aqueles que, assim como eu, são devotos de Patrick Rothfuss. Em Terramar, o controle sobre as coisas se dá no momento eu que você domina o nome delas - algumas semelhança com os livros do Rothfuss? Acho que sim. Há uma escola de magia, magos mais instruídos que outros e por toda a Terramar há aqueles que cantam os grandes feitos dos heróis, assim como foram cantadas canções sobre o Gavião. O livro é contado de uma forma que climatiza a obra em um grau de lenda, isso se deve muito à narrativa simples e direta já citada, mas mesmo assim é impossível não dar aquela viajada e tentar enxergar a obra como uma lenda do nosso próprio mundo.
Todos os elementos do livro se rodeiam muito bem de modo a formar uma obra de fantasia cativante e desafiadora em suas questões. Sem dúvida esse seria um livro que eu recomendaria tanto a um novo leitor, que entraria na cena da fantasia com o pé direito e uma pisada muito bem dada, quanto para um com mais carga que, poderia se despir previamente das suas ideias sobre uma obra de fantasia ou, poderia assim como eu levar alguns tapas de luva, o que também não é má ideia.
- E AGORA, UNS EXTRAS:
Trata-se do 1º livro de uma série chamada O Ciclo de Terramar, que conta com mais 4 livros.
O Feiticeiro de Terramar, 1968
The Tombs of Atuan, 1971
The Farthest Shore, 1972 (Vencedor do National Book Award)
Tehanu: The Last Book of Earthsea 1990 (vencedor do prémio Nebula, em 1990, e do prémio Locus, em 1991
The Other Wind, 2001 (vencedor do World Fantasy Award, em 2002)