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    A Multidão Solitária -

    David Riesman

    Perspectiva
    1995
    390 páginas
    13h 0m
    ISBN-10: 852730645X
    Português Brasileiro
    4.1
    8 avaliações
    Leram14Lendo11Querem163Relendo0Abandonos1Resenhas2
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    A Multidão Solitária é, sem dúvida, um dos livros mais influentes de nosso tempo. Sua famosa análise da ?nova classe média? em termos de introdireção e alterdireção abriu novas e fascinantes dimensões para o entendimento e a pesquisa dos problemas econômicos, políticos e psicológicos com que se defronta o indivíduo não só na sociedade americana de hoje, como em toda parte onde a moderna civilização industrial e de massas instalou o seu ritmo e os seus processos. O desenvolvimento cultural, social e econômico do Brasil de nossos dias torna a leitura do livro de David Riesman de uma atualidade candente para quem quer que esteja estudando este processo, servindo inclusive de base fecunda para uma análise comparativa das mudanças ou não do caráter brasileiro.

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    Celso Zenaro picture
    Celso Zenaro14/08/2017Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Autonomia, Conformidade e a Vida Social Americana Segundo The Lonely Crowd

    Em The Lonely Crowd: A Study of the Changing American Character (1950), David Riesman, com Nathan Glazer e Reuel Denney, investiga como a sociedade americana do pós-guerra transformou a maneira de pensar, agir e se relacionar. A obra apresenta três tipos de personalidade — tradicional, inner-directed (voltada para o interior) e other-directed (voltada para os outros) — para mostrar como os valores e comportamentos dos indivíduos são moldados pelas mudanças históricas, econômicas e culturais. Riesman descreve, por exemplo, como a urbanização, a expansão da classe média e a cultura de consumo criaram novas formas de interação social, ao mesmo tempo em que antecipava fenômenos que hoje associamos às redes sociais e à influência da opinião coletiva. O livro combina análise sociológica e observação cultural, revelando os mecanismos sutis que orientam a conformidade, a autonomia e a identidade em sociedades em transformação. Para compreender The Lonely Crowd, é essencial situá-la no contexto histórico dos Estados Unidos no pós-guerra, um período de prosperidade econômica, reconfiguração social e consolidação do capitalismo de consumo. Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os EUA emergiram como potência global, impulsionados por um boom econômico que elevou o padrão de vida, expandiu a classe média e transformou os padrões de consumo. A suburbanização, simbolizada pelo crescimento de comunidades residenciais como Levittown, reforçou a homogeneidade cultural e a pressão por conformidade social. Ao mesmo tempo, o avanço dos meios de comunicação de massa — rádio, revistas e, especialmente, a televisão — amplificou a influência da publicidade, moldando aspirações e comportamentos.Sociologicamente, a obra dialoga com pensadores como Max Weber, cuja análise da ética protestante e do espírito do capitalismo ecoa na descrição do inner-directed, e Émile Durkheim, cuja ênfase na coesão social e na anomia ressoa nos desafios da sociedade other-directed. Riesman também se inspira na sociologia de Georg Simmel, que explorou a individualização e a influência das interações sociais nas grandes cidades, e na teoria crítica da Escola de Frankfurt, que examinou a manipulação cultural pela indústria cultural. Nesse sentido, The Lonely Crowd combina uma análise empírica do caráter americano com uma reflexão teórica sobre as tensões entre individualidade e conformidade em sociedades modernas. Riesman estrutura sua análise em três tipos de personalidade, cada um associado a diferentes estágios históricos e modos de socialização: 1.Tradicional: Característico de sociedades pré-modernas ou agrárias, o tipo tradicional é moldado por normas e costumes herdados, transmitidos por instituições como a família e a comunidade. No contexto americano, esse tipo era visível no início do século XX, em comunidades rurais ou entre grupos imigrantes, como italianos e irlandeses, que mantinham práticas culturais de suas origens. Historicamente, esse modelo reflete o que Ferdinand Tönnies descreveu como Gemeinschaft (comunidade), onde laços sociais são baseados na tradição e na proximidade. A autoridade familiar e comunitária é central, e o comportamento é pouco reflexivo, guiado pela continuidade histórica. 2.Inner-Directed: Com a Revolução Industrial e a expansão do capitalismo no século XIX, surge a personalidade inner-directed, marcada por um “compasso interno” — valores e metas internalizados na infância, principalmente pela educação familiar. Esse tipo, que Riesman associa ao espírito empreendedor americano, reflete a ética protestante descrita por Weber, com ênfase no trabalho árduo, na disciplina e na autonomia. No contexto americano, o inner-directed era predominante na era da fronteira e da industrialização, simbolizado por figuras como o pioneiro ou o industrial self-made. A urbanização inicial e a mobilidade social exigiam indivíduos capazes de manter coerência em seus objetivos, mesmo em contextos adversos. 3.Other-Directed: No pós-guerra, o tipo other-directed torna-se predominante, caracterizado por um “radar social” que ajusta o comportamento às expectativas externas. Esse tipo responde às condições de uma sociedade urbana, consumista e interdependente, onde a aprovação dos pares e a integração social são prioritárias. A ascensão desse modelo coincide com o que sociólogos como Daniel Bell chamaram de “sociedade pós-industrial”, marcada pela economia de serviços, pela burocratização e pela influência crescente da mídia. O cerne da análise de Riesman é a transição do inner-directed para o other-directed, impulsionada por transformações estruturais na sociedade americana. O pós-guerra trouxe uma prosperidade sem precedentes, com o PIB americano crescendo significativamente e o desemprego caindo para níveis historicamente baixos. A suburbanização, facilitada por políticas como o GI Bill, que proporcionou acesso a moradia e educação para veteranos, criou novos espaços sociais onde a conformidade era reforçada. Comunidades suburbanas, com suas casas padronizadas e estilos de vida homogêneos, incentivavam a comparação social e a busca por aceitação.A cultura de consumo, alimentada pela publicidade e pelos meios de comunicação de massa, desempenhou um papel central na consolidação do other-directed. Produtos como automóveis, eletrodomésticos e roupas de marca tornaram-se símbolos de status e integração social. A publicidade, que se profissionalizou com agências como a J. Walter Thompson, não apenas promovia produtos, mas criava aspirações de estilo de vida, reforçando a ideia de que o consumo era uma forma de pertencimento. Como apontado por Theodor Adorno e Max Horkheimer, a indústria cultural padroniza desejos e comportamentos, um fenômeno que Riesman observa na internalização de padrões midiáticos pelo other-directed. A transição para o other-directed reformulou as dinâmicas familiares e interpessoais. Na sociedade inner-directed, a família era o principal veículo de socialização, transmitindo valores rígidos que guiavam o indivíduo ao longo da vida. Esse modelo, enraizado em uma visão patriarcal e hierárquica, preparava o indivíduo para uma economia competitiva, onde a disciplina e a perseverança eram essenciais.Com o other-directed, a família assume um papel mais flexível, priorizando a sociabilidade e a capacidade de adaptação. Os pais, influenciados pela psicologia comportamental e pelas ideias de figuras como Benjamin Spock, passaram a valorizar a formação de filhos “bem ajustados” socialmente, capazes de se integrar a diferentes grupos. As escolas, por sua vez, reforçaram essa tendência, enfatizando a cooperação e as habilidades sociais em detrimento da competição individualista.Nas relações interpessoais, o other-directed privilegia laços baseados na aprovação mútua, o que resulta em vínculos mais fluidos, mas também mais frágeis. Riesman observa que amizades e relações profissionais no pós-guerra eram fortemente influenciadas por atividades compartilhadas, como o consumo e o lazer, refletindo o que Erving Goffman mais tarde descreveria como a “apresentação do eu” em interações sociais. Essa plasticidade relacional, embora funcional em uma sociedade plural, pode levar à superficialidade e à instabilidade identitária. A mudança de paradigma descrita por Riesman traz implicações éticas, econômicas e políticas profundas. No modelo inner-directed, a ética do trabalho está centrada na disciplina, na poupança e na valorização do mérito individual, promovendo estabilidade e consistência na vida profissional e pessoal. Já o other-directed introduz uma ética mais flexível, orientada pela adaptação às expectativas alheias e pela busca de aprovação social. Nesse contexto, o consumo deixa de ser apenas uma necessidade material e se transforma em um instrumento de pertencimento e distinção social, funcionando como marcador de integração e aceitação em grupos de referência. No campo político, a predominância do other-directed revela os desafios de uma sociedade em que a opinião pública é constantemente moldada pelo consenso social. A sensibilidade às expectativas coletivas torna o indivíduo mais propenso a seguir tendências e a aceitar normas sem questionamento, o que pode gerar decisões políticas superficiais e limitar o debate crítico. Por outro lado, essa adaptabilidade também facilita a cooperação e a integração social, permitindo que grupos se ajustem rapidamente a mudanças e construam consensos. Riesman mostra que, embora a sociedade other-directed seja mais flexível e conectada, ela também enfrenta o risco de enfraquecer a autonomia individual e de suprimir divergências, tornando a reflexão crítica um desafio constante. A análise de Riesman revela-se surpreendentemente pertinente quando projetada para a era digital. Plataformas como X, Instagram e TikTok amplificam de maneira inédita o comportamento other-directed, ao transformar a aprovação social em métricas quantificáveis — curtidas, compartilhamentos, comentários e seguidores passam a funcionar como indicadores imediatos de aceitação ou rejeição. O “radar social” descrito por Riesman opera agora em escala global, exigindo dos usuários uma constante negociação de sua imagem, opiniões e estilo de vida para se manterem alinhados às expectativas das comunidades virtuais. Nesse cenário, o consumo transcende a esfera material, incorporando experiências, hábitos e comportamentos exibidos online, que se tornam verdadeiros marcadores de pertencimento e distinção social. Além disso, as redes sociais exacerbam os riscos que Riesman já havia identificado na sociedade other-directed. A superficialidade das relações, antes mediada por interações presenciais, intensifica-se à medida que vínculos digitais podem se tornar transitórios, baseados mais em aprovação imediata do que em conexão genuína. A exposição constante ao olhar do outro aumenta a vulnerabilidade emocional, gerando ansiedade, comparação social e uma dependência crescente da validação externa. A pressão por conformidade limita, ainda, a expressão de identidades autênticas, favorecendo perfis cuidadosamente curados e ajustados a tendências dominantes, em detrimento da espontaneidade e da reflexão pessoal. The Lonely Crowd é uma obra visionária que combina rigor sociológico com uma análise perspicaz das transformações culturais e históricas. Ao explorar a transição do inner-directed para o other-directed, Riesman ilumina as tensões entre autonomia e conformidade, individualidade e pertencimento, que continuam a definir a modernidade. Sua análise, enriquecida pelo diálogo com teorias sociológicas clássicas e pelo contexto do pós-guerra, oferece uma lente poderosa para compreender tanto a sociedade americana de meados do século XX quanto os dilemas da era digital.Riesman não defende a rejeição do other-directed, mas sugere a necessidade de equilibrá-lo com elementos do inner-directed, promovendo uma educação crítica que valorize a reflexão autônoma sem sacrificar a sociabilidade. A obra permanece indispensável para quem busca entender as dinâmicas da sociedade contemporânea, desde a cultura de consumo até os impactos das redes sociais, e inspira reflexões sobre como preservar a individualidade em um mundo marcado pela interdependência e pela busca constante por validação social.

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